O “jass”, de A a ZZ

Por Marcelo Coelho
FSP

A palavra “jass” teria origem no “jasmim”, fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans

Está disponível nas bancas de jornal uma série de documentários sobre jazz, feita por Ken Burns, em 12 DVDs. Recomendo. Verdade que entendo pouquíssimo de jazz e por isso mesmo devo estar passando por cima daquele tipo de defeito que todo aficionado sabe apontar.

“Ah, esqueceram de Fulano, não deram importância à segunda fase de Beltrano no selo Verve…” etc. Também, o que fazer? Como em certa fase do cinema norte-americano, sempre que alguém é chamado de gênio, aparecem outros dez ou 20 nomes à sua volta mais geniais ainda. A mina de ouro parece nunca se esgotar.

Ou melhor, quem se esgota é o leigo no assunto, desconfiando de certo excesso de entusiasmo do interlocutor. No jazz, entretanto, isso pode ser mais verdade do que no cinema. Um músico termina estimulando o outro, e a possibilidade dos encontros e parcerias é obviamente maior do que entre diretores de cinema.

Comecei assistindo aos filmes sobre nomes e épocas que eu conhecia um pouco mais: Billie Holiday, Duke Ellington, os anos 30 e 40, como convém à minha caretice.

Uma surpresa foi ver as “big bands”, do gênero Benny Goodman (foto), terem para a época a mesma função que, décadas depois, seria exercida por Elvis Presley e Beatles.

O frenesi dos fãs e a agitação maluca dos salões de baile não têm nada em comum com a suavidade cheirando a brilhantina que pode ser associada a músicas tipo “Moonlight Serenade”, de Glenn Miller.

Filmes de época, reproduzidos no documentário, mostram que muitos americanos, mesmo brancos, já sabiam chacoalhar-se bastante antes do rock. Em 1937, o desvairado baterista anão Chick Webb foi, segundo alguns dos entrevistados no documentário, o vencedor de um duelo histórico contra a banda rival de Benny Goodman.

Claro que as opiniões divergem.

Vendo as cenas daquele encontro, preservadas no DVD (sempre com ótima qualidade de imagem), a única coisa que se pode concluir é que estava em jogo, também, a resistência física dos participantes e dos ouvintes. A bateria de um e a clarineta do outro só faltaram explodir os pulmões, o coração e os músculos de todos, além das paredes do “dancing hall”.

As fotos utilizadas no documentário -e Ken Burns é mestre em destacar detalhes significativos de cada imagem individual– são tão boas quanto os filmes históricos. Cada grande músico parece ter tido um grande fotógrafo ao seu lado.

Cometi o erro de deixar para depois o primeiro volume, dedicado aos anos 1890-1917. Parecia antigo demais; e ponha antigo nisso. É o tempo em que escreviam “jass”, em vez de jazz. A palavra, segundo dizem, teria origem no “jasmim”, fragrância preferida das prostitutas de Nova Orleans.

Até pelo que conta da cidade (meio brasileira, com uma população mestiça recusando suas origens africanas), esse capítulo inicial é indispensável. Vê-se o autointitulado “criador do jazz” Nick La Rocca, um descendente de italianos, negar qualquer influência dos negros naquele estilo musical.

Tensões raciais (e a sua superação gradativa) estão presentes, claro, o tempo todo no documentário. O caminho do humorismo popular, com um pé no grotesco e na visão estereotipada do negro, até a erudição quase impenetrável do “free jazz” se percorre em cinco ou seis décadas.

Talvez a erudição não seja questão deste ou daquele traço estilístico particular, mas de mero acúmulo quantitativo. O número das referências, daquilo que cada artista sabe ser do conhecimento de seu público, vai aumentando.

E cultura não é apenas “expressão” de um sentimento ou uma forma específica de linguagem. Não é também só “o que você sabe”. Tudo dá um salto, na verdade, quando “você sabe que o outro sabe”. Esse salto, que acompanha a liberação dos costumes e também a ascensão política e social dos negros, talvez seja a verdadeira história do jazz.

Assim parece, ao menos, quando se vê o documentário de Ken Burns -e se ouvem os comentários e exemplos musicais (infelizmente poucos) de um de seus entrevistados.

Pela simpatia, pela emoção e pela clareza dos comentários, Wynton Marsalis (trompetista de jazz e de música clássica ao mesmo tempo) vale, sozinho, o preço (R$ 19,90) de cada fascículo.

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