O mundo de Mark Twain

Por John Raskin *
Do San Francisco Chronicle
Publicado no Terra

É difícil acreditar -já que a posição que ele ocupa nas letras dos Estados Unidos é tão importante- que Mark Twain, nascido Samuel Clemens em 1835, morreu 100 anos atrás, em 21 de abril. O centenário de sua morte serve de ocasião a uma reavaliação de seu trabalho e reconsideração de sua vida. Felizmente, os críticos e biógrafos vêm vasculhando as obras publicadas e os arquivos deixados por Twain. Meia dúzia de livros publicados recentemente tratam de maneira aprofundada, e de todos os ângulos possíveis, a vida e a obra daquele que talvez seja o mais profundamente dividido dos escritores norte-americanos.

The Mark Twain Anthology: Great Writers on His Life and Works antologia Mark Twain: ensaios de grandes escritores sobre sua vida e obra oferece uma coleção diversificada de escritos sobre Twain, com uma introdução vívida de Shelley Fisher Fishkin, professora de literatura na Universidade Stanford. “Americano” é um termo que se repete frequentemente ao longo desses textos -um bom exemplo é o comentário de William Faulkner, que definiu Twain como “o primeiro escritor verdadeiramente americano”.

Embora asiáticos, latino-americanos e europeus também tenham elogiado Twain, seus mais ardentes admiradores eram quase todos homens, brancos e norte-americanos: H.L. Mencken, William Dean Howells e Leslie Fiedler, que afirmou em ensaio incluído na coletânea que romances norte-americanos como “Huckleberry Finn” giram muitas vezes em torno dos elos de amizade entre homens de raças diferentes. Toni Morrison tenta com afinco, em um ensaio de 1996, apreciar o clássico de Twain sobre Huck, o adolescente branco pobre, e Jim, o escravo negro fugitivo, mas não consegue resolver sua ambivalência. Ralph Ellison, outro escritor negro, não sentia conflito algum. Escrevendo sobre Twain, afirmou que “ele tornou possível para muitos de nós encontrar as nossas vozes”.

É claro que é a voz inimitável de Huck que dá alma à história. “Acho que vou ter que dar no pé para o Território”, ele declara, ao fugir de todas as tentativas de “civilizá-lo”.

Em Lighting Out for the Territory: How Samuel Clemens Headed West and Became Mark Twain dando no pé para o Território: como Samuel Clemens fugiu para o oeste e se tornou Mark Twain, o historiador Roy Morris Jr. descreve as aventuras de juventude de Samuel Clemens em Nevada e na Califórnia, muitas vezes em companhia de Orion Morris, seu irmão mais velho; o autor concentra suas atenções no período 1861/7; a história que ele narra é em larga medida um prólogo para o dama dominante da vida de Twain. Ainda assim, há prazeres a extrair dessas páginas: Morris fez sua lição de casa e destaca as primeiras pérolas literárias de Twain.

Uma das revelações interessantes é que, antes de escolher de vez o pseudônimo Mark Twain, Clemens experimentou meia dúzia de outros, alguns dos quais muito tolos (Thomas Jefferson Snodgrass). Morris reproduz o artigo em que ele usou pela primeira vez a assinatura “Mark Twain”. “Sinto-me como se tivesse despertado de um longo sono”, afirmou o escritor. Esse despertar alterou sua vida e mudou o rumo da literatura norte-americana.

Em In Mark Twain: Man in White – The Grand Adventure of His Final Years Mark Twain, o homem de branco -a grande aventura de seus últimos anos, Michael Shelden se concentra nos 40 meses finais de vida do escritor, quando ele já se havia tornado uma celebridade internacional e usava ternos brancos em certa medida a fim de se preparar para a morte.

Shelden prova sua afirmação de que Twain muitas vezes parecia “mais vivo” nesses meses finais de vida do que em qualquer outra época. O autor narra as aventuras finais dele como defensor de uma lei de direitos autorais, seus esforços para fazer amizade com mocinhas e seu senso de humor sempre afiado. Shelden é astuto o suficiente para saber quando é melhor recuar e deixar que o escritor brilhe sozinho. O elenco de apoio que ele monta é forte: empresários inescrupulosos, atrizes da Broadway e celebridades da literatura.

