O Massacre de Canudos nos versos de poetas coevos

“…Acontecia certas ocasiões estarem muitos daqueles miseráveis dormindo e serem acordados para se lhes dá a morte. Depois de feita a chamada organizava-se aquele batalhão de mártires, de braços atados, arrochados uns aos outro, tendo cada qual dois guardas, e seguiam… seguiam para um vez provar a cabalmente a sua coragem intimorata … Caminhavam um pequeno pedaço de terra e lá iam sendo assassinados um após outro … Eram encarregados dois cabos e um soldado ao mando do sanguinário Alferes Maranhão. Os quais peritos na arte, já traziam os seus sabres convenientemente amolados, de maneira que ao tocarem a carótida, o sangue começava a extravasar-se, sendo então decepada toda aquela região, de modo a produzir um jorro de sangue, tendo pouco mais ou menos de 25 centímetros de espessura, em circunferência.”

Descrição da “gravata vermelha” por um estudante de medicina Alvim Martins Horcades (1880 – 1940 ) que trabalhou em Canudos quando do massacre ao arraial do Belo Monte. In Descrição de uma viagem a Canudos 1899

A história do Brasil pode ser contada nos versos dos poetas, modinheiros e compositores populares e eruditos. Um dos mais inspirados poetas do Brasil foi o compositor, cantor e palhaço negro Eduardo das Neves (1874- 1919). Autor da composição “A Europa curvou-se ao Brasil” (em alusão aos feitos do aviador Santos Dumont), escreveu a modinha “Cinco de Novembro” para lembrar o assassinato do Marechal Bittencourt, no dia em que o presidente da República Prudente José de Moraes Barros ( 1841- 1902) acompanhado do ministro da Guerra o Marechal Carlos Machado Bittencourt e comitiva, fazia uma inspeção nas tropas que chegava da Bahia (Canudos). Quando desembarcava do escaler no arsenal de guerra, o presidente da republica foi surpreendido por um ataque de arma apontada pelo soldado anspeçada Marcelino Bispo de Melo. A arma não disparou, mas o soldado estava possuído de raiva e feriu de morte o Marechal Bittencourt com um punhal. Outros integrantes da comitiva foram feridos, mas só o Bittencourt foi ferido mortalmente. Um veterano da guerra do Paraguai que lutou em Canudos ao lado do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, sendo responsável por centenas de assassinatos entre homens, mulheres e crianças. Muitos degolados apesar de presos e indefesos, na fatídica “gravata vermelha”. Um crime brutal narrado em “Os Sertões” de Euclydes da Cunha: “A campanha de Canudos lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”.
O Escritor Gustavo Barroso registra em sem monumental livro “Ao som da Viola” um poema que convocava voluntários no Ceará, em 1897, para a quarta e vitoriosa expedição militar comandada pelo general Artur Oscar; Essa expedição, uma verdadeira máquina de Guerra com canhões e oito mil homens lutaram contra os conseilheristas.

Eu recebi um convite
Do general Artur Oscar,
Mode ir para Canudos
O conselheiro acabar
Vou-me embora, vou-me embora,
Quando acabar de dançar…

No Brasil, muitos acreditavam que o estado da Bahia defendia a monarquia. Diziam, também, que Antonio Conselheiro era o disfarce, e que ele representava o Sebastianismo. A malograda 3ª expedição do Capitão Moreira César foi assim satirizada na Bahia com uma sátira-chula (cf Pedro Calmon em Historia do Brasil na Poesia do Povo, citando Afrânio Peixoto);

Capitão Moreira César
Nó de cana Caiana,
Tomou chumbo nas Queimada
Foi morrer nas Umburuna.

Capitão Moreira César
Foi á guerra e não venceu;
Esta com oito que vence
Nos nove aribú comeu.

