O Livro de Poesias do Luis Carlos Guimarães

Luis foi um grande poeta da vida, do mar, dos amigos e das cidades.
Ninguém mais que ele conhecia as nossas artérias, muitas vezes contemplada pelo prisma da erudição de um copo vazio ou de uma garrafa que tinha a cor de seus belos olhos. Um olhar que enxergava longe, o mar o céu de sua cidade amada.

Nos 50 anos da EDUFRN uma grande festa com a presença de familiares e grandes personalidades da nossa cultura. Três livros foram lançados. Entre eles, o livro de Poesia de Luis Carlos Guimarães. Alguns poemas dispersos e outros já publicados reunidos num belo livro, com prefácio de Nelson Patriota e orelha de Dorian Gray Caldas. Escolhi um deles para ilustrar a grande poesia do nosso querido Lula que se encantou há dois lustros num maio aziago. Dele disse Chico Dantas: poeta infinito: poeta do Brasil, da Espanha de Lorca e de todos os becos do mundo onde ainda haja lirismo e sentimento.

Luis era um apaixonado pelo Dom Quixote e muito incentivou Assis Marinho a pintar o cavaleiro da triste figura. Um dos seus belos poemas é o “Dom Quixote do Mar” dedicado a Dorian Gray: Sozinho na madrugada / vai o Quixote do Mar/ no lombo de sua barca…
No poema abaixo transcrito do livro “Ponto de Fuga”, uma típica cena urbana em que o poeta descreve um homem assim como poderia está fotografando um de nós;

CANÇÃO URBANA
Luis Carlos Gumarães

O que me chama a atenção é um homem sozinho numa mesa,
nos seus cinqüenta anos bem morridos,
a entornar seu chope silenciosamente:
o homem do paletó cor de goiaba.
Necessariamente funcionário público,
na vizinhança da obesidade e do enfarte,
o homem do paletó cor de goiaba
tem cinco filhos, três netos,
uma mulher de barriga caída e varizes nos braços e nas pernas,
um apartamento de dois quartos no 12o andar do Edifício Flor de Laranjeiras
(financiado em 25 anos, com correção monetária, pelo BNH),
calos na sola do pé direito,
dentes cariados,
fígado inchado,
acessos semanais de asma brônquica,
uma sogra que encarna o dragão vomitador de fogo,
uma acentuada hipermetropia na visão esquerda
e bolsos furados.
E mais:
no morrer de cada dia,
o homem do paletó cor de goiaba
tem os ouvidos rasgados pelo barulho do trânsito,
sua sangue poluído de asfalto na repartição,
nas filas de ônibus e do INPS.
Entornando silenciosamente o seu chope,
o homem do paletó cor de goiaba
parece um boi.
Um boi.
Não o boi que pasta no campo,
mas o boi que vão levando ao matadouro.

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