O leão e a minissaia

Por Marcelo Coelho
FSP

Acontece que o “machão” sente-se pessoalmente interpelado pela minissaia de uma mulher belíssima

POR MAIS opostas que sejam, manifestações e marchas em defesa disso ou daquilo têm pelo menos uma coisa em comum: suas palavras de ordem são bastante previsíveis.

Um movimento por maiores salários de professores certamente terá cartazes dizendo “reajuste já”, ou coisa parecida. Se for contra a presença americana no Iraque, o velho “yankee go home” e suas variantes terão de aparecer.

Uma manifestação contra a homofobia terá, aposto, placas de “abaixo a homofobia”. Você pode ser contra ou a favor, mas dificilmente uma frase de passeata vai ajudar você a mudar de opinião.

Vi na internet várias fotos da chamada “Marcha das Vagabundas”, ou “Marcha das Vadias” (qual será o correto?), ocorrida sábado passado em São Paulo.

Ali, aconteceu uma coisa rara. Slogans criativos e frases que, a mim pelo menos, fizeram pensar.

O movimento afirma o direito de as mulheres se vestirem de modo “provocante” (e o termo já assume agora conotações machistas para mim), sem terem de passar por constrangimentos ou coisa pior.

Eis o que dizia um dos cartazes da marcha: “Acredite ou não, minha saia curta não tem NADA a ver com você”.

A ficha caiu, não sem alguns arranhões internos, no meu cérebro de meia-idade.

Nada a ver comigo? Nada mesmo? Rememorei brevemente várias das saias curtas que vi ao longo da vida. E era verdade: por mais que eu quisesse, não queriam nada comigo. Fui ignorado, fui desprezado na maior parte das vezes; confesso que frequentemente tomei isso como ofensa pessoal.

Minha reação, na teoria pelo menos, foi reagir como todo machista padrão. “Se elas se vestem assim, como é que não querem que eu me interesse?”

Mas a ficha, ao cair, deu sua resposta a essa questão. Há muitas razões, fiquei pensando, para uma mulher usar uma minissaia espetacular. Pode estar se mostrando linda para o namorado, para ela mesma, ou para o mundo -o mundo em geral…

Acontece que o “machão”, ou, arrisco-me a dizer, a maioria dos homens, sente-se pessoalmente interpelado pela minissaia da mulher belíssima. “É comigo”, pensa ele. “Afinal, não sou o centro do mundo?”

Não é um jogo de palavras dizer que, ao longo de séculos, o homem se viu sempre na situação de “sujeito” das ações, de “sujeito” da frase. Na maioria das vezes, e quase automaticamente, quem dizia “eu” já estava ocupando a posição masculina.

Eu te quero, eu te amo, eu vou, eu faço, eu digo. Você diz sim, você dá, você fica, você ouve, você obedece. Alguma dúvida de que, ainda hoje, associamos esse “eu” ao homem, e esse “você” à mulher?

O slogan da marcha foi eficaz, acho, porque seguiu precisamente o modelo da “interpelação”. O homem que se sente interpelado pela minissaia foi, agora, interpelado pelo slogan: a minissaia não tem nada a ver COM VOCÊ.

O “sujeito-macho” ainda tem, contudo, uma resposta alternativa. Não, nunca me senti o centro do mundo, não acho que a minissaia traga alguma mensagem específica para mim.

O problema é que, ora bolas, não sou apenas um sujeito individual. Sou um sujeito “da espécie” masculina. Um internauta, citado no blog “Escreva Lola escreva”, argumenta nesses termos.

Imagine que um leão faminto se vê, de repente, diante de uma picanha. Pior: que alguém ofereça a picanha para ele. Seria pedir demais que ele dominasse os seus instintos e “respeitasse” a picanha.

Há diversas respostas a essa linha de argumentação, a começar pela de que somos seres humanos (e não leões) exatamente porque domamos o instinto sexual e o de sobrevivência. Não fosse assim, faríamos sexo com pai, mãe, irmãos e irmãs, e todos se matariam depois.

O principal, contudo, está no fato de que o raciocínio pressupõe que homens e mulheres são espécies biológicas diferentes. Predador e presa, leão e gazela.

Mais ainda: sempre desconfio quando alguém se diz dotado de instintos poderosíssimos. Ele os governa, claro, senão já teria sido preso. E pode até ser que ele, no fundo, duvide de seus superpoderes. A cada minissaia que ele não agarra, sente-se menos macho do que gostaria.

O leão faminto nem sempre está com seus dentes muito afiados. A minissaia sabe disso também -e provavelmente é por esse motivo que o leão a xinga tanto.

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