Capitão Moreira César
Chama-te bota lombriga,
Pois o chumbo é bom prugante
Pra limpeza da barriga

Muitos são os compositores que escrevem com o ponto de vista do vencedor. O político e poeta paraibano Eliseu César (pseudônimo Guajarino) nascido na cidade da Paraíba (hoje João Pessoa) publicou no Almanaque da Paraíba de 1898 o poema “ Salve” ( No regresso das forças vitoriosas em Canudos). Nesse poema a Pátria é sublimada como um “santo ideal, pavilhão augusto” cujos bravos soldados de Canudos ajudaram a resgatar. Um poema de louvor à república recém-instalada e seus presidentes. Devido ao ineditismo desse poema nos meios eletrônicos e dificuldade de publicação no século XIX em que o poema foi escrito, transcrevo o inspirado poema do poeta paraibano que também foi tipógrafo e carteiro. O único livro que o poeta deixou foi Algas (1894), e não sabemos se o poema “Salve” consta desse livro. Um poema bem na linha patriótica da Canção do Exercito e do Hino à Caxias. Louvando os bravos soldados que lutaram e derramaram sangue pela pátria, em Canudos. A pátria, lugar ditoso e belo, que deve ser extirpada de males e aventureiros. A grafia original do poema foi mantida para que o leitor leia como assim foi escrito no final do século XIX. O ph vem no lugar do f, como no português arcaico;

Salve / por Elizeu Cezar

(No regresso das forças victoriosas de Canudos)

Pátria, santo ideal, teu pavilhão augusto.
Pallio de eterna luz, é côncavo de soes;
Guia, no surto audaz dum heroismo adusto
A ´ montanha de gloria, a onda de heróes!

Da guerra o altivo gênio abençou-te quando
A república enfim, após sec´ulos de máguas,
Na vagua popular amanheceu cantando
Com riso auroral na vastidão das águas.

Ser livre, em cada filho o braço de um gigante,
Contar em cada peito um forte coração:
Eis o teu destino, Pátria, imensa, triunfante,
De florestas sem par e nobre pavilhão.

Teus verdugos cruéis, a sombra a iniqüidade
Espalhar tentarão. Pátria ridente e nova,
Para que role, alfim, a tua liberdade.
Do píncaro do monte ao vento de uma cova.

Mas, como, aberta em flor, a copa rumorosa.
Se eleva, do arvoredo, atlético, viril,
Pátria, teu pavilhão na esphera luminosa
Da gloria, há de pairar, cheio de louros mil.

Do grande inconfidente o sangue abençoado,
Lava que se entranhou na profundez da terra,
Tal como d´um vulcão o gênio suffocado,
A cólera que abala o fundamento á serra,

Da angustia secular, imensa estertorante,
A crosta espedaçou, sublime e genial,
Assim como, depois da noite agonisante,
A púrpura do sol, das nuvens, triunphal.

Si brasileiros vis preparam- te a mortalha,
A campa, o ataúde, e aspiram ver-te exangue,
Pátria, cuja alma grande amor tamanho espalha.
O exercito por ti foi derramar seu sangue!

Dentro de cada peito, ardente, palpitando,
Para Canudos foi um bravo coração!
Gloria aos que, na batalha, a vida abandonado,
Sentem do teu amor e derradeira unção!

De Caxias, De Osório e tantos que, na Historia,
Revelam do heroismo a eterna magestade,
O exemplo lhe acenava o rumo azul da gloria
A Pyramide de ouro, o céo da liberdade!

Como que vemos já, tornando jubilosos,
Numa doce alegria, límpida e christã,
A grande legião dos bravos gloriosos,
Trazendo em cada sabre a estrela da manhã.

E tu, sombra immortal, heroico Floriano,
Abençoa da Pátria a triumphal vingança,
E vê que, com valor extranho e soberano,
Nós sabemos honrar a tua nobre herança!

Muitos outros poetas se inspiraram nos acontecimentos trágicos de Canudos para tecer seus versos. A grande maioria dos poetas reproduz a história oficial e dos vencedores. Os soldados lutaram heroicamente para salvar a pátria, para defender a república. Selecionamos para esse trabalho os poetas coetâneos da Guerra de Canudos. Assunto que continua a inspirar poetas populares e eruditos, assim como estudiosos e escritores no Brasil e no mundo. Os sertões de Euclydes da Cunha continua sendo a fonte principal de informação sobre Canudos, mas outros escritores e pesquisadores estudaram com afinco a saga do beato Antonio Conselheiro. O Arraial de Canudos também era formado por muitas famílias e homens de bem, e não somente por facínoras como Euclydes e muitos acreditavam. Muitas dúvidas e boatos sobre o conselheiro já foram desfeitas. A visão patriótica e bem humorada do poeta ajuda a compreender melhor a história do Brasil e seus protagonistas. A literatura transmite a história da época de sua produção e pode muito nos ensinar sobre a história, política e costumes.

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