O meu país é uma ficção

Por Isabel Coutinho
FSP

Em crise, Portugal se aferra à história

O ESCRITOR CHILENO Luis Sepúlveda pensava já ter resolvido “o velho problema entre a realidade e a ficção”. Mas não é bem assim. Ou bem a realidade se transformou perigosamente, ou bem a ficção invadiu a realidade, ou bem as duas se cruzaram, contou um destes dias no Festival de Literatura em Viagem, em Portugal.

O Chile é um país onde, como em todo o mundo, há quatro estações. E os chilenos mudam a hora duas vezes ao ano para ganhar luz solar. “É assim desde sempre. Porém, no Chile, há um governo que não tem claro o limite entre a realidade e a ficção. E o país tem um ministro do Interior que decretou, por lei, que ali há oito meses de verão e quatro de inverno”, disse o autor de “O Velho que Lia Romances de Amor”.

No Chile, em abril, já começa a fazer bastante frio. Nas escolas, há um regulamento que obriga as crianças, ainda neste mês, a irem fardadas com calções, sem meias e com uma camisa de manga curta, como no verão. “Quando dizes que faz frio em abril, dizem-te que isso é ficção. Muitas crianças vão morrer de pneumonia por causa dessa mistura entre realidade e ficção”, pontificou.

Ao ouvir Sepúlveda e suas histórias do Chile, pensei: estamos iguais. O meu país é uma ficção. Quando Otelo Saraiva de Carvalho, o capitão da Revolução dos Cravos, dá entrevistas a dizer que “se soubesse como o país ficava, não tinha feito a revolução”, ou que “precisávamos de um homem com a inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar”, ou que nos “falta quem saiba orientar o povo (…) com espírito de missão”, acho que já nada se salva.

CRAVO RENITENTE

Por estes dias, entra-se num táxi lisboeta e lá está a tocar no rádio a canção de Chico Buarque e Ruy Guerra “Fado Tropical”: “Esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.

As pessoas querem acreditar em algo e põem a tocar “o foi bonita a festa, pá”, de “Tanto Mar”, em “repeat”. Pois é, “tanto mar e nós aqui”, lembra um amigo. O meu país já não é o meu país. Somos “um povo inteiro à espera de vez”, como dizia Alexandre O’Neill. Só nos restam as canções.

A MONTANHA MÁGICA

É isso ou fugir para Lanzarote, como fez José Saramago. Todas as tardes, saía para dar um passeio. Um dia, enquanto estava a escrever “Ensaio sobre a Cegueira”, em 93, quando ainda não se usavam telemóveis, partiu por volta das 18h. Pilar del Río, sua mulher, não o acompanhou.

As horas passaram. José não regressava. Quando eram quase 22h, apareceu em casa. Completamente sujo, amachucado e com feridas.

Contou que tinha subido até ao cimo da Montaña Blanca, a 595 metros, e que descer tinha sido muito complicado. Fê-lo pelos sulcos de água. Teve de se agarrar ao mato.

Não há estrada, nem caminho, nem trilho. Tinha as mãos ensanguentadas. Pilar queria matá-lo. Só dizia: “Ele não se matou a subir à Montaña Blanca, mas eu estou a ponto de o matar.”

Durante vários dias, o escritor ficou sem se poder mexer. Quando se queixava de dor, a mulher lhe dizia: “Aguenta! Aguenta!” E Saramago explicava: “É que eu subi lá a cima!” Foi a primeira vez que fez isso -e a última. Foi um impulso. A montanha e o homem.

A MORADA DE SARAMAGO

A história acima contou-me Pilar del Río na varanda da casa onde José Saramago morreu em 18 de junho de 2010 e que agora está aberta ao público. Dois guias fazem as visitas à casa e à biblioteca do escritor, de segunda a sábado, das 10h às 14h. A entrada custa dois euros para os habitantes de Lanzarote, oito para os de fora.

Não é uma casa-museu. É uma casa em que se vive, que cheira a café português. Cheira “a casa, a vida, a cão”, como diz Pilar, que hesitou em mostrar no percurso o quarto onde o marido morreu, mas acabou obrigada a fazê-lo. Não se pode entrar, mas pode-se espreitar. É assim que acontece em todas as casas-museus de escritores. Na casa ao lado, fica a biblioteca onde Saramago escreveu seus últimos livros.

ANCIÃ DAS LETRAS

E já que falamos de livros, se passarem pelo Chiado, em Lisboa, não deixem de espreitar a livraria Bertrand. Está aberta desde 1732. Entrou para o “Guinness” como a livraria mais antiga do mundo ainda em atividade.

Não é a “livraria mais bonita do mundo” porque essa -para mim e para o escritor espanhol Enrique Vila-Matas -fica no Porto: é a Lello. Mas tem o peso da história.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP