O menos esquecido

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Nelson Rodrigues, tão acurado em suas profecias, errou longe numa avaliação que, um dia, fez de si mesmo: “Tenho certeza de que serei esquecido. E não digo isso por charme. O morto esquecido é o único que descansa em paz”.

E não é que, por um longo momento, Nelson pareceu acertar? Quando morreu, aos 68 anos, em 1980, estava muito por baixo, situação que se prolongaria pelos mais de dez anos seguintes. Mas, desde então, foi não só redescoberto pela cultura brasileira, como implantou-se nela mais até do que em vida. E, ao contrário de outros heróis cujos centenários passaram quase em branco, o de Nelson, em 2012, será uma apoteose.

Bem de acordo com a nossa escassez de memória organizada, suas raras imagens sobreviventes em vídeo, até há pouco, eram entrevistas dos anos 70, mostrando-o cansado, doente e envelhecido. A cabeça, sempre brilhante, mas a voz já estava arrastada, bovina. Para quem não o conheceu, era difícil identificar ali o homem que mudou o teatro brasileiro.

Um vídeo surgido nesta semana na internet, “Fragmentos de dois escritores” (AQUI), recupera imagens de Nelson filmadas pelo comediógrafo João Bethencourt (1924-2006) em 1968, dadas como perdidas e localizadas pelo historiador Carlos Fico no Arquivo Nacional dos EUA. Que beleza de documento.

Durante dez minutos, vemos um Nelson aos 56 anos, magro, ágil e saudável, em casa (de pijama, comendo a “papinha hedionda” que lhe aplacava a úlcera, enquanto sua mulher, Lucia, nina a filha Daniela, a “menina sem estrela”); em Ipanema, saindo para o trabalho; no “Globo”, escrevendo com dois dedos e fumando Caporal Amarelinho; na “Resenha Facit”, da TV Rio, dizendo frases que faziam João Saldanha gargalhar; no Maracanã; etc. É o Nelson que lembra seus personagens -e tão cedo não descansará em paz.

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