O livro-enigma de Lívio Oliveira

Dirigindo-se ao seu eventual leitor, a título de encorajamento, afirma o poema “Desfruta”, a linhas tantas: “É fácil encontrar o segredo / que a esfinge oculta”. O verso refere-se evidentemente aos poemas do livro “Resma” (Caravela, 2014), novo título poético de Lívio Oliveira. Por que o autor precisaria asseverar aos seus leitores que, como afirma o primeiro verso de “Desfruta”, “não é difícil me ler”?

Trata-se de fato de um livro-enigma esse “Resma”, ou seja, um livro que demanda do leitor condições especiais de leitura, e não simplesmente a gratuidade do ato de abrir um livro, folheá-lo e se demorar num determinado poema, e meditar um pouco sobre o que apreendeu da leitura? Enfim, a poesia precisa de algo mais do que o próprio poema?

A resposta a essa pergunta está implícita no poema “Diálogo”: “[…] – A poesia é que é dona do poeta. / – Vive-se de poesia? / – Experimenta só viver sem ela…”. Esse é um dos poemas centrais de “Resma” porque constitui também sua profissão de fé: a defesa da poesia, respaldada em Baudelaire, que salientou sua imprescindibilidade. É muito oportuno, porém, reiterá-la, numa época em que a poesia parece duvidar de si. Assim, “Resma” é também um exercício de poesia ativa, pois não se contenta com a oferta da poesia; oferece também sua ideologia, seu credo e suas convicções.

Mesmo isso, porém, não redime “Resma” de contradições e incompreensões. Porque alguns de seus poemas se assumem claramente como enigmas que alguma esfinge oculta, como sugere o poema acima nomeado. Passado o meio-sorriso suscitado pelo nonsense de “Poemetos natalícios” (“Nasci assim, meio banal, / redundantemente / numa cidade Natal // II / Nasci numa barca / chamada Natal. / Sou todo insensato, / não me leve a nau”), segue-se uma sucessão de poemas que têm em comum uma atmosfera abstrata que coloca o leitor sob efeito de um rodopio ou de uma vertigem. Mais adiante, o autor retomará a escritura a que seus leitores estão mais afeitos, com poemas descritivos, narrativos, até como o lascivo “Co(r)po transborda”, pontilhado de “solavancos”, “fluidos” e “encaixes” e tudo que a língua elude sem calar.

Livro vário, “Resma” exibe uma sucessão de personas ao longo de suas páginas, como se a cada um, ou grupo de poemas, correspondesse um momento poético autônomo e independente. Assim é, por exemplo, que, deixados para trás os poemas “abstratos”, eis que o leitor depara com “Poema da liberdade (À memória de Che Guevara)”, que, com o estro de um Whitman ou de um Thiago de Mello, anuncia louvores a Cuba e reedita valores iluministas: “Declaro, em mim, / e aos ventos e mares de Cuba, / toda a liberdade. […] “Travarei esse combate entre as palavras e a ignorância. / Travarei esse velho combate entre e luz / e a obscuridade […]”.

“Poema da liberdade” é uma dessas surpresas que salta aos olhos comparativamente ao curso que a poesia de Lívio Oliveira costuma tomar, desde “O colecionador de horas” (AS Editores, 2002). Mas entre os poemas que se apresentam como espécimes (quase) únicos pode-se nomear “Mares de Moraes”, em homenagem a Vinicius de Moraes, “o poeta que viveu tal qual todo poeta um dia quis viver”, e cujo início prefigura uma bela ode a esse que foi mestre nesse gênero: “Ouvi rumores de que estavas por perto / e perto havia o mar e a tua companheira à deriva […]”. Seu duplo é “Pois é, Poe”, canto ao poeta de “O corvo”, que o leitor encontrará a páginas subsequentes. Em suma, “Resma” é um livro forte, ousado e, às vezes, difícil. Mas quem disse que a poesia precisa ser sempre fácil?

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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