Talvez o ponto mais forte do livro seja o fato de que faz de Twain uma figura mais contemporânea, com tiradas maravilhosas: “Um homem moribundo às vezes custa a decidir para que lado prefere ir: o paraíso, pelo clima, ou o inferno, pela companhia”.

Laura Skandera Trombley se concentra no estranho relacionamento entre o escritor e sua secretária pessoal, Isabel Van Kleek Lyon, na fase final de sua vida em Mark Twain’s Other Woman: The Hidden Story of His Final Years a outra mulher de Mark Twain: a história oculta de seus anos finais. Trombley não afirma que os dois tenham consumado um relacionamento, embora faça insinuações. O livro dela é um apanhado de grande números de fatos -Twain tinha 17 ternos brancos- e longas citações dos diários de Lyon. Trombley trata o assunto ao modo freudiano e descreve o escritor como misógino: “Uma mulher é só uma mulher, mas um bom cigarro é uma diversão”, disse ele.

Ela retrata o escritor como um velho mal comportado, de boca suja, e o mostra chamando Lyon de “mentirosa, falsária, ladra, hipócrita, bêbada, bisbilhoteira, vira-casacas, traidora, mente imunda e vagabunda luxuriosa desesperada por sedução”. Apesar do exagero e da falta de cavalheirismo, Twain tinha razão. Trombley toma o partido de Lyon na batalha entre “Rei”, o apelido que ela dava a ele, e “Cadela”, o nome pelo qual ele a chamava, e tenta transformar um personagem menor em co-estrela do espetáculo; vale a tentativa, mas nada de prêmio.

Jerome Loving trata da vida inteira de Twain em Mark Twain: The Adventures of Samuel L. Clemens, um livro tanto divertido quanto informativo. Loving cobre o relacionamento entre o escritor e sua mulher, seus anos iniciais em San Francisco, seu sucesso e aventuras sexuais. Cada um dos 52 capítulos é um delicioso ensaio sobre uma fase da vida de Twain. Loving também ressalta os paradoxos: a afinidade natural de Twain, quando menino no sul, pelos negros, ao mesmo tempo em que, como o escritor mesmo afirma, “nos meus anos de escola, a escravidão não me causava repulsa”.

A vida de Twain está conectada aos seus escritos, e Loving demonstra que “quase todas as obras de Twain foram livros de viagens”. Jamais exculpatório ou excessivamente lisonjeiro, o autor vê Twain por inteiro, e como um filho da Era Dourada que ele ajudou a celebrar na literatura. Loving conta o triste fim dessas aventuras com sensibilidade e observa que Twain se tornou um escritor amargo, que criticava a humanidade e se fez “um estranho para si mesmo”. As fotos de Twain -vestido de preto e não só de branco- reforçam o retrato literário, e a cronologia de datas e acontecimentos serve para orientar o leitor. É possível que esse livro seja a melhor biografia do ano.

Por fim, um novo volume da Library of America reúne A Tramp Abroad (1880), Following the Equator: A Journey Around the World (1897) e 13 peças mais curtas de Twain sobre suas jornadas. São trabalhos menos conhecidos que seus populares romances, mas Twain era excelente escritor de não ficção, e seus escritos em primeira pessoa merecem ser mais conhecidos. Por sob o humor, ele era mortalmente sério, quer ao tratar do Império Britânico ou de turistas norte-americanos na Europa, bem como de seu desejo de não se “europeizar”.

Infelizmente não existem registros sonoros de Twain, conversando ou lendo seus livros, embora exista um precioso filme. Ainda assim, é impossível não ouvir sua voz inconfundível em A Tramp Abroad e Following the Equator -alta, clara, muito contemporânea e altamente americana.

*John Raskin é o autor de The Radical Jack London: Writings on War and Revolution.

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