O lúdico como elemento da cultura

É talvez de Johan Huizinga a mais aguçada, embora não seja a única, sistematização do lúdico como elemento formador da cultura.

Entretanto, ao contrário do caminho que o conceito é tomado pelo senso comum, Huizinga não apresenta o lúdico como inerente a todas as formas de expressão e comunicação da cultura (embora possa ser flagrado nas mínimas construções como a culinária, a pesca, etc.), mas uma das formas da relação do homem com o jogo.

Para ele, são três as funções do jogo: a agonística (o jogo em função da competição); a lúdica (resultado do jogo para iludir, no lato sentido da palavra) e a diagógica (cuja função é o ócio e a diversão).

Nesse sentido, a função lúdica era extensiva apenas àquelas formas de expressão da cultura cuja função era pôr em jogo uma transfiguração ou representação. O elemento competitivo, comumente percebido como jogo, é eliminado, prevalecendo a exuberância e a criatividade das formas, cores, sons e dos malabarismos mentais e verbais.

Entra nessa concepção todas as formas de arte clássicas ou não (como a culinária, a moda, etc.). A finalidade dessa forma de jogo seria a sedução dos sentidos.

Por outro lado, mais efêmero que a anterior, aparece a função diagógica, voltada unicamente para o ócio e à diversão. Essa função apresentada por Huizinga tem contornos suficientemente tênues e voláteis para denunciar o aristotelismo dessa subdivisão.

Em verdade, muitas das vezes, essas funções do jogo se miscigenam e imbricam de tal forma que é impossível definir onde termina uma e começa outra.

Ócio e diversão


Historiador e linguista holandês Johan Huizinga (1872-1945)

É indiscutível que a filosofia, apresentada por Huizinga como uma das formas de expressão do homo ludens, em inúmeras ocasiões é exercida pela função diagógica, como muito há de agonístico nos torneios de poetas repentistas ou de lúdico nas danças e bailes de fins-de-semana.

O importante dessa abordagem é ressaltar o lúdico como, se não propriedade exclusiva do homem, o eixo essencial de seu caráter e de seu espírito. Inclusive como uma forma pré-cultural de onde nasce toda a cultura humana.

Nada escapa ao instinto lúdico do homem. Cada gesto, cada ritual, cada sentimento é insuflado pelo espírito lúdico.

Dessa forma, a cultura é a expressão, em diversas linguagens, da forma lúdica em simbiose com os diversos estímulos sociais, raciais, espaciais a que se sujeita o homem.

Por outro lado, o jogo rigorosamente significa o lançar-se a alguma coisa. Todo homem é um jogador e se lança, consciente ou inconscientemente, ao fazer. Sua existência é pragmática, e tudo que se forma em seu espírito é posto em prática.

Tudo que se forma em seu espírito, como o cadinho das várias substâncias, é fabricado em ação. O homem é o que faz, e a cultura é exatamente essa ação e suas inter-relações.

É claro que ao jogar, ou mais propriamente jogar-se, o homem se impõe a normas e convenções a que obedece sob pena de ser discriminado ou marginalizado. Todo jogo é civilizador, estabelece princípios e lógicas de convivência e permanência no grupo.

Logicamente que, para que o homem aceite essas convenções, é preciso que concorram ao jogo suas três funções formadoras: a agonista (a competição) e principalmente a lúdica (a ilusão) e a diagógica (o lazer), estas últimas em íntimas relações e constantemente permutáveis.

Normas e convenções

É natural que em situações sociais extremas e totalitárias o homem propenda a opor-se às regras do jogo, porque nele não está implícito a ilusão e o lazer ou ócio.

Assim sendo, o fazer cultural é indiscutivelmente libertário. Ele nasce em verdade do desejo de fazer parte e é naturalmente semiótico, porque se permite a constantes re-visitações, inferências e interferências.

Toda cultura é cambiável e renova-se constantemente nos diversos contatos com outras formas de cultura. Todas as tentativas de cristalização das culturas resultaram em morte prematura, porque fixam-nas em uma forma única, isolando-a do contato com o outro, sob a pecha de folclore.

Assim como a língua, a cultura vive da socialização, ou seja, de sua relação com o outro que a transforma e, ao mesmo tempo, perpetua na memória.

Pode-se dizer que domina, conforme o pensamento de Iuri Lotmann, a função modelizante da linguagem, isto é, a cultura vive da leitura e releitura de outras formas que a ela se incorpora e se (con)forma, gerando um campo mais amplo de expressão para, a seguir, persistir em sua órbita semiosférica.

É por isso que importa frisar a inaptidão da cultura para a cristalização e para a inércia. Ela nasce do espírito móbil e nômade do homem. Nada tem em sua estrutura de sedentarismo e separatismo.

Os princípios geradores e perpetuadores da cultura são o contágio e a memória. Nesse sentido é que devemos conceber o sentido do turismo, que ele tenha função perpetuadora da cultura.

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