O livro tardio de Zedelfino

A literatura norte-rio-grandense é rica em exemplos de autores de um livro só (quase escrevíamos: autores “unilivros”). Auta de Souza com Horto; Jorge Fernandes com o Livro de Poemas de Jorge Fernandes; Miguel Cirilo, com Os elementos do Caos; Bosco Lopes, com Corpo de Pedra são assim alguns casos bem conhecidos desse fenômeno literário tão caracteristicamente nosso. Coincidentemente, esses quatro poetas escreveram seus livros ainda jovens e, por razões distintas, não tornaram a publicar. A brevidade da vida de Auta de Souza impediu-a de prosseguir com sua obra literária. Jorge Fernandes, embora continuasse a escrever depois de lançar seu livro em 1927, não teve motivação suficiente para voltar a publicar, dadas circunstanciais diversas que têm a ver tanto com as idiossincrasias do poeta como com a baixa recepção crítica ao seu livro na década subsequente ao seu lançamento. Miguel Cirilo, após publicar seu bem-avaliado Os elementos do Caos, deixou a literatura e embarcou numa viagem de busca existencial que o levou a recorrer lugares e modelos culturais alternativos, mas o impediu de reencontrar o caminho da escritura poética, embora voltasse a ler poesia nos últimos anos de vida. Bosco Lopes, após publicar seu livro com relativo sucesso e não poucas dificuldades, não conseguiu resistir aos falsos brilhantes da vida boêmia e disso resultou um divórcio irremediável da poesia.

Sabe-se bem, todavia, que a poesia não está condicionada a fatores etários e, como Jorge Fernandes, um poeta pode ir colecionando poemas que escreva ora aqui, ora ali, e que de repente apresentem um número suficiente para compor um livro. Nem sempre, porém, essa constatação resulta em livro. Daí que tantos poetas ficam conhecidos apenas entre seus amigos mais próximos, espécies de confidentes da poesia “renegada”.

Foi assim com o poeta Zedelfino, durante um tempo relativamente longo. Até que ele decidiu que era chegada a hora de dar à poesia norte-rio-grandense deste fim de ano e de década seu Almas nuas, que tem prefácio do cronista Vicente Serejo. Trata-se de um conjunto de poemas vindos à luz na época da maturidade quando, segundo Drummond, “os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme” (“Campo de flores”) e que, no entanto, dialogam em perfeita harmonia entre si. Semelhanças vocais ou formais, polissemias, aliterações se atropelam por assim dizer na sucessão dos versos de Zedelfino, cristalizando imagens, reiterando similaridades sonoras, brincando com o duplo sentido de um substantivo/verbo, provando mais uma vez das possibilidades ilimitadas que poesia e língua comungam e de que parecem nunca se fatigar. Não admira que nesse processo pelo menos uma alma finde por se desnudar: a do próprio poeta. Ou será o de sua persona poética?

A uma segunda leitura desse pequeno volume poético, o leitor logo se dará conta de que assiste a uma reedição daquela ingente e vã luta com as palavras, naquele exato sentido que lhe atribuiu o já citado Drummond em outro poema famoso (“O lutador”).

Com efeito, em “Fraturas”, o autor está alerta para as vicissitudes que a palavra pode oferecer, cerceando-o e escamoteando sentidos, construções, imagens. Poesia em fraturas, diz o poeta: “ah, as palavras/ num vai e vem/ em minha mente/ se abrem e fecham/ em copas como lábios/ como portas/ como dedos de mãos/ que vagas imitam/ em arco envergam-se/ sobem e descem/ às folhas de papel/ se curvam se rendem/ e escrevem/e não dizem […] é que elas se escondem/ nos vãos da casa/ na janela no telhado/ debaixo da escada/ nas frestas do chão/ em utensílios de pouco/ ou nenhum valor/ esquecidas em armários […]”.

O poema resume, portanto, essa busca pelo que as palavras efetivamente expressam e aquilo que elas poderiam de fato expressar, traço que fica muito patente na própria composição do longo poema, entremeado de pausas e reticências sinalizadoras dos limites verbais em que o poema naturalmente chega, seja pela necessidade de anunciar seu fecho, seja pelo fato de o poeta renunciar a prosseguir em seu propósito.

Tal como comprovou o poeta de Itabira, Zedelfino também tirou a prova dos noves do embate com as palavras e recolheu o poema; a luta não foi, portanto, de todo vã.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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