O jeito é politicar a música brasileira

Por Pedro Alexandre Sanches
Na Carta Capital

Tom Zé lança disco, faz show e, apesar de contestador, rejeita o engajamento

A música brasileira é pródiga em histórias sobre músicos presos pela ditadura, e Tom Zé não foge à regra. Em entrevista inserida no novo DVD O Pirulito da Ciência (Biscoito Fino), o compositor e cantor baiano toca no assunto. Suas lembranças são pouco traumáticas e nada glamourosas. A primeira prisão aconteceu em 1972, pelo fato de o artista manter contato com um italiano que queria editar suas músicas no país natal e acabou preso por suspeita de contrabando de armas (segundo Tom Zé, o amigo só contrabandeava pedras semipreciosas – daquelas vendidas na praça da República). “Quem me prendeu, graças a Deus, foi a Polícia Federal, que naquele tempo não prendia bandido, prendia artista”, ele graceja. “Fui preso no Fundão do Dops, mas, como não sou de contar folclore… A pessoa conta logo que toma porrada, que vai para o pau de arara… Eu não vi nada disso.”

Sua grande apreensão, na ocasião, dizia menos respeito a ele próprio que a duas de suas irmãs, Estela e Lúcia. “Meu tempo de universitário de esquerda foi mais mole. Elas vieram depois e já pegaram o tempo em que se assaltava banco. Meu maior medo, na prisão, era de que pedissem satisfação de minhas irmãs. Elas estavam no Chile, com Geraldo Vandré, hospedadas pelo presidente, como chama? Allende. Quando Allende caiu, elas, e no rolo também o Vandré, foram parar na França”, diz.

O interrogatório a que se submeteu foi peculiar. “O agente me fez a primeira pergunta: ‘Silvio Santos é um cara legal?’ Pô, aonde vai parar isso? ‘É, legal.’ ‘E Hebe?’ ‘É, também.’ Foi meu interrogatório”, ri. “Mandaram pedir informação à Bahia, fiquei uma semana preso esperando chegar a informação por telégrafo. A Bahia não tinha informação minha, e olha que eu tinha sido o único funcionário assalariado do Partido Comunista no CPC (Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes).”

A segunda experiência ocorreu em prisão comum. “Na Polícia Federal não foi uma prisão tão traumática. Na comum foi, mas não conto a ninguém o que aconteceu lá dentro. Logo na entrada vi coisa feia como o diabo.” O motivo da prisão, dessa vez, estava ligado aos “bons costumes”. “Acharam um pitombo de maconha dentro da minha frasqueira de viagem. Nunca fumei maconha, tenho asma. O cigarro foi parar lá sem eu fumar”, explica o artista.

O episódio descortinou, para ele, traços do relacionamento clandestino entre a polícia da ditadura e a classe artística: “Entraram na minha casa com permissão do juiz, algum artista que foi preso antes de mim me denunciou. Era uma corrente de Santo Antônio, foi esse meu terror. Só poderia sair se denunciasse alguém”.

Não quer dizer, mas afirma saber, sem certeza absoluta, quem o denunciou: “Pelo que tinha ouvido contar e pelas pessoas que tinham sido presas recentemente, decifrei quem foi. Deve ter pensado: ‘Esse aí é um babaca, nego vai chegar na casa dele e não vai achar nada’.” Afirma que foi resgatado por interferência de O Estado de S. Paulo, sem precisar prosseguir a corrente.

Guarda lembranças boas de personagens secundários das duas epopeias. “Os humildes se juntam com os pobres, não é?” No Dops, dois carcereiros avisaram aonde ele estava à esposa, Neusa. Da prisão comum, conta esta história: “O investigador mandou chamar o zelador do meu prédio, olha a coragem do Chico da Paraíba. Ele disse: ‘O senhor me chamou, me mostrou um cigarro e disse que achou dentro da frasqueira dele, mas eu não vi o senhor achar o cigarro’”.

Aos 73 anos, Tom Zé se classifica entre os artistas brasileiros mais preo-cupados em politizar a música, como atestam no DVD retrospectivo números como Companheiro Bush, Classe Operária e Politicar, ou ainda temas sempre incluídos em shows como os que faz no Sesc Pompeia entre 9 e 11 de abril, como O PIB da PIB (Prostituir), sobre prostituição infantil. Ainda assim, rejeita os rótulos de “engajado” ou “cantor de protesto”. Parece ter em mente o protesto ortodoxo de Geraldo Vandré e outros, questionado por seu grupo, que viria a arquitetar a Tropicália a partir de 1967.

“Música de protesto é um método jesuítico, como o que (o educador) Paulo Freire chama de ‘hospedar o opressor’. Eu faço Classe Operária como se fosse o opressor hospedado no cantor”, explica, em referência aos versos: sobe no palco o cantor engajado Tom Zé/ que vai defender a classe operária, salvar a classe operária e dizer o que é bom para a classe operária/ nenhum operário foi consultado/ não há nenhum operário no palco, talvez nem mesmo na plateia/ mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Por aversão ao protesto tradicional, deprecia a contestação que pratica: “O tipo de coisa inócua que faço diverte pessoas que, no dia seguinte, vão trabalhar nas multinacionais”. Justifica-se: “Não tiro quem está no sinal de trânsito, eu tenho um limite. Só sei trabalhar num setor em que, quando a sociedade baixa a guarda e mostra sua verdadeira fisionomia, desonesta, tenho rapidez de fotografar e botar em texto, em canção”. Sem querer, ele define nas poucas palavras a combustão tropicalista que redundou em prisões, repressões, exílios e sucessos vividos de modo menos luminoso por ele que por seus pares.

Em 9 de dezembro de 1968, Tom Zé venceu o festival de música da Record com São, São Paulo, Meu Amor, entre versos como: salvai-nos por caridade/ pecadoras invadiram/ todo o centro da cidade/ armadas de ruge e batom/ dando vivas ao bom humor/ num atentado contra o pudor/ a família protegida/ o palavrão reprimido (o termo original na letra era “prostitutas”, censurado). Dois dias depois, em 11 de dezembro, a Câmara Federal negou ao ministro da Justiça uma autorização para processar o deputado Márcio Moreira Alves, por conta de um discurso proferido dois meses antes, do qual Tom Zé diz se lembrar: “Isso é sensacional, ele dizia: ‘as mulheres dos militares não devem dormir mais com eles enquanto as Forças Armadas estiverem cometendo esse tipo de violência pública’. A terribilidade do discurso dele foi invocar as mulheres dos militares”.

Em 13 de dezembro, quatro dias após a vitória de São, São Paulo e dois dias depois da recusa à punição do deputado, foi decretado o Ato Institucional no 5. E a revolução comportamental proposta pela Tropicália, interrompida. Tom Zé ficou por aí, indisposto com os outros tropicalistas, sem fazer o sucesso que, como eles, também mereceria, e sendo preso por motivos banais.

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