O leitor eterno

Por José Castello
A Literatura na Poltrona

Leitores me escrevem para pedir que eu avalie originais, indique editoras, assine orelhas, ou prefácios. Não me sobra tempo, e nem forças, para atender a esses pedidos e, por isso, muitos se decepcionam e, até, se sentem traídos.

Não é fácil suportar a decepção de um leitor, ou sua raiva. Mesmo sabendo que seria impossível corresponder às esperanças exageradas depositam em mim, isso me abate e aborrece. Sinto-me, sempre, em falta. Vejo-me, quase sempre, como um traidor.

Há poucas semanas, a carta de um leitor _ que chamarei de W. _ me ajudou a pensar a situação que me aflige. Como tantos leitores, W. me escreveu para enviar os originais de um romance. O estranho é o pedido que me fez. Tem certeza que seu livro não presta. Decidiu que nunca mais escreverá. E me manda o romance para que eu o ampare em sua intenção de queimá-lo. Sozinho não tem forças para isso.

Não deixa de ser uma visão crua, embora corajosa, da crítica literária. Talvez tenha lido Fantasma, meu primeiro romance, a história de um escritor que queima os originais de seu livro. Talvez, imitando Kafka, W. faça de mim seu Max Brod. Não me encarrega da missão de avalizar um original, ou de encaminhá-lo a um editor. Escolhe-me para destruí-lo. Só falta mandar junto a caixa de fósforos.

Comecei a ler O único domínio, o romance que W. deseja queimar. É um romance deplorável. Ando envolvido com os franceses, por conta de um ensaio que escrevo para uma revista de Cuiabá. O livro de W. me faz lembrar da frase de Jean Paulhan, o acadêmico parisiense: “Somos ostras, não devemos sonhar demasiado com as pérolas”. W. está certo: é melhor fazer outra coisa, é melhor desistir.

Ainda assim, como lhe dizer a verdade? E mais: como aceitar o convite para atuar como o co-autor de um incêndio? Ainda perdido entre os franceses, me lembrei de uma breve lição de Jacques Lacan a respeito da verdade. Encontrei-a não em um compêndio de psicanálise, mas em uma entrevista que Lacan concedeu, pouco antes de morrer, a Madeleine Chapsal.

(Alguns leitores dirão que cito demais e que, com isso, me pavoneio. Um deles já me disse, com todas as letras, que preciso “conter a vaidade”. Se muitas vezes, de fato, me perco nas ideias alheias, é porque elas me seduzem e hipnotizam. E é, sobretudo, porque não paro de ler e de permitir, assim, que me invadam. Eu não seria nada sem os escritores que leio. Desde pequeno, quando lia Bandeira nos bancos dos jesuítas e me salvava com seus poemas, que sei disso. Mas já é outra conversa.)

Volto às ideias de Lacan a respeito da verdade. Ele parte do exemplo dos hieróglifos egípcios. Enquanto os arqueólogos procuravam saber qual era o sentido direto dos abutres, das galinhas, dos homenzinhos que se conservam nas paredes das tumbas, eles não chegavam a nada. A escrita egípcia permanecia indecifrável. Esses desenhos só passaram a ter um sentido quando os estudiosos descobriram o sistema a que os desenhos pertenciam.

Mesma coisa: se arranco, de uma partitura musical, a clave de sol, já não posso executá-la. Não sei se devo ler em sol, ou em fá, ou em dó, já que me falta a chave. A partitura se torna, em consequência, ilegível. Sem o fio de uma clave, as notas musicais se tornam um enigma. Só quando você encontra a chave (a clave), consegue abri-las (lê-las).

Largo os franceses, que estão sempre cheios de ideias, e volto a W. e a seu O único domínio. Penso que o título é uma senha que, sem se dar conta disso, W. me fornece: há uma única chave (um único domínio) em que serei capaz de ler seu livro. Ele me mandou seu romance, porém, como se ele fosse um pedaço de lenha, ou um naco de carvão. Um entulho, que chave alguma abre, e que só merece o fogo.

Alguns dias depois, W. me escreveu dizendo que vinha a Curitiba e precisava me ver. Cheio de dúvidas, agendei um café. Aqui a meu lado, no escritório, O único domínio continuava a arder, pedindo um destino. O livro me causava calafrios. Não o suportava mais. Fui.

Esperava encontrar um homem grisalho e deprimido, encontrei um rapaz pálido e de cabelos vermelhos, com os olhos esbugalhados de pequinês. O aspecto leonino, em vez de fortalecê-lo, porém, o enfraquecia. Parecia um ator que encenava o papel errado. Um falsário. Encarou-me e disse: “Preciso que você faça isso para mim. Preciso que o queime”.

Perguntei por que me escolhera. Foi franco: “Leio seus escritos. Às vezes gosto, mas quase os desprezo. Você conhece o fracasso, pois está sempre a fracassar. Poderá queimar meu livro sem remorsos”.

Achei que era um bom argumento. Nem por isso me convenci de que devia, de fato, queimar o romance. Na era a internet, uma cópia impressa é só um duplo, argumentei. Onde estava o original? Garantiu-me que não havia original. “Só existe a cópia que lhe enviei. Esta cópia. Agora está tudo em suas mãos”.

Lembrei-me do doutor Lacan e pensei que, se me limitasse a olhar o rapaz com os olhos dos arqueólogos antigos, tratando-o como um abutre, ou uma galinha, não teria instrumentos para tomar uma decisão. Precisava de um sistema, precisava de uma chave, ou qualquer decisão seria irresponsável. Mas onde estava a chave?

Pensei de repente: provavelmente, eu não a encontro porque procuro no lugar errado. Agia como alguém que, em busca de uma camiseta, ou um tênis, remexe nos armários da cozinha. Desde o início, e embora W. não tivesse citado seu nome, tudo me empurrava para Kafka. Era em Kafka que eu devia procurar uma resposta. Franz Kafka era minha chave e eu o evitava. Por que?

Enquanto eu pensava, W. me fitava com seus olhos inchados. Parecia ser alguém que, em contínuo desconforto dentro de seu corpo, tentava, todo o tempo, escapar de si _ e por isso os olhos saltavam para fora. Por isso, também, esperava que eu agisse em seu nome, que eu me tornasse a pessoa que ele não conseguia ser. Buscava não só um cúmplice, mas um substituto.

Voltei, enfim, a Kafka e me lembrei que também ele, até sua morte precoce, tinha muitas dúvidas a respeito de sua vocação e perseguia uma prova disso. Sempre achei que, quando entregou seus inéditos a Max Brod pedindo que os queimasse, Kafka fazia exatamente o contrário. Sabia que Brod admirava seus escritos. Sabia, também, que ele compreendia seu desespero. Em resumo: sabia que Brod não os queimaria. Ao contrário: lhes daria um destino.

W. tinha conseguido: enquanto muitos originais mofam nas prateleiras de meu escritório, e outros, até, vão direto para a lixeira, seu romance continuava bem a meu lado e eu não me conseguia me esquecer dele. Tornara-me refém de seu livro. Aquele romance, precário e lamentável, me interrogava.

“Já sei o que vou fazer”, eu disse. “Deixe comigo”. Ele abriu um sorriso de desafogo. “Que bom, assim posso viajar tranquilo!” Partiria, dias depois, para a África do Norte, onde o pai ocupa um cargo diplomático. Pretendia se dedicar à antropologia e às caçadas. Livre do romance, simularia o destino de Arthur Rimbaud. Acreditava que, agindo assim, talvez, no futuro, viesse a se consagrar. Era um tolo, mas me fez seu prisioneiro.

Como um escravo que carrega o seu fardo, trouxe de volta para casa os originais de O único domínio. Não sei o que fazer com eles. Continuam aqui a meu lado, atravancando minha mesa de trabalho. Não tenho a intenção de relê-los. Já li o bastante e, em definitivo, não me agradam. Por que, então, não os queimo? O que me impede?

W. conseguiu o que desejava. Aprisionou-me em suas dúvidas e me comprometeu com seu livro. Fez de mim, seu leitor. Foi embora, deixou tudo em minhas mãos. Tornei-me seu leitor eterno. O que mais um escritor pode desejar?

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