O mal-estar na civilização romena

Por Márcio Seligman
Estadão

O volume Depressões foi o primeiro livro publicado por Herta Müller, em 1982. A autora, de origem romena e cultura alemã, foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2009. Ele traz como rubrica a denominação “contos”. No entanto, os textos aí reunidos dificilmente podem ser vistos como representantes típicos desse gênero tão caro à modernidade. Nele não encontramos ações, reviravoltas ou mesmo os agentes envolvidos em algum tipo de intriga. Antes, o que vemos são várias descrições de cenas passadas em uma aldeia romena de língua alemã. Essas cenas são descritas por uma menina ou por uma adolescente, quase sempre em primeira pessoa. Impossível, portanto, o leitor não identificar essa voz narradora com a da autora que assina o livro.

A força destes fragmentos – melhor denominação do que contos – está na radicalidade da narração. Eles funcionam como blocos de realidade que flutuam diante do leitor e permitem a ele um olhar de voyeur na pequena comunidade. Praticamente não percebemos que saímos de um “conto” e iniciamos outro. O que dá título ao volume, o Depressões, ocupa mais da metade do livro. Outros, bem curtos, são pequenas peças de humor negro, como é o caso de O Banho Suábio. Em uma página lemos como uma família inteira toma banho, sucessivamente, em uma mesma água de banheira que aos poucos vai ficando fria e imunda. Esse texto é emblemático, porque trata justamente do encontro da “limpeza” com a “sujeira”, um dos leitmotifs do livro.

Os homens trabalham no campo, bebem e espancam suas mulheres. As mulheres limpam e são espancadas. Elas, por sua vez, espancam as crianças. Na comunidade ninguém é filho do homem a quem chama de pai. Com poucos adjetivos pinta-se a aridez da vida infantil. O olhar de criança se manifesta na intensidade das sensações corporais e no modo como a narradora revela o ser absurdo do mundo dos adultos. As sensações de calor, frio, os odores, a intimidade com os animais, que normalmente as crianças vivem de modo muito mais intenso, tudo converge na construção de um mundo ao mesmo tempo muito povoado de sensações e desprovido de felicidade. “Os cachorros arrastam suas barrigas pela grama e deixam pingar mijo morno nos caminhos.” A família é o lugar do mal-estar. Freud, claro, explica.

Angústia. Também a proximidade do mundo apresentado, o incrível close-up com que a narrativa é conduzida, espanta o leitor. Talvez esse seja o aspecto mais surpreendente desse livro. O modo de a pequena narradora se relacionar com os dejetos da família – liberados na fossa comum nos fundos da casa – também faz escalar o tom abjeto dessa escritura que é como que arrancada do corpo e traduzida diretamente em palavras. Herta Müller tenta inventar uma escrita à altura (ou “à baixeza”) de uma pequena menina de uma aldeia romena de língua alemã na era comunista. Essa escritura tem que vencer e dar forma ao elemento angustiante, normal em qualquer infância, mas que é ainda mais assombroso na situação em questão. Trata-se de uma escritura que ocupa um silêncio e um cotidiano marcado pelo esquecimento: os alemães imigrados “acreditam que aquilo sobre o que nos recusamos a falar acaba por não existir também”.

Para inventar essa escritura, Müller bebe bastante na fonte do expressionismo alemão, com sua tendência ao abjeto e paratático (fragmentação da narrativa). O texto procura mimetizar a estranheza do mundo que cerca essa criança, assim como o sinistro que habita o seu interior. O estranho, o abjeto e o sombrio também qualificam o mundo burocratizado do comunismo estatizante que se manifesta ao longe como uma grande força por detrás das fronteiras da pequena aldeia e reduz a vida à sobrevida.

Neste universo, descrito como uma comunidade, impera uma guerra de todos contra todos. Também os animais domésticos e os criados nas pequenas propriedades rurais são constantemente torturados e sacrificados. Gatos são afogados, bezerros esquartejados e os cachorros, que são assassinados por pontapés dados por “sapatos de solado grosso”, apodrecem a céu aberto na beira dos caminhos da aldeia. Os animais lutam entre si e o gato quando arranca as cabeças dos camundongos emite um “ranger” desagradável. Neste mundo, a violência é o normal das relações animais, só que as crianças e os bichos a manifestam de modo mais “natural”. Não por acaso a criança crê ver no leite que a mãe ordenha da vaca o tom vermelho do sangue. Essa ausência de fronteiras, bem sinistra, manifesta-se também no cruzamento de gatos com coelhos e com cachorros. A indiferenciação ameaça e alavanca a violência, que se apresenta como único meio de estabelecer uma certa “ordem”. Ao invés do conto de fadas, onde o homem se reconcilia com a natureza, Herta Müller reencena em estilo sombrio a nossa “Queda”.

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA É DOUTOR PELA UNIVERSIDADE LIVRE DE BERLIM, PÓS-DOUTOR POR YALE E PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNICAMP. É AUTOR DE LER O LIVRO DO MUNDO (ILUMINURAS) E O LOCAL DA DIFERENÇA (EDITORA 34)

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