O menino que me guarda

“…‘A benção, senhor’. Isto, nada mais.
Profundamente forte é a vida.”
Salvatore Quasimodo

Ilustração: “Meninos Soltando Pipas”, de Cândido Portinari

Desde o nascimento, um menino me guarda. Nasceu da minha barriga, do cordão umbilical e da placenta colada que minha mãe guardou por horas. Nasceu da minha primeira respiração e do meu primeiro choro; nasceu quando nasci, porque antes de mim ele não existia. O menino grande me ganhou, para o seu avesso. Mas se não fosse eu o seu avesso, o menino que me guarda seria incompleto.

Ele não teria escuridões, se não me guardasse. Seria Apolo com carência dionisíaca.

Diante da sua retidão épica eu sou apenas garatuja. Meu menino tem um aguçado senso de justiça, uma compaixão instintiva e orgânica. Mesmo quando quer, mesmo quando em fúria, mesmo quando erra, nunca consegue fugir à própria bondade. É da raça dos que são bons, por condenação.

O menino que me guarda e que amamentou os meus primeiros porquês tem um olhar de fazer perguntas profundas, às quais quase sempre me furto a responder (aos seus porquês eu não respondo, porque aos que nos guardam, nunca sabemos dizer nada). E, mesmo assim, mesmo com o meu olhar de murmúrio, sei que ele sabe de mim.

Num tempo mais antigo que o tempo, meu menino maior que o dia me preparava mingaus e sopas quando eu gritava fomes no seu ouvido, meu menino maior que a noite dedicava suas noites à minha insônia invertida, meu menino maior que o tempo me entregava seu melhor tempo. Sob a horta de estrelas e os pés de angico, levava-me em uma mão e trazia minha mãe sob seu outro braço. Eu era então apenas um pedaço da mãe e nem aos demônios, nem aos buracos-negros naquelas horas temíamos.

Muitas vezes precisei me perder do meu menino e até negá-lo, para poder delinear os nossos limites, decifrar as nossas fronteiras. Muitas distâncias tomei, do menino que me guarda, mas em mim sua guarda nunca arrefeceu. Quanto mais longe dele, quanto mais separada, quanto mais dissidente, mais as suas palavras e seus atos se acendiam no meu sangue. Que é que eu estava pensando? Para o meu governo, o menino é farol e fogo vivo.

Tenho carregado seu nome, impronunciável, pois não se pronuncia o nome da criação. Impronunciável, mas ardente sarça. Tenho feito força para segui-lo, um pouco mais além da inveja, admiração e tentativas. Eu talvez não seja digna, mas em sua morada, sou eu a entrar para proteger-me, mesmo sem dizer palavra. Porque sei, enquanto houver sua morada, haverá aconchego, acolhida. Enquanto ele me guardar, as dores que o mundo me dá não me despojarão de mim mesma. Enquanto ele houver, o meu avesso será sempre iluminado e nenhum buraco-negro me tornará o nada.

Aos pés desse menino sem paciência, sem idade e com a clarividência dos que vislumbram as auras, deposito estas palavras, como um adorno. Deposito ainda outra, um substantivo incomum – pai – palavra que é, sozinha, uma oração.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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