O Livro e a Leitura no RN, Hoje

Venho refletindo sobre os avanços e retrocessos do mercado editorial potiguar nos últimos anos e como se pode vislumbrar, no ano de 2009, esse complexo panorama. Percebo o que é claro para todos: a inegável ausência – com fortes evidências neste ano que está quase findando – dos fomentos e estímulos oficiais às publicações e outras iniciativas (como, por exemplo, prêmios para a literatura produzida no Estado).

Experimentamos um considerável decréscimo qualitativo e quantitativo que se revela em comparação aos anos imediatamente anteriores, bastando uma análise simples a partir de um pequeno retrospecto daquilo que de mais importante aconteceu (ou “desaconteceu”) no ano. Vejam se não tenho razão. Primeiro, a parte triste da história: Não tivemos sinal de implementação real e eficaz da Lei do Livro (que ajudamos a criar, através da UBE/RN). Não tivemos o ENE. Não tivemos, se não me engano, livros publicados pela FUNCARTE, nem pela FJA. Não tivemos as tradicionais premiações literárias “Othoniel Menezes” (poesia –FUNCARTE), “Câmara Cascudo” (prosa – FUNCARTE), “Luís Carlos Guimarães” (poesia – FJA). Não tivemos a bienal do livro (talvez, acertadamente, neste caso). Não tivemos “Brouhaha”, nem a FUNCARTE teve “Ginga” para incentivar os escritores. Tivemos uma só “Preá”, coitadinha, que parece que morreu faminta.

Escritores foram claramente vilipendiados pelo poder público, como se deu com a potiguar-paraibana Clotilde Tavares, recentemente. Em suma, não houve um trabalho efetivo e competente no âmbito das entidades públicas para que se prestigiasse e incentivasse os valores da literatura do Rio Grande do Norte e, ainda por cima, houve tratamento desrespeitoso àqueles que produzem no Estado. Poderia eu até ampliar a lista para mencionar a ausência da revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras (entidade privada com finalidades obviamente públicas e que não tem demonstrado fôlego, nem vigor, para as metas culturais que lhe caberiam fomentar), do Conselho de Cultura do RN e da própria UBE/RN (entidade sem fins lucrativos que, parece-me, já está se movimentando para tal mister). Pergunto, também, o porquê dessas entidades ainda não disporem de espaços virtuais para notícias e publicações referentes à produção literária do RN e dos seus componentes e associados. Tão fácil fazer isso! Incluo, nessa preocupação, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (merecendo, no entanto, a ressalva do belo e essencial trabalho de restauração física que o incansável Enélio Petrovich levou adiante). Outro fator que está intrinsecamente ligado à questão do livro e da leitura no Rio Grande do Norte é a qualidade e a manutenção de nossas bibliotecas públicas. Nesse caso, somente tenho uma palavra a dizer: lástima!!! Basta se informar sobre o atual estado da importante Biblioteca Pública Câmara Cascudo (onde muitos dentre nós estudam e/ou estudaram) para saber do que estou falando. E se a principal biblioteca do Estado se encontra como se encontra, as outras….Ih! E vale, ainda nesse contexto, mencionar a situação caótica das casas de cultura criadas há alguns anos atrás. Vivemos, a meu ver, até bem pouco tempo, uma situação bem diferente, em que contávamos com administradores de visão e que entendiam do “riscado”, literalmente.

Não quero, aqui, parecer parcial, partidário (até porque não tenho mais nenhuma intenção em me filiar ou atuar em política partidária, frustrante pela própria natureza), nem tenho vocação para bajulador (ao contrário, na crítica e auto-crítica construtiva e às vezes ácida é que baseio e aperfeiçoo o meu caráter); mas, reconheço que figuras como Dácio Galvão e François Silvestre fizeram muito bem à produção cultural do Rio Grande do Norte. E hoje? O que temos? Por favor não respondam. Também – acrescentando aqui mais uma entidade privada de importância – vejo que faz falta a existência de um outro prêmio importante que merece lembrança, como era o do Diário de Natal, que contemplava diversas modalidades da arte e da cultura potiguares, inclusive a literatura. Agora, caríssimos, vem o lado bom da coisa, para não dizer que não falei das flores e dos lírios: Novas editoras (particulares) foram criadas e estão em plena atividade. A “UNA”, de Marize Castro e a “Flor do Sal”, de Adriano de Sousa, têm demonstrado vigor e qualidade e um olhar inteligente e perspicaz para as novidades da literatura potiguar. O selo dos “Jovens Escribas”, capitaneado por Carlos Fialho, continua trazendo bons momentos para as letras, inovando sua prática e fazendo um boa mistura entre os autores jovens e os já bem experimentados.

Não podemos olvidar que Abimael, com o “Sebo Vermelho”, continua fazendo um importante trabalho de resgate e de reedição de livros e autores importantes do RN. Em Mossoró, a “Queima-Bucha” e a “Sarau das Letras” têm produzido, também, boas novidades. Pena que a Coleção Mossoroense sofreu uma desaceleração depois da morte de Dix-Huit Rosado. A criação da revista Palumbo foi um outro passo importante, mas que merece aperfeiçoamento e melhor definição: é, em verdade, uma revista de cultura e arte? Fica a dúvida. Outras iniciativas, como a Festa do Livro de Pipa, a Feira do Livro de Mossoró e do Seridó, o Encontro de Escritores da UBE/RN, todas são boas ideias a serem melhor executadas. Mas, já cumprem, sim, um papel louvável. Ressalto, aqui, o excelente trabalho que vem sendo feito pela Editora da UFRN no âmbito da editoração de livros essenciais. Ali, sim, a cada momento têm surgido pérolas de nossa produção. Com bom gosto visual e conteúdo de excelente nível, em edições primeiras ou excelentes reedições do que existe de essencial em nossas letras. Quanto aos lançamentos não bancados por entes públicos, tivemos, neste 2009, inúmeros bons livros e autores trazendo seus rebentos: Carlos Fialho, Nei Leandro de Castro, Marize Castro, Nelson Patriota, Patrício Júnior, Cefas Carvalho, Pablo Capistrano, Marcos Silva e colaboradores, José Delfino, Tarcísio Gurgel, David Leite e Clauder Arcanjo (esses últimos três prestes a lançarem) e outros e outros e outros que peço desculpas por não poder inserir todos nesse texto. Por derradeiro, quero salientar a importância da internet, que trouxe e mantém sites e blogs de excelente nível no âmbito da cultura e da arte, incentivando e formando leitores, diferente do que alguns imaginam quando afirmam que a internet é contra a leitura de livros. Os resultados têm sido excelentes, nesse aspecto.

Vejo, cada vez mais, as pessoas se interessarem pela leitura de boas obras, inclusive para poderem comentar nos debates dos blogs especializados. Bem! Em suma, é isso que vejo no atual quadro referente ao livro e à leitura no Rio Grande do Norte. Talvez tenha esquecido alguns detalhes e nomes; poderia ainda falar, por exemplo, dos mirrados espaços referentes às letras nos jornalões impressos (num mercado que sofreu inúmeras importantes alterações por estas bandas). Mas, esse e outros assuntos são para um outro momento, trazendo novos dados e informações. Quero crer – e vou lutar para estar certo – que, apesar de tudo, ainda temos “bala no gatilho” para o enriquecimento, cada vez maior de nossa literatura, independente do visível desinteresse dos poderes públicos pelas nossas arte e cultura.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Go to TOP