O mundo árabe mudou. Mesmo

Por Pedro Doria
O GLOBO

A internet gosta de nudez. Perante uma bela moça nua, ainda mais em circunstância inusitada, não há site que resista. O destaque é certo. Quando a jovem egípcia Aliaa Magda Elmahdy se despiu e publicou sua foto no Facebook, na semana passada, o padrão se repetiu. As fotografias de Aliaa nua circularam o mundo na mesma semana em que seus companheiros de geração voltavam à Praça Tahir para questionar o regime de transição pós-Mubarak. Muito se escreveu sobre o papel da internet na Primavera Árabe. Ele pode ser mais sutil, e mais impactante, do que parece.

Há uma década, quando os EUA invadiram Afeganistão e Iraque, o incômodo no mundo árabe com a presença ocidental era gritante. Não é que houvesse simpatia por Saddam Hussein, quanto mais pelo Talibã afegão, por ali. Não eram vistos com simpatia pelos governos e, apesar de bolsões de admiração entre o povo, não era regra e sim exceção. A intromissão do ocidente, porém, era vista como pior. Um mal a evitar. Nisso, todos pareciam concordar.

O mesmo Ocidente interveio na Líbia. Não houve invasão mas os bombardeios da Otan foram fundamentais. Sem eles, Kadafi ainda viveria tranquilo em Trípoli. As reclamações caíram no vazio, não parecem ter tido muito eco nas ruas. Obrigado, Ocidente.

As mudanças não estão apenas aí. A Liga Árabe, o estranho encontro de ditadores que parecia ter sido formado para perdoar os abusos uns dos outros, mudou o tom. A ditadura síria de Bashar al-Assad foi pesadamente censurada pelos ataques contra a população civil que deseja derrubá-la. E foi suspensa. Não há santo naquele grupo. Mas, pela primeira vez desde que foi formada, em 1945, a Liga Árabe chegou à conclusão de que, pelo menos em público, tem que fazer o discurso da civilização. Há algo mudando nas terras do Islã. E a internet tem parte neste processo.

Não é a internet sozinha. Nos últimos 20 anos, uma revolução midiática tomou conta da região. Ela começa na televisão. Nas ruas da Líbia, Egito ou Irã, seja em terras xiitas ou sunitas, há antenas parabólicas espalhadas por todo canto. Assistem aos canais de notícias a cabo do ocidente: CNN, BBC. Mas assistem também, e principalmente, aos canais da região, a começar pela Al Jazeera. O noticiário deles é popularesco, porém politicamente ousado. Embora patrocinado por uma monarquia absoluta, a do Catar, abraça uma pauta que com frequência questiona as outras ditaduras da região. Há um quê de demagogia por vezes, irresponsabilidade jornalística nuns momentos, mas inspira. E como inspira.

A Al Jazeera une o mundo árabe numa conversa em comum. Não havia nada do tipo antes. Agora, o cidadão de uma ditadura vê os de outra, nas ruas, pedindo mudança. Não é à toa que inspira.

E aí entra a internet. Se por um lado esta nova e crescente dieta midiática apresenta a região e o mundo para povos antes isolados, a rede complementa o processo. Ela permite que a classe média se exprima independentemente da opressão. É onde entra a jovem, e bela, Aliaa Magda Elmahd, que um dia achou por bem se despir, ligar o timer da câmera digital, e de meia arrastão, saltos altos e flor no cabelo encarar a lente. À CNN, contou que era um gesto de clamor por liberdade num país que oprime as mulheres. Uma jovem europeia que fizesse o mesmo, 80 anos atrás, não daria explicação diferente.

O braço mais liberal da política egípcia de presto se distanciou. Disse que não reconhece o ateísmo. Em Israel, um grupo de mulheres achou o máximo e, nuas, em conjunto, posaram com uma faixa de apoio. Publicaram no Facebook, foi parar em todos os sites. Aliaa é ponto fora da curva, o Egito ainda não está pronto para alguém como ela. Mas é um símbolo extremo de que algo muda no ar. É uma revolução que nasce na TV e se completa nas milhões de conversas que ocorrem pela rede todos os dias.

O padrão egípcio era: insatisfação popular ou política, ou as duas juntas, derrubavam uma ditadura para colocar outra no lugar. E tudo continuava como antes. Dessa vez, para a surpresa de quem imaginava o contrário no poder, não deu. A Era da Informação mudou mesmo o mundo árabe.

Comentários

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  1. Jarbas Martins 23 de novembro de 2011 9:26

    PRIMEIRO HAICAI P/ ALIAA MAGDA ELMAHDY Primavera tardia./ Diante de tua nudez/ até Deus consentiria.

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