O monossílabo da cultura

Adriano de Sousa
Técnico agrícola
Publicado na edição de hoje do NOVO JORNAL

O poeta norte-americano e.e. cummings (ao Google, pessoal) recorria a símile bem pouco lisonjeiro, ao definir a política: um ânus. Se o poema parece injusto, ao pôr no mesmo orifício gatos de buraco vário, é cabal (e irresistível) como símbolo da única obra reconhecidamente autoral da atual gestão municipal: a lavra de frases desastrosas. A competência gerencial que falta em áreas nevrálgicas – a saúde, a educação, a infra-estrutura, a phynança – abunda na produção de palpites infelizes.

Primeiro foi a “zagalada” do secretário municipal de Planejamento, Augusto Viveiros, ao soltar o inenarrável “não paguei porque não paguei”, para justificar o injustificável com os recursos previdenciários. Agora é a alma do presidente da Capitania das Artes, Rodrigues Neto, que aflora, lapidar, no rompante escatológico que abalou os narizes dos macumbeiros da cultura: “estou cagando e andando pras coisas que dizem sobre mim”.

Pelo rufar dos atabaques no terreiro de Mãe Micarla, teremos que engolir os dois e o que eles produzem. Não se conhece palavra ou ação da alcaidina para enquadrar os bad boys do borboletário, lembrando-lhes que o decoro lingüístico é necessário e desejável em funções públicas, no mínimo como evidência de decoros maiores e mais vantajosos no manejo dos nossos réis.

A frase de Pai Neto é mais espevitada na forma e no conteúdo, denotando clara diferença de estilo entre os dois linguarudos. Em vez do vinco de sinhozinho façanhudo, tem aquele espírito desabrido do suicida, uma personagem sempre interessante (puro pathos, nenhum logos) na pasmaceira em que se transformou o noticiário político pré-parrachos. Ou (pior para nós e para a cultura) do que se sabe acima do bem e do mal no varejo das intrigas e contra-intrigas palacianas.

Qualquer que seja o móvel – retaguarda resguardada ou instinto autodestrutivo – da frase, ela demonstra que não se pode esperar da Capitania das Artes nada além de mais do mesmo que temos tido na Fundação José Augusto: nada. Nada a publicar. Nada a gravar. Nada a mostrar. Nada a fazer.

Nas duas gestões anteriores, havia ao menos do que falar, bem ou mal. Agora, enterremos as ilusões no buraco mais fundo e mais sujo: a principal obra em curso na gestão municipal parece ser um anuário de frases que teimam em dar razão ao zombeteiro cummings.

Isso posto (ou dito), façamos o que nos cabe fazer: tiremos o nosso da reta e encostemo-lo à parede, enquanto não nos tiram a cuja. Do jeito que vai a coisa, a nossa desvalida cultura vai acabar reduzida ao monossílabo que a inicia e que, ao menos em Natal, contém-na inteira.

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