O legado de bin Laden aos EUA

Por Tom Engelhardt, Tom Dispatch
Tradução do Coletivo da Vila Vudu

Nos anos 1960s, o senador George Aiken de Vermont apresentou a dois presidentes dos EUA um plano para resolver a guerra do Vietnã: declare vitória e volte para casa. Foi completamente ignorado, mas o plano pode ser aproveitado agora, para pôr fim à guerra no Afganistão-Paquistão, já no décimo ano.

Como quem não seja cego, surdo e idiota já sabe, Osama bin Laden foi morto. Literalmente. Por SEALs da Marinha. Ou, como cantava a multidão que apareceu à frente da Casa Branca no domingo à noite, com melodia de “O Mágico de Oz”: “Ding, Dong, Bin Laden morreu”.

Seria facílimo se bin Laden fosse o Feiticeiro do Mal, e bastasse dar três pulinhos com os famosos sapatinhos vermelhos, dizer “nosso lar é o melhor lugar do mundo” e voltar imediatamente para Kansas. Ou como se fosse o Dia da Vitória sobre o Japão, e o beijo de um marinheiro bastasse para resolver tudo. [1]

Infelizmente, em todos os sentidos que interessam aos norte-americanos, a morte de Bin Laden é fantasia: o homem está vivo e continuará a barrar qualquer mudança na atual política de Barack Obama no Afeganistão, e a culpa é nossa, dos norte-americanos, que insistimos em permanecer no campo de batalha que George W. Bush pomposamente batizou de “guerra ao terror”. O mundo árabe, sim, deixou bin Laden na poeira, mesmo antes da bala que o matou. (…)

Considerem insulto ou ironia, mas o mundo que bin Laden realmente alterou para sempre não foi o Grande Oriente Médio. Foi o nosso, os EUA. Festejem a morte do homem, joguem o corpo ao mar, distribuam ou não distribuam fotos, e nada alterará essa evidência: o fantasma continua a nos assombrar, e assim será, enquanto Washington insistir naquelas guerras mortais, desastrosas, lá, no mundo de bin Laden.

O Tao do terrorismo

Se coubessem metáforas de “O Mágico de Oz”, bin Laden estaria mais próximo do Mágico do que do Feiticeiro do Mal. Afinal, o que foi bin Laden, senão um homenzinho projetado sobre uma tela que o fez parecer gigantesco nos EUA, como um Hulk, um supervilão, praticamente uma superpotência inimiga? (…)

Bin Laden jamais foi Hitler, nem seus soldados foram como os batalhões nazistas; nem foi Joseph Stalin e seus burocratas, apesar de várias vezes, à falta de metáforas, ter sido comparado a eles. (…)

Apesar dos traços apocalípticos da destruição que os seguidores de bin Laden causaram em New York e no Pentágono, o homem e os assassinos que o seguiam nunca foram além das dimensões de inimigo pequeno, quase insignificante, se se comparam os exércitos de bin Laden e dos EUA. Se o governo Bush tivesse investido suas energias mais em perseguir um bandido conhecido, do que em invadir e ocupar o Afeganistão e depois o Iraque, não há dúvidas de que bin Laden estaria morto – ou processado e condenado e preso – em prazo muito mais curto que dez anos de guerras; e com número muito menor de mortos.

A desgraça dos EUA – e a correspondente boa sorte de bin Laden – foi que a mania de grandeza de Washington não tomou o rumo da fantasia de ser “polícia global”, à caça de um criminoso, mas tomou o rumo de “superpotência imperial”, cujos líderes decidiram assenhorear-se de todo o petróleo do mundo, e trancafiá-lo numa Pax Americana prevista para durar décadas. Assim sendo, quem queira escrever obituário para bin Laden, apresente-o como um mágico que usou os ataques do 11/9 para amplificar muito os seus próprios magros poderes… e deu certo.

Bin Laden, no máximo, só teria meios para lançar grandes operações a cada dois anos; Washington – com recursos quase ilimitados de dinheiro, armas e soldados – pode inventar uma nova guerra praticamente todos os dias. Mas, depois do 11/9, bin Laden assumiu o comando em Washington, assenhoreou-se da alma de Washington, de seus medos e desejos mais profundos, como um hacker que invade um computador e passa a controlá-lo completamente.

Foi ele, depois do 11/9, que pôs em andamento a invasão e a ocupação do Afeganistão. Foi ele, depois do 11/9, que arrastou a guerra dos EUA no Afeganistão para dentro do Paquistão. Foi ele que arrastou os jatos, a bombas, os mísseis dos EUA para a Somália e o Iêmen, na “guerra ao terror”.

E por quase toda uma década, bin Laden lutou como lutam os mestres de Tai Chi: usando não as suas próprias magras forças, mas todo o massivo poder de destruição dos EUA, para fazer do mundo cenário de guerras imensas, instalando a mais terrível instabilidade em várias partes do mundo, muito mais do que jamais conseguiria se usasse só os recursos da al-Qaeda.

