O mundo é incerto

Por José Castello
O GLOBO

As palavras, propõe Skármeta, não são inexatas; ao contrário, são nossa única chance de exatidão

Chego à página 71 de “Um pai de cinema”, romance breve de Antonio Skármeta – FOTO (Record, tradução de Luís Carlos Cabral). Nela encontro uma reflexão do protagonista, o professor de aldeia Jacques, que resume o espírito do livro. Muito fraco, com uma febre que o devasta, o professor anota, por desafogo, em uma folha solta de caderno: “Não é que as palavras vagueiem incertas algo; o próprio mundo é incerto, as palavras são exatas”. A frase me derruba. Estou sempre a enfrentar, vocês sabem disso, a insuficiência das palavras. Estou sempre a brigar com elas. Escrever é brigar com as palavras. Mas agora, através do personagem Jacques, em uma inversão rápida, Antonio Skármeta me ajuda a pensar algo que relativiza minhas aflições e, assim, me obriga a observar o mundo de outra maneira. É sempre saudável levar uma rasteira.

As palavras, propõe Skármeta cheio de fé na escrita, não são inexatas, tampouco insuficientes; ao contrário, elas são nossa única chance de exatidão. Inexato, turbulento, incerto é o mundo e seu destino. Imprecisas são as coisas. Turbulenta é a vida. Das coisas do mundo as palavras, vez por outra, conseguem arrancar nacos rápidos de luz. Como a luz ilusória do cinema, brevíssima, mas que nos inebria e consola. E, no entanto, quando o filme termina, voltamos a enfrentar a aspereza do real.

O romance de Skármeta, “Um pai de cinema”, é pura delicadeza. Narra a história de um filho que, muito cedo, vê o pai ir embora. Narra também a história do segredo desse pai, que justifica seu desaparecimento e envolve a sombra incerta (sempre a turbulência, sempre o desassossego) de um segundo filho. Relatos que terminam em desabafos, como os que Jacques faz a seu grande amigo, o moleiro Cristián, amigo que ele herdou do pai também. Herdou muitas coisas do pai, a pior delas, a sua ausência. Descobriu como o mundo é estranho: descobriu que um pai ausente está mais presente que um pai presente. Mais presente do que aquele pai que permanece, sempre ali, amoroso, atento, fiel, e a quem tantas vezes esquecemos. Do pai que desapareceu sem deixar rastros, conserva-se, ao contrário, uma imagem atordoante. A sombra (a palavra?) é mais forte que o corpo (a coisa).

Os amigos, Jacques e o moleiro Cristián, resolvem viajar juntos até a colônia de pescadores de Angol para freqüentar um prostíbulo. Na plataforma de embarque, entre eles, se intromete o aluno Augusto Gutiérrez, um menino esperto e precoce, que deseja que o professor o leve também em sua aventura. Sabe da paixão secreta de Jacques por uma moça da aldeia; promete, em troca, ajudá-lo nessa aproximação. Não convence o professor, mas permanece em sua mente como um sinal de que a vi d a — m e s m o e m uma pequena aldeia — é muito mais intensa do que parece ser. Você observa a paisagem imóvel, uma rotina estúpida, faces plácidas e vazias. E pensa que é só isso. Contudo, no interior delas — na barriga dessa lenta baleia — a vida, inquieta e cheia de dentes, se agita.

Na frente de um cinema, tantos anos depois, em um susto, Jacques, sem que pudesse esperar por isso, reencontra o pai, Pierre. A lenda diz que ele se mudara para Paris; mas a Paris verdadeira é a pequena colônia de Angol, um lugar que cheira a peixes e a querosene de barcos. O pai traz consigo um bebê — seu irmão, filho de uma relação secreta que o levou a sumir. Ali, naquele encontro entre passado e futuro, a vida lateja. Não no bordel, onde tudo é previsível, e onde Jacques experimenta um amor sem gosto. Tampouco na aldeia, onde tudo se repete. Não no passado arquivado como velharia, ou em um futuro conservado como sonho — mas no choque entre os dois. Isto é: no presente. Ali onde está o leitor.

Acentua-se aqui um elemento fundamental da literatura de Skármeta: a delicadeza. O homem não precisa de grandes aventuras: a grande viagem pode ser feita entre uma pequena vila e uma colônia decadente. As grandes perdas nem sempre guardam aspectos dramáticos; o objeto perdido pode estar bem do nosso lado, quase visível — como na “Carta roubada”, de Edgar Alan Poe. E quanto mais visível está, quanto mais se impõe e grita, menos nós o vemos! Não: não é no drama que a sorte humana se decide, mas no rastejar das pequenas coisas. Aquelas que parecem mais indiferentes à literatura e das quais, no entanto, a própria literatura (ao menos, a que nos interessa) se alimenta.

As narrativas de Skármeta me fazem lembrar os contos de fadas. Estranhos contos de fadas sem fadas e sem ogros e sem magias, mas apenas com pessoas absolutamente banais. A magia do banal. Sonhos empoeirados, antigos, sem surpresas e, no entanto, que selam nosso destino. Lembro- me agora de uma frase de Hans Christian Andersen que um amigo outro dia me enviou. Diz Andersen: “Os contos de fadas são escritos para que as crianças durmam, mas também para que os adultos despertem”. Despertar para o quê? Para a beleza sutil, quase escondida, das coisas.

Eis tudo: embora inconstante e instável e tantas vezes insuportável, a vida está ali onde menos desejamos encontrá-la. Para isso usamos as palavras: como escudos. Só que, em vez de nos protegerem, e contrariando nossas expectativas, elas se oferecem como janelas, que rasgam furos de luz na grande colcha do mundo. São focos rapidíssimos de luz, como que emitidos por alguma lanterna desgovernada. Não chegam a solucionar nada, nada podem fazer contra a instabilidade das coisas: você fecha o romance de Skármeta e o mundo continua inconstante e infiel. Mas nos abrem rasgos de esperança ou, pelo menos, de ilusões. Não de ilusões que nos prendem e cegam, mas daquelas que nos empurram para frente. E esses rasgões, nas mãos dos escritores como Antonio Skármeta, tomam a forma de delicadas narrativas.

É muito sutil, embora quase milagroso, atravessar o corpo de um homem com a delicadeza das palavras. O corpo continua ali — como o de Jacques, ou de seu pai, Pierre —, preso ao lodaçal das contingências, retido em seu próprio peso e preguiça. O espírito continua frágil e impotente. Contudo, alguma coisa, por instantes, se eleva. Esse vôo (sobrevôo) é a literatura.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ana Barros 4 de março de 2012 13:55

    As palavras são exatas (?) porque expressam a metafísica do mundo. O escritor trabalha com a tensão angustiante do real que ele capta com suas antenas agudas e cruéis com a sua sede de esperança. No entanto, garimpando no submundo, ou nas víceras do mundo, ele se depara com o real que será expresso por meio não só da palavra mas de todas as artes.

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