O louco de palestra versus o escritor profissional

Por Joca Reiners Terron
NO BLOG DA CIA. DAS LETRAS

É fato que nunca houve tanto palanque reservado aos escritores. Mas até que ponto essa penca de festas, feiras e bienais tem interesse real no que os autores têm a dizer? Às vezes me parece que o trabalho de organizadores, curadores e diretores artísticos se resume a encher os olhos dos patrocinadores com elencos rechonchudos de nomes conhecidos e mais ou menos conhecidos. Neste ano participei de palestras com público ínfimo (a culpa deve ser minha), ou então de conversas que eram soterradas por refrões do tipo “delícia, assim você me mata” vindos do estande vizinho. Quem já foi a um pavilhão desses conhece bem a balbúrdia babélica dos autofalantes disputando atenção. E a tapioca sempre vence. Agora, e se num dado momento, quando enfim o silêncio se estabelecesse e a divulgação atingisse o mesmo nível do investimento e a plateia estivesse repleta e atenta, e se então e somente então se descobrisse o óbvio: que o escritor não tem nada a dizer?

Por outro lado, sabemos que a plateia sempre tem coisas interessantes a falar. A figura do louco de palestra tem se disseminado nacionalmente, e se a atual profusão de feiras literárias não servir para remendar as contas dos autores, ao menos terá servido para dar voz a essa figura impressionante e aos seus depoimentos sempre nas pontas da língua bífida. Hoje em dia o louco de palestra tem até blogue. E Facebook. Não digo isso com ironia: a profissionalização do escritor traz uma série de vantagens, mas também algumas desvantagens. Uma delas, acredito, é o permanente estado-de-aula em que nos enfiam, e as consequências disso: adoção de certa seriedade — ou pompa — professoral (quase sempre um escudo para ocultar ideias murchas), discussões sobre questões de mercado que só interessam à categoria, chororô infinito, quando não (aos mais experientes) a boia da salvação proporcionada pelas frases prontas e ideias feitas. Onde foi parar a inquietude, pombas?

Concedendo voz ao rancor ou à ingenuidade, o louco de palestra termina por injetar sangue cotidiano na lenga-lenga dos debates literários. Como propus antes aqui, os escritores têm muito a perder ao aceitarem carteira literária assinada. Contudo, quem perde mais é o público — afinal, desaparece a conversa sobre questões primordiais da existência, como as que o louco de palestra propõe —: a venda da arte por uma ninharia qualquer, o capitalismo selvagem e o bundalelê civilizatório, o que se pode fazer com uma bomba de gasolina numa tarde de calor, o uso da maconha para a escrita da crônica esportiva, pornografia subliminar aplicada à composição de gráficos no Excel e outros temas relevantes. Louco ou não, o louco de palestra sempre manifesta uma verdade há muito esquecida pelo autor profissional, indo direto ao ponto. Qual ponto, não interessa.

Não deixa de ser surpreendente, ao frequentar rodas de amigos escritores, descobrir que essas criaturas abnegadas raramente conversam sobre literatura. Refiro-me, evidentemente, aos escritores “sãos” (que também podem ser chamados de “meus amigos”). Nesses colóquios trata-se de hóquei sobre patins, mulher, homem, criança (problemas relativos ao afeto e à paternidade, digo), pato, macaco, papagaio, peru e ganso. Problemas digestivos sempre merecem atenção especial. Ou seja, assuntos variegados que certamente receberiam notas meritórias no Manual de Temas do louco de palestra. Assuntos importantes. Questões prementes. Problemas candentes. Por que restringir, então, na elaboração daqueles enigmáticos títulos que nomeiam debates em bienais (“Fluxo e contrafluxo no ideário do personagem preto em relação ao fato e contrafato do personagem branco no romance social contemporâneo brasileiro”, por exemplo), a conversa literária à literatura? Por que não deixar o escritor ser no palco o que ele sempre foi e sempre será, o louco de palestra único & primordial? Por que não?

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

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