“O mar tá dentro de tu”

A frase que intitula este meu texto está no premiado e poético “A História da Eternidade”, obra fílmica que somente agora, depois de muita luta e esforço, consegui ver num cinema de Natal. Aliás, vale salientar que tem sido extremamente difícil encontrar filmes de boa qualidade artística nos nossos cinemas. E não falo somente da nossa ainda-velha-província-natalense. É no Brasil inteiro – regras perversas de distribuição e divulgação – com as exceções louváveis de sempre, que precisam ser garimpadas. O filme é uma convocação estética e reflexiva de mexer com as entranhas. Dirigido por Camilo Cavalcante, conta com um elenco com desempenho quase totalmente impecável – destacando-se Irandhir Santos, Marcelia Cartaxo, Zezita Matos, Cláudio Jaborandy, Maxwell Nascimento e a brilhante e recém descoberta Débora Ingrid –, além de contar com bela música (Dominguinhos presente) e fotografia em claros-escuros caravagianos.

Quem viu o filme sabe que falo de algo especial. É um roteiro e uma realização que se diferenciam, mesmo aparentando inicialmente ser um daqueles filmões que elegem a miséria humana, a pobreza nacional como pano de fundo e bandeira repulsivo-atrativa. Nada disso. O filme fala mesmo é de desejo e de suas consequências. Tem Lacan e Freud na ideia. E Shakespeare e Nelson Rodrigues. O cenário, em um vilarejo paupérrimo do sertão nordestino, poderia ser substituído pela paisagem concretada de cidades como São Paulo ou Nova Iorque, mas o resultado psicológico seria o mesmo: a pancada forte no pé-do-estômago e a parada estratégica para recolocar no lugar o pensamento e as tripas.

A angústia e a tragédia vão se irmanando à medida em que a trilogia interna do filme se desenrola: “Pé de galinha”; “Pé de bode”; “Pé de urubu”. Essas são três etapas que também são pequenos filmes num só. E cada uma delas se passa numa intensidade e num ritmo distintos. Um enquadramento quase estático existe no início, e há um meio-pro-fim em aceleração contínua de ações e sensações. Tudo muda de repente quando o talentosíssimo e multipremiado Irandhir Santos inicia sua dança estranha e delirante, cumprindo o papel de João, artista epilético e controverso que vive e causa no meio da aridez geográfica e do nada cognitivo, com uma vitrola girando um elepê que baila e rodopia tanto quanto o personagem na dança-dublagem de “Fala”, sucesso dos anos 70, voz profunda do inconfundível Ney Matogrosso, nos Secos & Molhados. Irandhir conseguiu realizar ali uma das mais belas cenas do cinema brasileiro contemporâneo.

E a partir disso tudo passa a tomar um rumo imprevisível que tem lances trágicos. Dramaticidade e tragédia no chão quente do fim do mundo. Só que tudo tem seu recomeço, o que justifica o título do filme. Vale o tremendo desconforto que causa, provocando a necessidade de reflexões profundas e rearrumação das entranhas, porque as vísceras de todos nós parecem mesmo se espalhar por sobre as pedras-de-fogo e lajedos do meio da caatinga e em poeira fantasmagórica, subindo ao horizonte azul, branco e dourado que se comunica imaginariamente com o mar cheio de sais e de sonhos. Mar que está mesmo dentro de nós e que precisamos explorar, separando os reais desejos daquilo que provoca dor e luto. O mar é o desejo que move. Ele está mesmo nos escaninhos do corpo e da mente. E suas fortes ondas estão. É só fechar os olhos e ver.

 

Lívio Oliveira [ Advogado público e poeta – livioalvesoliveira@gmail.com ]

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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