O Iraque, triturado entre EUA e Irã

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online
Publicado no Vi o Mundo

Mais de sete anos depois de os EUA terem invadido o Iraque para levar “democracia” ao país, os neoconservadores que inspiraram o projeto podem pelo menos experimentar o prazer perverso de assistir à vitória do sectarismo, nas eleições de março, no Iraque, ao mesmo tempo em que assistem a duas derrotas: do ex-primeiro-ministro e aliado da CIA Iyad Allawi, e do atual primeiro-ministro e aliado do Irã Nuri al-Maliki.

Tecnicamente, a lista eleitoral de Allawi (“Iraqiya”, Lista Iraniana) elegeu 91 deputados à próxima Assembleia Nacional; e a de Maliki (Lista “Estado de Direito”) elegeu 89 deputados. Os sadristas elegeram 38 deputados, dos 70 do bloco “Aliança Nacional Iraniana [ing. Iraqi National Alliance (INA)]. A Aliança do Kurdistão obteve 43 assentos-votos na Assembleia. Outros pequenos partidos alcançaram 33 assentos-votos. O grande derrotado foi o Conselho Supremo Islâmico do Iraque [ing. Islamic Supreme Council of Iraq (ISCI)], que integra a INA. O sectarismo venceu.

Uma coisa já é virtualmente garantida: Allawi lutará para ser primeiro-ministro. E Maliki também, com absoluta certeza. Resta entender por quê.

A coalizão de Allawi é grupo heterogêneo de ex-ba’athistas (como Allawi), sunitas e xiitas seculares, nacionalistas, os que votam contra interferência iraniana, mais uma coleção de partidos de província. Allawi é fortemente apoiado por todos os Estados sunitas do Golfo – especialmente a Arábia Saudita. Garantiu quantidade surpreendente de votos sunitas no norte e oeste do Iraque. Em Bagdá, recebeu não só os votos dos sunitas remanescentes (a cidade é hoje predominantemente xiita), mas também muitos votos de xiitas seculares.

Na coalizão “Estado de Direito” de Maliki, o poder predominante é seu partido Da’wa Islâmico. Antes da eleição, Maliki deitou-se com a Aliança Nacional Iraquiana; e organizou o que, para todos os objetivos práticos, foi um expurgo nos imensos aparelhos de segurança e inteligência (os quais, de fato, são pagos por contribuintes norte-americanos).

A Aliança Nacional Iraniana, ela mesma, foi construída em Teerã no verão de 2009, enquanto o falecido Abdul Aziz al-Hakim, líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, agonizava. Seu filho, Ammar al-Hakim, é hoje líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. A trégua-chave entre Muqtada al-Sadr e al-Hakim foi construída por ninguém menos que o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, iraquiano nascido em Najaf, além de comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Force of the Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)].

Agora, Teerã partiu para a luta no centro do ring. Nos últimos dias da semana passada, encontro em Teerã reuniu gente de Maliki, sadristas, o presidente Jalal Talabani (curdo), e o vice-presidente Adil Abdel Mahdi, do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. Objetivo: encontrar meio de costurar uma coalizão não-liderada por Allawi. De fato, a única saída possível para o Iraque é um governo de unidade nacional, mas que inclua o pessoal de Maliki, o pessoal de Allawi e os sadristas. Mais fácil falar, que fazer – porque os sadristas odeiam Maliki; foi ele quem lançou o exército iraquiano contra o Exército Mahdi em Basra e Bagdá no verão de 2008.

As milícias, à espera dos acontecimentos

Apesar da muita conversa sobre ‘democracia’, o Iraque continua a ser o paraíso das milícias. Todos têm sua milícia – dos curdos ao Exército Mahdi dos sadristas, para não falar da notória Brigada Badr do Conselho Supremo Islâmico do Iraque. A antiga resistência iraquiana sunita – de Ansar al-Islam às Brigadas da Revolução de 1920 – parece ter-se desarmado, mas de fato está à espera dos acontecimentos. O movimento Sahwa (“Despertar”) – que a mídia corporativa nos EUA considera “heróis” da luta contra a al-Qaeda – é pura confusão. A “Al-Qaeda na Terra dos Dois Rios”, parte do Estado Islâmico do Iraque [ing. Islamic State of Iraq (ISI)], e uma amostra sortida de vários pequenos grupos jihadistas, podem estar dormindo no momento, mas não dormirão por muito tempo.

Qualquer chance que haja de Allawi chegar ao poder implicará negociação extremamente improvável com os curdos – inimigos muito falantes dos aliados árabes nacionalistas de Allawi, sobretudo na disputada Mosul. Allawi também precisará do apoio dos pequenos partidos. E Allawi não conseguirá atrair os sadristas; primeiro, porque são anti-Ba’athistas ferozes; segundo, porque estão presos numa aliança de fato com o Irã desde 2007. Muqtada está vivendo e estudando em Qom. O apelo chave dos sadristas, que atrairá tanto sunitas quanto xiitas, é exigir a imediata retirada de todos os soldados dos EUA.

Há sete anos, a aniquilação da já depauperada máquina militar de Saddam pode ter posto fim a uma das perenes “ameaças existenciais” contra Israel. Quanto a saquear as fabulosas reservas de petróleo do Iraque, o negócio será muito mais complicado, sobretudo agora, quando as gigantes chinesas e russas do petróleo estão de volta ao jogo (ver “Iraq oil auction hits the jackpot”, Asia Times Online, 16/12/2009, http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/KL16Ak02.html).

Com retirada ou sem retirada, Washington tem de permanecer no Iraque, e com força, para tentar lucrar na nova bonanza da energia. Portanto, aquela mega-descomunal fortaleza (orçamento previsto para 2010: US$675 milhões) disfarçada como Embaixada dos EUA e recheada com mais de 10 mil agentes de inteligência, é indispensável.

Portanto, o cenário está preparado para a eclosão de um grande show de fogos. A jogada de Washington é fazer de tudo para fortalecer Allawi. A jogada de Teerã é fortalecer Maliki, os sadristas e o Conselho Supremo Islâmico do Iraque (ISCI) dentro da Aliança Nacional Iraniana, e os curdos – todos contra Allawi.

Em mais uma pungente ironia das muitas que há na tragédia do Iraque, se Allawi, conhecido também como “Saddam light”, perder tudo, pode-se apostar um carro cheio de explosivos em que os sunitas tornar-se-ão, literalmente, míssil-balísticos.

Reina hoje no Iraque o sectarismo, não alguma “democracia”.

Pepe Escobar é jornalista e escritor; acaba de lançar Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009). Recebe e-mails em pepeasia@yahoo.com

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