O mito da brasilidade como “conto de fadas” ideológico para brasileiros

Por Carlos Freitas
NA CARTA POTIGUAR

Todas as sociedades humanas se assentam em mitos. Os mitos são sistemas de ideias que fornecem um conjunto de sentidos e interpretações acerca de determinadas experiências intersubjetivas que são históricas e culturais. São verdadeiras fontes de solidariedade coletiva, uma vez que fornecem sentidos compartilhados, o intercâmbio simbólico de imagens e representações sociais, geradores de sentimentos de identificação social e pertencimento grupal. Mas são também formas impostas (quase sempre de modo pré-reflexivo) de arbitrário cultural a indivíduos e coletividades. Tipos de códigos simbólicos construídos por grupos e classes sociais específicas, os mitos exprimem em grande medida, os “interesses” objetivos (materiais e simbólicos) de produção e reprodução das posições sociais dominantes. Daí a importância em entendermos os mitos também como “ideologias” justificadoras das relações de dominação. Principalmente no contexto dos Estados Nacionais modernos.

Nesse sentido, uma dessas formas de ideologia coletivas familiar a nós, brasileiros, é o “mito da brasilidade”. Articulado e sistematizado por cientistas sociais, a ideologia da brasilidade coloniza e se reproduz de modo sistemático entre gerações, assim como na vida cotidiana de muitos brasileiros. Ela se caracteriza pela crença de que o tipo humano brasileiro apresenta uma atitude emocional fortemente inclinada para práticas personalistas, sensualistas e sentimentais e compõem a autoimagem do brasileiro sobre si mesmo. Não obstante, o mito da brasilidade pode assumir formas variantes e derivadas do seu mesmo núcleo de ideias. É o caso do mito da mestiçagem (Gilberto Freyre), do mito da cordialidade (Sergio Buarque de Holanda) e do mito da cultura do jeitinho brasileiro (Roberto Damatta). Todos eles, reforçando estereótipos e essencializações naturalizadoras acerca da personalidade, do modo de ser e de se comportar do brasileiro. Como se toda a heterogeneidade cultural, comportamental e emocional pudesse ser compatibilizada naquelas categorias classificatórias da identidade brasileira. E mesmo quando se reconhece uma heterogeneidade cultural em nossa sociedade (o caso da Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro), observamos outro tipo de essencialização naturalista, a de tratar a civilização brasileira como um tipo societal “hibrido” ou “único” no mundo. Nada mais enganoso e deletério socialmente. Pretendo esclarecer agora porque. Para isso, gostaria de me deter particularmente em relação ao mito da cultura de jeitinho brasileiro de Roberto Damatta. Creio que esse é um bom exemplo de como o mito da brasilidade opera simbolicamente enquanto ideologia de justificação da dominação.

Como Jessé Souza já disse certa vez, Roberto Damatta é um daqueles intelectuais brasileiros “bossa nova” que adoram cultivar um certo “charminho crítico” superficial acerca dos problemas sociais no Brasil, mas que esconde uma atitude conservadora e preconceituosa sobre nossa sociedade. Caso exemplar de intelectual pop que escreve em jornais da grande imprensa, que participa de entrevistas em programas de auditório como o especializado “Roda Vida” ou o mais popular “Programa do Faustão”, Damatta “faz a cabeça” do brasileiro. Quase sempre, ele diz o que desejamos e esperamos ouvir sobre nós mesmos. Que somos um povo alegre, libidinoso, festivo e ama futebol. Mas sobretudo, que nos relacionamos de modo personalista com instituições e outros indivíduos. Somos adeptos da cultura do jeitinho, isto é, temos uma verdadeira “compulsão” cultural para nos servirmos de capitais de relações pessoais em nossas estratégias cotidianas de “perversão” de regras e desvios institucionais (clientelismo, patronagem, patrimonialismo, etc.). Mais do que isso, a cultura do jeitinho é constitutiva do nosso modo de ser psíquico e cultural.

E parece não adiantar a realidade refutar sistematicamente essa praga de teoria pseudo-cientifica sobre o brasileiro. Na última semana mesmo, por exemplo, o portal de notícias do UOL noticiou – descoberta por autoridades da Receita Federal brasileira – a importação para o Brasil de lixo hospitalar produzido em unidades de saúde dos Estados Unidos. Vejam bem, os Estados Unidos, assim como a Inglaterra, conforme já noticiado no ano passado, está dando um “jeitinho” de se livrar do seu lixo industrial produzido, burlando normas nacionais e internacionais de tratamento. Justamente os EUA que são tido como o modelo exemplar damattiano de vanguarda cultural e civilizatória. Em outro caso bastante pedagógico ilustrado no documentário premiado “Inside Job” (“trabalho interno”), também podemos ver exemplos da prática do “jeitinho” bastante disseminada entre jovens e também experientes executivos de bancos de Wall Street, onde os mesmos maquiavam as despesas financeiras com alugueis de carros de luxo, pagamento de serviços sexuais e festinhas particulares, tudo “contabilizado” em notas fiscais falsificadas com registro de custos em assessoria técnica ou material tecnológico. A “farra do boi” ocorreu no “nobre” e “virtuoso” mercado impessoal de negócios e ações idealizado por intelectuais liberais, inclusive o próprio Damatta.

Apesar desses e outros inúmeros exemplos que provam a insustentabilidade empírica da tese damattiana do “jeitinho brasileiro”, enquanto modelo cientifico explicativo dos padrões de práticas e comportamentos dos brasileiros, o mesmo se reproduz socialmente de forma quase inercial em nossa sociedade. Principalmente porque encontra anteparo nos diversos meios de comunicação e da imprensa brasileira (talvez atualmente bem mais do que no próprio meio acadêmico). Também graças ao inflacionamento de exemplos reais localizados da prática do jeitinho em nosso país (outro trabalho da imprensa sensacionalista que se alimenta de escândalos). Além do mais, conforme destacado por Jessé Souza e Roberto Grun, existem interesses materiais e simbólicos quase nunca explicitados na manutenção do mito de jeitinho brasileiro. Afinal de contas, é também na suposta cultura do jeitinho e da corrupção “brasileira” que se apoiam as agências de classificação de risco financeiro, justificando as altas taxas de juros em nosso país.

Evidente que Damatta não está totalmente errado em assinalar a cultura do jeitinho como um elemento constitutivo das práticas sociais no Brasil. Seu erro está em tratar tal cultura do jeitinho como um dado “pré-moderno” e como uma marca da “excepcionalidade” cultural do Brasil. Os exemplos de escândalos envolvendo grandes corporações financeiras modernas no capitalismo central só reforçam o caráter ridiculamente frágil e preconceituoso da tese damattiana.

Acho que chegou a hora de pararmos de nos lamentarmos por não termos seguido o processo civilizatório de Estados Nacionais como o EUA ou de não termos sido colonizados pelos holandeses. Também, de cultivar uma relação ambígua ou quase masoquista com nossa cultura nacional. Devemos refletir sistematicamente sobre nosso passado histórico e cultural, mas não para afirmar ideologicamente autoimagens depreciativas ou ufanistas acerca da nossa experiência civilizatória. Mas como forma de aprendizado moral e civilizatório acerca dos nossos acertos e autoenganos sociais. Acertos e autoenganos que não são “excepecionais” ou “particulares” de uma cultura nacional, mas que se encontram em todas as mais variadas civilizações humanas. Do capitalismo periférico ao capitalismo central.

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