O mal está nos olhos de quem vê

Devido ao modo passional como encaram a vida, os italianos sabem tanto fazer chorar quanto tirar boas gargalhadas dos espectadores.

Até Vittorio De Sica, mestre do neorealismo, dirigiu comédias deliciosas, como Ontem, Hoje e Amanhã (1963) e Matrimônio à Italiana (1964).

Mas além de icônicos diretores, a Itália também foi celeiro de versáteis atores, como Vittorio Gassman (O Incrível Exército de Brancaleone), Ugo Tognazzi (A comilança) e Alberto Sordi (O pequeno burguês).

Pouco conhecido no Brasil, apesar de ter atuado em um dos clássicos da Sessão da Tarde da década de 1980, Esses Homens Maravilhosos e Suas Máquinas Voadoras (1965), Alberto Sordi foi ator, diretor e roteirista prolífico, com 150 filmes no currículo, entre eles uma pequena obra-prima: O Diabo (1963).

O Diabo (no original Il Diavolo, e, em inglês, To Bed or Not To Bed) foi dirigido por Gian Luigi Polidoro, e narra a viagem do comerciante Amedeo Ferretti (Alberto Sordi) a Estocolmo, com pretexto de participar de um leilão de casacos de peles, embora a força motriz de sua aventura em paisagem tão longínqua tenha sido um folheto no qual afirmava serem as suecas muito liberadas, além de nutrirem uma admiração pelos italianos.

Amedeo, marido fiel há muitos anos, vê aí uma oportunidade de pular a cerca descompromissadamente, bem longe dos olhos de sua adorada esposa.

Por isso, sempre que tem a chance de ficar a sós com uma sueca, pensando que elas anseiam em ir pra cama, tenta agarrá-las desajeitada e loucamente, frustrando-se com tantos “não” que recebe.

É simplesmente hilário ver Sordi tentando conquistar as suecas, principalmente na cena em que ele está em um café e observa como os outros homens fazem para flertar com as mulheres.

Sordi tem o timing perfeito da gag e sua atuação é leve, natural.

Sabe aquele loser carismático por quem a gente torce para que no final ele consiga se dar bem? Esse é o Amedeo de Sordi.

Além de extremamente divertido, O Diabo ainda brinca com as diferenças culturais entre Itália e Suécia.

Em plena década de 1960, quando o mundo vivia o “paz e amor” e questionava as instituições civis e religiosas, Amedeo ao mesmo tempo que se encanta com a emancipação das suecas (elas têm os mesmos direitos que os homens a aproveitar a vida), fica atordoado com sua total descrença na Santa Igreja Católica; pra elas não há Deus nem Diabo.

No entanto, como bom italiano, entende que “mulher fácil” o macho tem que traçar, e não percebe quão terno é o olhar delas. Mesmo sentido culpa algumas vezes (ele sempre menciona que é casado e ama sua esposa), o sangue latino fala mais alto e ele não se contém, como na cena em que praticamente ataca uma mulher casada que lhe convida para uma festa em sua residência, só porque o marido dessa havia lhe falado que permitia que sua esposa usufruísse de sua liberdade.

Após tantas confusões e conquistas mal sucedidas, Amedeo se dá conta de que o fascínio das suecas está no modo como elas encaram a vida, e no trem, já de volta pra casa, profere uma das mais belas falas do cinema, invertendo todo o conceito que tinha no início da sua viagem:

“Se olhar para elas, sorrirão. Se pegá-las pela mão, irão com você. Se as ama, serão agradecidas. Mas nunca serão suas, porque são anjos… e você é o diabo”.

Assim, ao final do filme, percebemos que antes de ser uma comédia, O diabo é uma ode às mulheres “do norte”, rotuladas como sexualmente liberadas, volúveis, e até promíscuas, Polidoro e Sordi revelam que antes de tudo elas são mulheres sensíveis.

Polidoro confiava tanto no talento de Sordi, que o deixou atuar à vontade, sem maneirismos ou extravagâncias, e soube utilizar muito bem a trilha sonora (assinada por Piero Piccioni, grande colaborador dos filmes de Sordi), traduzindo todo o encanto e a ansiedade de Amedeo, deslumbrado com os encantos de um país estranho, tentando driblar a barreira da língua através de gestos, que nem sempre eram interpretados de forma correta.

O Diabo ganhou o Urso de Ouro, no Festival de Berlim de 1963, e Sordi recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia/Musical, em 1964.

Roteirista de histórias em quadrinhos, de cinema e games, além de organizar e prestar curadoria para eventos de cultura pop na cidade do Natal. [ Ver todos os artigos ]

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