O mundo da paz: a esperança vermelha de Jorge Amado

Por Por Marcel Lúcio

Jorge Amado viveu intensamente os debates políticos que afetaram o Brasil e o mundo ocidental nos anos 30, 40 e 50 do século XX. Não só militou no Partido Comunista do Brasil (PCB), chegando até a eleger-se deputado federal, como colocou sua obra literária à disposição da causa vermelha. Para o escritor peruano Mario Vargas Llosa: “Naqueles anos, a figura pública e a obra literária [de Jorge Amado] se identificavam com a ideia do escritor engajado, que usa sua pena como uma arma para denunciar as injustiças sociais, as tiranias e a exploração, e conquistar adeptos para o socialismo”.

Maior representante na literatura brasileira do romance socialista, a primeira fase da obra de Jorge Amado é dedicada à defesa de ideais do proletariado. Iniciada com o romance O país do carnaval (1931), passando por títulos como Capitães da areia (1937), Seara vermelha (1946), e concluída com a trilogia Subterrâneos da liberdade (1954), percebemos a nítida preocupação de Amado em dialogar com o contexto político e econômico de sua época. Além dos romances, nesse período, Amado lançou outros escritos partidários, como as biografias ABC de Castro Alves (1941) e Vida de Luís Carlos Prestes: o cavaleiro da esperança (1942); crônicas e artigos jornalísticos divulgados na imprensa nacional; e a narrativa de viagem O mundo da paz (1951).

Por sua atuação nos campos da política e da literatura, Amado, nas palavras de Darcy Ribeiro, “Foi, ao que eu saiba, o romancista que teve mais livros apreendidos pela polícia, proibidos pelo Estado Novo. Também foi o intelectual mais persistentemente perseguido por sua militância comunista e por seu prestígio”. Zélia Gattai relata que os livros de Jorge Amado, no período do Estado Novo, eram queimados em praça pública e proibidos de serem vendidos: “Naqueles anos de ditadura, quem fosse apanhado lendo um livro de Jorge Amado era fichado de comunista e cadeia com ele”.

No que se refere aos escritos do autor baiano, em ensaio publicado nos anos 40, Antonio Candido detecta um movimento dialético na obra de Amado que oscila entre a poesia e o documento. Para Candido: “Se encararmos em conjunto a sua obra, veremos que ela se desdobra segundo uma dialética de poesia e do documento, este tentando levar o autor para o romance social, o romance proletário que ele quis fazer entre nós, a primeira arrastando-o para um tratamento por assim dizer intemporal dos homens e das coisas”.

A percepção de Candido abarca os dois pólos entre os quais a obra de Jorge Amado busca um equilíbrio, principalmente no que diz respeito aos escritos da primeira fase do autor, quando Amado utiliza técnicas da narrativa folhetinesca para conferir o caráter literário a sua obra, mas não esquece a missão de dar voz aos oprimidos e de lutar por um mundo mais justo. A busca pela realidade e a denúncia da desigualdade social, da miséria e da exploração são fatores conteudísticos constantes na geração do romance de 30. Porém, no caso de Amado, há um ingrediente a mais: a ideologia comunista, que afeta de modo direto a produção literária do escritor. A direção do Partido Comunista, de Moscou, ditava normas para o procedimento artístico com o intuito de que os ideais socialistas fossem conhecidos e seguidos pelo povo. Amado, naquele momento, incorporou esse elemento a sua obra e percebia a literatura como uma expressão que deveria, acima de tudo, servir para conscientizar as pessoas sobre a causa comunista.

Em O mundo da paz, Jorge Amado relata a sua vivência na União Soviética e em outras repúblicas socialistas no inverno de 1948 e 1949. A viagem foi empreendida a convite da União de Escritores Soviéticos. O escritor, no período militante comunista ativo, com essa narrativa, pretendia mostrar aos brasileiros como funcionava o mundo socialista (mundo da paz), pois, segundo ele, a imprensa nacional era altamente tendenciosa ao imperialismo capitalista. Aproveitou ainda, como esclarece na nota introdutória, para que seus escritos servissem como homenagem de um escritor brasileiro ao 70º aniversário do camarada Stálin, “sábio dirigente dos povos na luta pela felicidade do homem sobre a terra”.

