O marketing dos cadáveres políticos

Por Carlos Castilho
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Agora virou moda. Depois do romeno Nikolai Ceausescu, do iraquiano Saddam Hussein, do saudita Bin Laden, coube agora ao líbio Muammar Kadhafi o triste privilégio de aparecer nas primeiras páginas de quase todos os jornais do mundo na condição de cadáver. São fotografias chocantes de mortos ilustres, apresentados como troféu pelos supostos vitoriosos, mas que na realidade demonstram uma inequívoca preocupação com vingança.

O fuzilamento de Ceausescu, o enforcamento de Saddam e as execuções de Bin Laden e Kadhafi foram registradas — em sua maioria por celulares — por pessoas mais interessadas em faturar do que em registrar momentos históricos. Daí a escassa preocupação com a ética e os mínimos sentimentos de sensibilidade humana na hora de exibir corpos desfigurados de personagens caídos em desgraça.

No caso de Kadhafi, o dirigente líbio acabou sendo objeto de atos que poderiam ser classificados como selvageria política, praticada por pessoas que mais parecem delinquentes do que militantes de uma causa politica.

Evidentemente, a maioria dos adversários do coronel líbio que governou o país durante 40 anos não é formada por milicianos ou “rambos” de ocasião. Havia um claro cansaço popular com o autoritarismo de Kadhafi e com os seus desmandos econômicos.

Mas os confusos incidentes em torno da sua morte/execução lançam uma séria dúvida sobre a transição politica, já que os novos governantes terão como missão inicial controlar os grupos de rebeldes que atuaram por conta própria na derrubada do ditador.

A herança do coronel ficou ainda mais pesada por conta da ameaçadora presença de milicianos armados até os dentes e dispostos a saquear tudo o que lembrar o antigo regime.

As fotos de Khadafi morto e de milicianos exultantes deitados sobre o cadáver fazendo gestos de vitória causam repugnância mesmo naqueles que nunca morreram de simpatias pelo coronel líbio. Os detalhes da morbidez ficaram evidentes na exibição do corpo num açougue na cidade de Misrata.

O que impressiona é a insensibilidade dos editores de primeiras páginas de muitos jornais que se deixaram levar pela voyeurismo, tanto quanto os irresponsáveis editores de blogs sensacionalistas. A polêmica gerada pelas fotos não estava vinculada ao seu efeito ético, mas à curiosidade em saber se foram tiradas enquanto Khadafi estava ainda vivo ou já era um cadáver. Diferença absolutamente insignificante se levarmos em conta o efeito visual da foto.

Se o procedimento de exibir o cadáver de derrotados como símbolo da vitória de forças opositoras for transformado em rotina política e consagrado pela imprensa, nós estaremos enterrando junto o que nos resta em matéria de dignidade jornalística.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 25 de outubro de 2011 13:28

    Errata: quis dizer no meu comentário anterior ‘segunda década do século 21’ e não ‘segunda metade do século 21’. Tomara que todos nós aqui possamos viver além do ano de 2050 – no meu caso já com cerca de 90 anos de idade, pois nasci em 1959.

  2. Jóis Alberto 25 de outubro de 2011 13:20

    Em comentário anterior, que fiz aqui neste Substantivo Plural, eu lamentava alguns aspectos de verdadeira barbárie – a execução sumária do ditador e coronel Muamar Kadafi, de seguidores, ou mesmo de inimigos deles -, nessa guerra da Líbia. Todavia, o fato – independente de qualquer ideologia – é que enquanto existir algum tipo de opressão haverá motivos para se indignar, para se revoltar, para se fazer revolução. Na África do Norte e no Oriente Médio, onde a Primavera Árabe começou bem, com a derrubada de uma ditadura e implantação de uma democracia na Tunísia; começou a tomar outros rumos com a derrubada de ditadura no Egito e substituição por governo de transição que ainda está devendo mostrar se é mesmo democrático ou não. Na Líbia, onde se derrubou o ditador Kadafi, assassinado da maneira cruel e sumária, junto com vários dos seus seguidores, como denunciam e comprovam entidades internacionais de direitos humanos, essa ‘primavera’ tomou um banho de sangue e pode até ser chamada de revolução, mas nunca de primavera, pelo menos com a conotação política positiva que essa palavra assumiu desde a chamada ‘primavera dos povos’, decorrente das revoluções liberais, seguida dos levantes populares socialistas de 1848 e contra-revoluções (restaurações de monarquias, bonapartismos, etc) em países da Europa no século 19. Nos anos 60 do século 20, a ‘Primavera de Praga”, que poderia ter renovado o socialismo, tornando-o mais democrático, foi duramente reprimida pela antiga URSS, que no entanto, por ter se mantida muito fiel a um ‘socialismo real’ dogmático, de caserna, belicista – eram tempos da corrida armamentista da guerra fria -, não se reformou e acabou caindo, no início dos anos 90, após a queda do muro de Berlim, de 1989. O sistema neoliberal que se espalhou por vários países, a partir de então, e que entrou em declínio na primeira década dos anos 2000, ao mesmo tempo em que se consolidavam o surpreendente crescimento econômico da China e eleição de vários governos democráticos e populares na América Latina. Simultaneamente também o imperialismo norte-americano, com ajuda de europeus, tornava-se mais agressivo e intervencionista, a pretexto de se defender de novas ameaças, como aquela que ficou simbolizada no 11 de setembro novaiorquino. Nesse cenário, mais recentemente ocorreu o advento dos chamados BRICs – Brasil, Rússia, India, China, inicialmente, grupo ao qual veio se juntar a África do Sul -, enquanto, de 2008 para cá, EUA e vários países do bloco europeu enfrentavam sérias crises de endividamento. Se esse endividamento vai aumentar, devido às sucessivas guerras que os EUA e Europa estão realizando para assegurar controle na exploração do petróleo no Norte da África e Oriente Médio, ou não; ou se americanos e europeus vão enfrentar novas dificuldades políticas e econômicas naquelas regiões, devido às incógnitas em torno do fundamentalismo muçulmano, são algumas das principais questões desta segunda metade do século 21. Este novo século, a despeito do forte poder e atual hegemonia do capital financeiro parasitário – esse contra o qual 99% dos americanos protestam em Wall Street e outras cidades americanas – o novo século parece caminhar para uma democracia em escala planetária, possivelmente mais de inclusão social e de transparência política. Quais os poderes que serão hegemônicos e os movimentos que serão contra-hegemônicos, é a grande questão da atualidade!

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