O Irã, a civilização e os negócios

Por Clóvis Rossi
FSP

Menos mal que o governo brasileiro, por meio do chanceler Celso Amorim, tomou coragem, finalmente, para telefonar a seu colega iraniano, Manouchehr Mottaki, para manifestar preocupação com a condenação à morte por apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, acusada de adultério.

É verdade que manifestar preocupação é pouco, muito pouco. O que qualquer cidadão civilizado deveria dizer às autoridades iranianas é que a pena de lapidação, prevista no Código Penal do Irã, é bárbara, medieval, inconcebível, e portanto deveria ser revogada o mais depressa possível.

Mas, enfim, é uma reação mais positiva do que o dar de ombros e justificar com “negócios são negócios” as relações com a Guiné Equatorial, uma expressão, aliás, que vale para as relações Brasil/Irã.

A diplomacia brasileira não deveria ter medo de pôr o dedo nas chagas iranianas. A União Europeia, por exemplo adotou sanções unilaterais, em seguida à decisão do Conselho de Segurança de impor a quarta rodada de punições aos iranianos. Reclama continuamente das violações aos direitos humanos.

Não obstante, sua nova responsável por assuntos internacionais, Catherine Ashton, está se esforçando ativamente para conseguir um lugar para o conglomerado europeu na mesa de negociações sobre o dossiê nuclear. O Irã não bateu a porta na cara dos europeus, talvez porque dependa deles, mais do que Brasil e Turquia, para romper o cerco sobre seu programa nuclear.

Faz pouco, Ali Akbar Salehi, chefe da Agência iraniana de Energia Atômica, teve a candura de reconhecer que as punições podem, sim, entorpecer o programa nuclear, situação que jamais alguma alta autoridade persa tiveram a ousadia de proclamar publicamente.

Seria conveniente que o Itamaraty anotasse também declaração recentíssima, capturada pela revista alemã “Der Spiegel”, do embaixador dos Emirados Árabes Unidos nos Estados Unidos,Yousef Al Otaiba, dadas em Aspen, no Colorado.

Perguntado se os emirados apoiariam um ataque aéreo israelense contra as instalações nucleares do Irã, o embaixador Otaiba respondeu: “Um ataque militar ao Irã por quem quer que seja seria um desastre, mas o Irã com armas nucleares seria um desastre ainda maior”.

Acrescentou que surgiria, em consequência, uma onda de protestos nas ruas [dos países árabes] e “muito descontentamento com uma força externa atacando um país muçulmano”.

Mas, emendou, “se você me perguntar se estou pronto para viver com isso [os protestos], estou, mas nós não podemos viver com um Irã nuclear”.

A questão iraniana, portanto, vai muito além da bomba, do eventual conflito Ocidente/Islã ou civilização x barbárie. Abraçar pura e simplesmente o regime, como a diplomacia brasileira já fez uma e outra vez, é certamente ruim para a imagem de um país democrático e respeitador dos direitos humanos e pode ser ruim até para os negócios com o mundo árabe (ao menos com o mundo árabe não-xiita, de resto majoritário).

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