O lado humano

Por Marcelo Coelho
FSP

A ideologia é o de menos: estamos torcendo pela vitória da competência sobre a incompetência

J. Edgar Hoover era um monstro, e um dos méritos de Clint Eastwood, em seu filme sobre o chefão do FBI, foi o de não torná-lo menos monstruoso, mesmo depois que o espectador fica conhecendo melhor o “lado humano” do personagem.

Mentiroso, paranoico, chantagista, brutal -por algum milagre, todo esse acúmulo de coisas antipáticas consegue ganhar, não digo empatia, mas cumplicidade por parte do espectador do filme.

É que, como em tantas produções hollywoodianas, celebra-se acima de tudo a grandeza de uma pessoa que é boa no que faz.

O sujeito pode ser um policial assassino, um psiquiatra corrupto, um jogador de pôquer especializado em maltratar velhinhas. O que importa é que ele seja o mais esperto dos policiais, o mais brilhante dos psiquiatras, o melhor jogador de pôquer do Oeste -basta isso para o filme nos conquistar.

Eis então o jovem John Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) lutando com máxima convicção por uma causa correta: a unificação do arquivo de impressões digitais das polícias estaduais americanas.

A ideologia é o de menos: estamos torcendo pela vitória da competência sobre a incompetência.

Acresce o fato de que os primeiros passos de Hoover, na criação do moderno FBI, dirigiam-se na perseguição dos responsáveis por uma onda de atentados terroristas (alguém se lembrava disso?) nos Estados Unidos de 1919.

Muito do que se viu depois do 11 de Setembro já estava lá: desrespeito ou distorção das leis e dos princípios constitucionais, crônico risco de cometer-se injustiça contra inocentes. Não faz mal, parece dizer o filme, uma vez que os terroristas foram mesmo descobertos.

Não há nenhuma cena mostrando gente honesta sendo deportada, famílias chorando, pessoas apanhando sem razão.

Princípios constitucionais são coisa abstrata no filme, enquanto a luta de Hoover é concreta.

Em todo o caso, os sucessos iniciais do personagem são logo eclipsados pela intenção crítica do filme. Cada vez mais delirante e direitista, Hoover dedica mais tempo a investigar a vida pessoal de John Kennedy e Martin Luther King do que a prevenir o assassinato dos dois.

Ainda assim, parece dizer Clint Eastwood, perto do que seriam as investigações e chantagens tentadas pelo governo Nixon, a sordidez de Hoover merece algum desconto.

A estratégia do ruim contra o pior encontra paralelo na maquiagem do filme. Os atores coadjuvantes, quando envelhecem, estão com uma maquiagem tão ruim, e são tão capengas os sósias de Nixon e Bob Kennedy, que qualquer falha na caracterização de Leonardo DiCaprio como Hoover fica impossível de perceber.

Falta falar do “lado humano”. Com toda a sua violência implacável, Hoover ocultou durante toda a vida uma preferência homossexual.

Nada melhor para o surgimento de um bom detetive do que o fato de ele precisar muito esconder seus próprios segredos. Em “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras”, de Guy Ritchie, a velha suspeita de uma paixão entre Holmes e Watson é tratada com explícito deboche.

A exemplo da dupla Walter Matthau e Jack Lemmon em “A Primeira Página”, a união profissional faz tudo para estragar uma viagem de núpcias; mas aqui os indícios de homossexualidade se repetem tanto que a graça da coisa está em que ninguém precisa ser detetive para percebê-los.

Tudo leva a crer que, às voltas com a “decadência moral” de seu país, Hoover se tornou inteligente (e paranoico) graças ao esforço de negar o que via como decadente dentro de si mesmo.

No filme de Clint Eastwood, o personagem de Leonardo DiCaprio cita involuntariamente Oscar Wilde: “Matamos aquilo que mais amamos”. A frase se refere ao pessimamente levado caso de amor entre Hoover e seu ajudante, Clyde Tolson.

Mas poderia referir-se -e nisso “J. Edgar” não decepciona seus espectadores- ao próprio sistema político americano. Liberdade e democracia, de tanto esforço dos que queriam protegê-la de comunistas e terroristas, terminam ameaçadas o tempo todo.

É que seus defensores, muitas vezes, convivem com uma brutal ditadura da sexualidade dentro deles mesmos. Natural que descontem sua opressão interna nos coadjuvantes que tenham por perto -da secretária do escritório ao “paiseco” latino-americano mais próximo.

Quem sabe alguma “História Politicamente Correta da América Latina” pudesse ser escrita -sem a chatice que promete o título.

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