O mercado vai bem, obrigado

Por Maria Hirszman
ESTADÃO

Qual seria a síntese possível da produção artística dos últimos dez anos? Como definir um período de intensa atividade e pouco resultado sedimentado? Evidentemente, ao longo de um período tão longo, muito se produziu, nomes de destaque surgiram, artistas já renomados se consagraram internacionalmente, centenas de exposições de grande qualidade foram realizadas no País, apesar da precariedade das nossas instituições e dos vícios do circuito. No entanto, de forma geral, trata-se de uma década que não deixou grandes marcas.

Em termos de produção, não se pode dizer que tenha se imposto uma vertente dominante de estilo, técnica ou linguagem que defina uma cara para os anos 2000. A impressão mais imediata é a de que a década que termina foi polivalente, mas também um tanto insossa. Marcada por um esforço de superação das fronteiras tradicionais internas e externas do campo das artes visuais, a produção do período parece ter sido pautada pelo peso crescente das mídias eletrônicas e digitais. Fotografia, vídeo, mas também a arte sonora, correspondem a parcela cada vez mais significativa das obras em exposição nas bienais, mostras coletivas e feiras, principais vitrines da área. Basta ver sua predominância na 29.ª Bienal de São Paulo, que acaba de fechar suas portas (leia nesta página). Isso não quer dizer, no entanto, que pintura, desenho, gravura sejam cartas fora do baralho. A observação das mostras de jovens, como as do Centro Cultural São Paulo, por exemplo, revela uma intensa e harmônica convivência entre as mais diferentes formas de expressão e abordagens.

Revival

Outro ponto que merece atenção é a existência de uma espécie de revival, de necessidade de reler – não apenas em termos históricos, mas também no embate criativo – momentos importantes da arte nacional. Como exemplo, pode-se citar o resgate da produção libertária da década de 70, com ênfase num retorno expressivo das ações performáticas e do registro fílmico das ações (na época via super-8, agora facilitado pelas câmeras digitais).

A importância crescente da curadoria, do cuidado com a museologia e a arquitetura das exposições – o que muitas vezes acabou por descambar numa desvirtuação do papel desses agentes e sua sobrevalorização em relação às próprias obras -, bem como uma evolução significativa nos padrões e na diversidade e qualidade das publicações da área também devem ser lembrados. Menos visível, mas também extremamente importante do ponto de vista de formação de público e de profissionais, é o crescente reconhecimento da arte-educação como parte essencial do trabalho de museus e instituições ligadas à arte.

Outro fenômeno significativo dos anos 2000 é uma importante internacionalização da produção e da reflexão sobre arte. É frequente a ida de artistas e curadores para o exterior, beneficiados por bolsas de estímulo e que acabam por permitir inserções menos institucionalizadas, bastante eficazes para suprir nossas objetivas carências internas.

Tais aspectos provocam, certamente, certo dinamismo. Mas são insuficientes para reverter a sensação de estagnação que parece ter marcado o circuito nos últimos anos da década e que é apontada por muitos como um sinal de crise no setor. Falta uma produção dinâmica, verbas para a realização de eventos de grande repercussão e instituições fortes capazes de bancar eventos de grande impacto. Mas essa quietude, que tem muito de marasmo, também pode ser considerada o indício de maior amadurecimento do circuito. Ou, pelo menos, do fim do ciclo das megaexposições.

Tais eventos histriônicos que nos chegavam empacotados da Europa permitiam que o público visse de perto Monet, Dalí e outras estrelas, mas o legado desse esquema não foi dos mais saudáveis, estando diretamente ligados a modelos bastante nefastos de gestão cultural como aqueles implantados por Júlio Neves no Masp e Edemar Cid Ferreira na Bienal e, posteriormente, na BrasilConnects.

Novas instituições, como a Fundação Iberê Camargo e a Fundação Vale do Rio Doce, somadas aos poucos museus que conseguiram atravessar os anos 2000 sem sobressaltos e com um trabalho de qualidade (a Pinacoteca é o grande exemplo) e o fortalecimento de outras – o MAC, que em breve deve inaugurar a sua nova sede, no prédio reformado do Detran -, podem permitir um início mais tranquilo e promissor para a próxima década. Outra instituição que alcançou grande destaque nesses últimos anos foi Inhotim. O centro de excelência em arte contemporânea aberto em 2006 pode ser considerado um dos grandes ganhos da década e é um exemplo muito bem-sucedido de formação e, sobretudo, exposição de acervo de arte contemporânea longe dos grandes centros e de maneira harmoniosamente integrada à natureza. Inhotim, no entanto, também foi alvo de escândalos envolvendo acusações de privilégio e má utilização dos fundos públicos.

Crise mundial

A crise, que causou estragos na economia mundial nos últimos anos, não parece ter afetado de forma significativa o setor. Se o circuito expositivo anda meio inseguro, a crítica de arte tornou-se algo praticamente inexistente e a produção se mantém sem grandes surpresas, o mercado parece que vai muito bem, obrigado. A cada dia surgem novas galerias no eixo Rio-São Paulo, a SP-Arte – feira consagrada à arte contemporânea – parece ter se consolidado com grande facilidade e um número significativo de artistas brasileiros tem conquistado espaço nacional e internacionalmente. O exemplo mais notável desse sucesso é o recorde obtido por Beatriz Milhazes em leilão realizado em 2008 pela casa Sotheby”s de Nova York, vendendo seu quadro O Mágico por US$ 1 milhão.

O ponto culminante desse processo de radical valorização da arte contemporânea foi protagonizado, no entanto, pelo inglês Damien Hirst que, no mesmo ano do recorde de Beatriz Milhazes, ofereceu em leilão na Sotheby”s de Londres boa parte de sua produção. O que muitos viram como um golpe de marketing arriscado acabou obtendo um sucesso impressionante: o artista, que nunca foi tão falado, arrecadou em poucos dias US$ 125 milhões!

A elevação dos preços e a ampliação do colecionismo pode estar na raiz de outro fenômeno bastante prejudicial que marcou a cena das artes visuais nessa década: as ações ousadas – e felizmente frustradas, pois as telas foram recuperadas posteriormente – de ladrões que entraram na Pinacoteca e no Masp, em 2007. Da mesma forma que a falta de estrutura de salvaguarda e proteção de acervos de grande importância para o patrimônio nacional acabou levando a acidentes trágicos, como o incêndio que atingiu a coleção de Hélio Oiticica e a destruição da cidade histórica de São Luiz do Paraitinga pelas chuvas (ambos em 2009).

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