O medo da solidão e o trabalho

Por Márcio de Lima Dantas

Nós humanos temos medo da solidão. Para não ficarem sozinhos, muitos fazem qualquer negócio. O medo da solidão pode se confundir com, por exemplo, “amor ao trabalho”. Esse medo é um dos sentimentos e estados mais complexos do ser humano, faz fronteira com quase tudo, matiza-se do mais alto orgulho até a asquerosa subserviência, confunde-se com diversas outras coisas e engendra toda uma sorte de discursos: do inflamado militante de partidos e Ongs às racionalizações de comportamentos mesquinhos quando no contato com os colegas de trabalho.

Gerenciar sua própria solidão: eis a desafiadora tarefa, labuta operosa e que nem sempre logra êxito. Acredito que só há uma maneira de neutralizá-la: o trabalho ou a arte com intenções edificantes. Contudo, às vezes, o excessivo amor ao trabalho não passa de uma fácil fuga a uma questão que poderia ser compreendida – claro que não podemos esquecer que ela é fruto de uma dada cultura, num tempo e lugar – como ontológica. É bastante óbvio que nós ocidentais, vivendo numa sociedade onde o espírito comunitário é menos valorizado, padecemos e representamos o estado de estar só como um grande mal. Outros povos, com seus costumes tribais, pouco fazem conta da solidão e do mal que ela acarreta, como nós ocidentais compreendemos.

Quando se sublima o medo da solidão por desmedido amor ao trabalho, saia de perto, pois haverá o exercício da dimensão cruel e do lado sombrio que habita qualquer ser. Ao sublimar-se o medo da solidão, autoimpondo-se uma rotina cheia de tarefas para além do esforço físico e mental que o corpo pode cumprir, parece emergir de muitos indivíduos uma espécie de sadismo contra o próximo, que se manifesta por meio de boicotes, represálias, maledicências, difamações irresponsáveis, numa atitude na qual o descomedimento não tem bridas, peias ou compaixão.

Não dizem que o mal é uma cadeia? Se não houver quem pare o rastro de pólvora da mau palavra, das interpretações superficiais enganosas, do achincalhe com as enfermidades alheias, das intromissões sem limite nem fim na vida privada de outrem, haverá o triunfo de uma situação onde ninguém confiará em ninguém, e a amizade, mesmo que seja uma simpatia mútua, será banida para as fronteiras de um país onde o bem comum não habita.

Muito simples entender o motivo pelos quais muitos outorgam ao ambiente de trabalho o seu habitat no qual se movimenta com mais desenvoltura, no qual se sente à vontade, de corpo e de alma. É no trabalho que o indivíduo constituirá uma identidade, um território, onde vivenciará a maior parte do seu tempo, dando vazão a toda uma energia que se encontra em estado de potência.

Eis a velha dicotomia casa e rua. Casa e trabalho. E que ninguém se engane com as gargalhadas de corredores, simulação de que se está de bem com a vida, passando pelas rodas de conversas sobre frivolidades e o que não lhe compete da vida alheia, frenesi que atesta o estar vivo, até chegar a níveis mais complexos, como conspirar contra seus pares ou boicotá-los, chancelando sua capacidade de manipular o mal.

Em Provérbios: a boca fala do que o coração está cheio.

Mas o que haveria de se esperar de uma infelicidade mal administrada? A pessoa desprovida de um corpo saudável e uma alma sã sempre terá como meta generalizar sua condição. O infeliz não aceita ser sozinho, tenciona ser legião, conjugará os verbos na primeira do plural: as pessoas mal casadas (querendo se livrar um tempo do cônjuge), mal resolvidas (indecisas na orientação sexual), farsantes (incompetentes como profissionais), solitárias (saem de casa com medo de si mesmas), complicadas (sem um círculo de amigos para sair um pouco), expatriadas (que buscam construir uma identidade algures, usando o ‘salve-se quem puder’, porquanto em terra alheia a censura interna e a moral são outras.

Ao que parece, o ambiente de trabalho configura um sistema com código de conduta bastante simples e ao mesmo tempo complexo. Simples porque revela suas entranhas sem maiores esforços, dando-se em espetáculo para um observar relativamente arguto, pois suas micronarrativas foram cristalizadas desde sempre, constituindo o que podemos chamar de comportamento humano, há quem diga ‘natureza humana’. Em grande parte das situações, é possível prever os movimentos do tabuleiro, identificar os atores, seus papéis e funções. E o dissimulado vem a ser maldissimulado, pois que só engana um ingênuo de marca maior.

Também é complexo, uma vez que o jogo de alianças e proveitos de momentos são extremamente cambiantes, variando consoante a situação, o tempo, o interesse do momento, a serventia da amizade de ocasião. Quem é amigo hoje não é amigo amanhã. É como se fosse uma espécie de sistema no qual as partes se interdependem. Mais ainda complexo porque todo o código de conduta, todos os galões, medalhas e encômios só valem para o espaço no qual se trabalha, no qual se detém uma identidade. Alhures é a comarca onde são passantes, anônimos e às vezes nulidades.

Ah, mas isso só acontece, às vezes, e em determinados lugares, como repartições públicas, por exemplo.

Professor do Departamento de Letras da UFRN

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