Notamos de súbito, apenas com a leitura da nota introdutória ao relato de viagem, o total comprometimento do escritor com a causa socialista. Esse envolvimento ocasiona a parcialidade do autor em seu relato. A parcialidade, por sua vez, torna O mundo da paz um livro panfletário ao regime político encabeçado pela União Soviética. Tendo assumido tal posicionamento, a autor necessita de abrir mão de determinados recursos literários para promover o didatismo à causa defendida. Em alguns momentos, a narrativa de viagem de Amado muita se assemelha ao discurso jornalístico, por seu caráter informativo, e ao discurso publicitário, por tentar vender a imagem de um produto (as vantagens da URSS) aos brasileiros.

Após a quinta edição de O mundo da paz, publicada em 1953, Jorge Amado proibiu a reedição da obra por acreditar que o livro trazia uma visão desatualizada dos países socialistas. Desde então, no catálogo de obras do autor baiano, não consta mais o título dessa crônica de viagem, tão atrelada ao seu contexto histórico.

No decorrer de O mundo da paz, Amado desconsidera uma percepção mais ampla de sociedade e tece elogios “cegos” à União Soviética e Stálin. Em vários momentos, faz questão de ressaltar que o caminho comunista é a passagem que deve ser seguida sem hesitação por toda a humanidade. Porque essa estrada é segura, justa e tem um potencial criador e educador sobre o homem. É bem perceptível a profunda diferença que separa O mundo da paz do relato Viagem (1954), de Graciliano Ramos, no qual o narrador-autor se mostra desconfiado e apreensivo com a jornada a ser percorrida na URSS e, desde o início do texto, salienta o seu propósito de imparcialidade ao narrar o que será visto no leste europeu.

Amado observa o mundo divido de modo maniqueísta entre as forças do bem (comunismo) e as forças do mal (imperialismo norte-americano – capitalismo), o indivíduo tem de se posicionar entre uma dessas duas opções. Uma terceira alternativa é impossível, não se pode ficar no meio do campo de batalha. O homem que prima pela paz deve cavalgar nas fileiras do comunismo. Apenas a elite que enriquece com o sistema defende o ponto de vista capitalista. O comunismo é uma espécie de caminho sem volta para a sociedade. O “destino” determina: o comunismo vencerá o capitalismo.

No Vigésimo Congresso do Partido Comunista Soviético, em 1956, foram denunciadas por Khuschev as atrocidades cometidas por Stálin no comando da URSS. O sonho havia acabado para muitos. Anos depois, em seus escritos autobiográficos O menino grapiúna (1981) e Navegação de cabotagem (1992), Amado reconheceu os aspectos falhos existentes na utopia comunista e ponderou sobre sua desilusão e descrença em relação aos líderes comunistas: “Perguntávamo-nos: teria valido a pena todo o nosso esforço, o nosso sacrifício, por uma causa que julgávamos a melhor? Constatávamos que, mesmo sendo a melhor causa, os dirigentes é que não prestavam: incompetentes, sectários, ambiciosos – sobretudo ambiciosos –, temerosos de perder seus postos de comando, cometiam as maiores injustiças, tornavam-se desumanos. Em nossa ingenuidade, não acreditávamos que Stálin, em quem depositáramos nossa confiança cega, acreditando em sua competência e bondade, estivesse metido naquelas atrocidades”.

É importante transferirmos a experiência de Jorge Amado com a sua obra para a nossa realidade e percebermos alguns pontos problemáticos: é bastante difícil associar expressão artística e discurso político sem que o aspecto estético seja prejudicado; em muitos casos, o problema não está no campo das ideias, mas sim nos responsáveis pela condução e implementação dessas ideias, pois o canto do poder é sedutor…


Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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