Que ninguém se surpreenda, portanto, se se confirmar que bin Laden viveu seus últimos meses ou anos, sequestrado numa casa murada, próxima da capital do Paquistão, fazendo, de fato, praticamente nada. Imaginem o homem como praticante do “Tao do terrorismo”: quanto menos fizesse, quando menor o número de ataques que comandasse, mais os EUA trabalhariam por ele, para criar, por todo o planeta, o que as antigas dinastias chinesas chamavam de “o caos sob os céus”

Vivo e morto

Como hoje já é óbvio, a maior mágica de bin Laden foi feita à vista dos norte-americanos, não no mundo árabe, onde os movimentos se reproduziram do Iêmen ao Norte da África e se comprovaram absolutamente periféricos e sem importância.

Bin Laden empurrou os EUA na direção dos piores pesadelos que poderíamos tornar realidade, nós para nós mesmos (e para outros) –- da tortura, à criação de um arquipélago de prisões e de injustiça espalhado pelo planeta no qual os EUA prendem, primeiro, eles mesmos, e onde se encolhem aterrorizados, ao mesmo tempo em que espalham o medo pelo mundo, com seus exércitos.

Em muitos sentidos, bin Laden quebrou os EUA, não no 11/9, mas depois, por meses e anos. Resultado disso, se não seguirmos o conselho do senador Aiken, as guerras que os EUA continuam a guerrear com resultados desastrosos acabarão por entrar para a história como o maior monumento a bin Laden, e pedra tumular do império dos EUA (e no Afeganistão, onde mais de um império encontrou sua tumba).

No momento em que a ‘mídia’ e legiões de norte-americanos celebram as operações militares dos EUA, ainda há quase 100 mil soldados norte-americanos, 50 mil soldados de exércitos aliados, números assustadores de mercenários armados e pelo menos 400 postos militares no Afeganistão, já há quase 10 anos. Tudo isso como parte de uma guerra sem fim contra um homem que, segundo o diretor da CIA, não conta com mais de 50-100 agentes naquele país.

Afinal, bin Laden está oficialmente entregue às ondas. No Oriente Médio, sua ideia de criar um “califato” foi a mais efêmera das fantasias. Mas em certo sentido, seu domínio permanece intacto nos EUA. Bin Laden é nosso pretexto e nosso demônio. Os EUA fomos e continuamos possuídos.

Quando as festas e celebrações da morte de bin Laden amainarem, e amainarão, tão rapidamente quanto as festas e celebrações do matrimônio principesco em Londres, outra vez os EUA estarão entregues ao mundo em cacos que bin Laden nos legou, e será fácil ver o quanto essa “vitória”, que não passou de assassinato, vitória precária, chegou atrasada quase dez anos.

Por mais atenção que a imprensa devote à operação que matou bin Laden, por mais que digam as cabeças pensantes, apesar de todas as hosannas que se entoem em louvor da Forças Especiais, o presidente, seus conselheiros e planejadores, e todos os serviços de inteligência, não é, não, de modo algum, momento de glória para os EUA. Celebração que alguém insistisse em fazer teria de ser fúnebre: o funeral de tudo que os EUA enterraram nesses dez anos, muito antes de jogar ao mar o cadáver de bin Laden; o que fizemos e admitimos que fosse feito de nós; nossa ambição, nossa ganância imperial, até nos converter no que permitimos que bin Laden fizesse de nós; e ainda, nesse processo, o que os EUA fizeram, na luta contra bin Laden, contra outros.

Os gritos de “EUA! EUA!” que se ouviram quando foi anunciada a morte de bin Laden foram eco do que se ouviu no Marco Zero, dia 14/9/2001, quando George W. Bush tomou o alto-falante e prometeu: “Quem derrubou esses prédios ouvirá falar de nós em breve!”

Ali começaram nos EUA os poucos curtos anos de formação e inchaço da hubris e das fantasias de dominação, muito mais perversas e enlouquecidas que as de qualquer terrorista islâmico fundamentalista que sonhasse com califatos. E em pouco tempo, essa hubris e essas fantasias nos arrastariam para o desemprego galopante, a infraestrutura deteriorada, os preços dos combustíveis sempre crescentes, o déficit e um povo à beira do colapso.

A menos que os EUA abandonem de vez os assaltos por Forças Especiais e a guerra de aviões-robôs e tentem novos caminhos, a menos que nos interesse aprender com o exemplo dos manifestantes não-violentos nas ruas do Oriente Médio, e a menos que os EUA iniciem imediatamente uma verdadeira – e rápida – retirada do cenário da guerra Afeganistão-Paquistão, bin Laden permanecerá vivo e ativo.

Dia 17/9/2001, alguém perguntou a Bush se preferia bin Laden preso ou morto. Bush respondeu: “Lembro de um cartaz do velho Oeste: Procurado vivo ou morto. Vivo ou morto.” A verdade é que havia, sim, uma terceira possibilidade: vivo e morto.

Há uma única possibilidade de enfiarmos uma estaca no coração do legado de bin Laden. Afinal, o homem que inventou oficialmente tudo isso se foi, pelo menos teoricamente. Mas podemos sim, declarar vitória, ponto final, e voltar para casa.

Mesmo assim… por que – por mais que eu ainda creia que seja possível por fim às guerras norte-americanas –, continuo com a sensação de que o Feiticeiro do Mal conseguirá nos derrotar, mais uma vez?

[1] Referência a foto famosa, deAlfred Eisenstaedt, em que se vê um marinheiro norte-americano beijando uma moça de vestido branco no “V-J Day” (14/8/1945) em Times Square. A foto pode ser vista em http://pt.wikipedia.org/wiki/V-J_Day_in_Times_Square [NTs].

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP