O lirismo de um franco atirador

Fernando Monteiro não é prisioneiro de ninguém a não ser de si mesmo. Dono de um estilo crítico e corrosivo quando compõe seus ensaios para revistas e blogs, o mesmo, não se pode dizer quando se trata de escrever seus romances, biografias e poemas. Nesse momento o franco atirador revela um artista na mais alta acepção da palavra. E é esse o caso ocorrido com seu último grande trabalho de criação artística, lançado recentemente, isto é, um longo poema, intitulado “Vi uma foto de Anna Akhmátova”.

O poema, entre outras singularidades que abordarei abaixo, é uma longa declaração de amor à poesia, em um mundo – como o próprio Fernando percebe e escreve no próprio poema -, devotado quase que única e exclusivamente a “buscar utilidade para todas as coisas e não encontrando nenhuma para a poesia”. Fernando como um quixote pós moderno toma partido da “coisa esquecida” e a torna bela e grandiosa.

Mas para quem quer se dar ao trabalho de mergulhar na alvidez mista de lirismo poético e rigor formal que é “Vi uma foto de Anna Akhmátova” a pergunta inicial seria: quem é ou foi Anna Akhmátova? A pergunta tem um sentido de reconhecimento. Anna Akhmátova (1889-1966) foi uma das mais expressivas poetas russas nascida em Odessa e que viveu o apogeu da revolução soviética de 1917, culminando com a morte do ditador Josef Stalin em 1953, sobrevivendo ainda por mais de 13 anos.

Tendo feito dois casamentos, o seu primeiro marido, o também poeta Nikolai Goumilev foi executado pelos comunistas já em 1921 sob acusação de participar de atividades anti-soviéticas. Com a morte do marido, Akhmátova foi forçada ao silêncio, excluída da vida pública, vivendo de uma mísera pensão e o pior, vendo sua poesia ser censurada durante o regime stalinista. Sua reabilitação só começou, obviamente, após a morte de Stalin em 1953.

Para quem já se deu ao trabalho de conhecer por pouco que seja a poesia de Anna Akhmátova sabe que se trata de uma poetisa de linguagem clara, direta e cativante. Toda sua obra tem a marca e o caráter autobiográfico contextualizado com o momento histórico vivido pela poeta, tendo como temática central o cantar, sem perder a altivez, a dor e saudade dos amores vividos e cortados pela ditadura que se impôs, em especial a partir de 1924, com a ascensão de Stalin ao poder.

Além de ter seu primeiro marido fuzilado violentamente pelo regime bolchevique, o segundo marido foi preso e condenado a viver em um campo de concentração onde terminou seus dias, Akhmátova ainda teve a infelicidade e a dor de ver seu filho, Liev Gumilióv, fruto da relação com o poeta Goumilev, também ser perseguido e preso pela policia stalinista sob a única alegação de ser filho do poeta morto pela revolução.

Um ano após a morte do primeiro marido, Anna Akhmátova compôs esses versos feitos de uma retórica simples, direta e comovente.

ANNO DOMINI MCMXXI
(publicado em 1922)

Não estás mais entre os vivos.
Da neve não podes erguer-te.
Vinte e oito baionetadas.
Cinco buracos de bala.

Amarga camisa nova
cosi para o meu amado.
Esta terra russa gosta,
gosta do gosto do sangue.

Mas a obra poética de Anna Akhmátova ainda guarda relíquias como esta, sob o titulo Dedicatória, composta para o filho preso, onde retrata a dor de uma mãe, cujo único destino é a espera:

Diante dessa dor, as montanhas se inclinam
e o grande rio deixa de correr.
Mas os muros das prisões são poderosos
e, por trás deles, estão as “tocas dos condenados”
e a saudade mortal.
É para os outros que a brisa fresca sopra,
é para os outros que o pôr-do-sol se enternece –
mas nada sabemos disso: somos as que, por toda parte,
só ouvem o odioso ranger das chaves
e o passo pesado dos soldados.

O longo-poema – ”Vi uma foto de Anna Akhmátova” o longo poema de Fernando Monteiro, não se trata, bem entendido, de uma reabilitação pura e simples da poeta russa, o que já seria por si só uma obra merecedora de crédito e de figurar entre os grandes poemas do nosso tempo, ou menos ainda de um poema anti-comunista. Ao contrário. Anna Akhmátova, o poeta sabe, é um símbolo e como tal serve aos propósitos de todo grande criador para falar da liberdade, algo caro ao trabalho do artista, e que por isso mesmo – desse encontro feito através de uma foto em um livro de poemas -, ganha a dimensão maior para se opor a toda e qualquer forma de opressão e repressão venha de onde vier.

Ao molde de uma grande epopéia, Monteiro vai contando seu encontro com a foto de Anna em um livro perdido, Pérolas da Poesia Russa, encontrado em um sebo-livraria, e mais ainda, vai desfilando seu encontro com a própria poetisa e sua dor íntima, visceral, diante de uma revolução que pregava “liberdade e pão”, e que embora não tendo sido morta com um tiro na nuca, foi obrigada a algo pior para um poeta, que foi escrever “poemas de elogio a Stálin”, escrevendo “versos de encomenda”. O registro é feito de forma exemplar e inesquecível:

“Há números repetidos demais no século

da contagem dos milhões de executados

com um tiro na nuca – ao ar nunca livre –

entre os tais carvalhos, assustando esquilos

da floresta de abetos enevoados.

Anna Akhmátova não morreu

dessa rápida maneira, não a mataram

assim tão simplesmente,

porém pior fizeram ao lhe exigirem

poemas de elogio a Stálin.

Isso passou, mas ficou uma marca

na nuca da poesia, abaixo do cabelo

do vento crescendo para apagar os versos

de encomenda, numa época má

para poetas chamados de “verdadeiros”

pela deformação das coisas

que nos cercam de mentiras”.

O mais interessante é que nesse exato momento da história contada sob forma de versos, ao relatar com palavras cândidas e duras o destino cruel de Anna Akhmátova, Monteiro na condição de poeta, faz uma crítica e autocrítica ao “nosso fazer” poético nacional, brasileiro, cômodo, raquítico, elaborando quase sob a forma de uma literatura comparada, a nossa face real, apontando um destino diferente tomado pelos nossos mores poéticos, e que de uma forma realística canta e aponta:

“Nossos trovadores, menestréis, poetinhas

e poetões se dedicam ao vício secreto

de deslustrar poemas dos concorrentes

ao posto de Príncipe dos Poetas brasileiros.

descobrem de novo o Brasil de Cabral,

trabalham para Capanema e não faz mal,

tomam remédio para dor de cabeça

e vão dormir em Pasárgada,

onde são mais que amigos do rei

de espadas dos jogos de cartas

marcadas da carreira literária

do acadêmico Getúlio Vargas.

Os poetas brasileiros não morrem em revoluções.

Quando elas acontecem, os bardos nacionais

preferem segurar os empregos.

Na Revolução de 30 não morreu um só Dante

de Cascadura para contar como é descer ao inferno.

Todos eles aspiram ao céu de palmas abertas

soltando as batatas quentes na corrida

dos mil metros para ocupar ministérios,

secretarias da cultura e bibliotecas nacionais”.

Fernando Monteiro, o poeta, não faz concessões, e “Vi uma foto de Anna Akhmátova” é também um ajuste de contas desse poeta maior que também é um franco atirador intelectual, nordestino, um ajuste de contas de um intelectual que não tendo mais como voltar o tempo ou evitar as perseguições, as censuras, às balas disparadas contra poetas, contra escritores, russos ou não, impedindo a liberdade, levanta sua voz e sua pena, ao longo de mais de 85 páginas, para sob a forma de versos, propor um questionamento ao seu interlocutor imaginário como se dúvida tivesse do seu ato:

“Você já percebeu?

Compreende o que aconteceu?

E concorda, aceita que eu lamente

o lamento do que “não deveria ter acontecido”

O gesto é nobre, mas a pergunta de Fernando Monteiro imersa em sua ação de poeta é bem mais profunda e inquietante. A sua atitude enquanto poeta, eu diria, é a de não silenciar ou tornar esquecido as dores vividas por Anna Akhmátova e sua poesia. Anna não foi nenhuma contra-revolucionária, bem entendido, mas as perseguições aos seus poemas, fazem dela e deles algo dialeticamente e permanentemente revolucionário. No entanto, ainda como se não bastasse o próprio gesto e sua ação, o poeta indo além da caracterização da musa, volta a insistir com seus leitores, prováveis leitores, sobre a natureza de sua proposta:

Vi uma foto de Anna Akhmátova

e não a esqueço.

É só isso?

Um poema-clichê de sofrimentos

de poetas perseguidos?

Se você quer mesmo a resposta, não pode deixar de mergulhar nesse belo e momentoso poema escrito cuja busca por uma reflexão crítica faz dele um encontro atual, renovadoramente atual, envolvendo os dilemas de sempre entre a arte e o poder, a liberdade de expressão e a repressão política, a intolerância partidária e coletiva e o inevitável desejo de liberdade de todo artista. “Vi uma foto de Anna Akhmátova” é uma obra singular e gosto apurado. É leitura obrigatória para o nosso tempo.

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