O mundo fantástico da ciência náutica portuguesa

Por Pedro Silva

Como deves saber, não foi nada fácil descobrir tantos e tão longínquos lugares. Na altura, não havia nem telefones, nem computadores nem nenhum outro aparelho sofisticado que ajudasse os navegadores a encontrar territórios ainda desconhecidos. Assim, tiveram de utilizar a inteligência.

Por certo nem imaginas o número de invenções que foram necessárias para tornar possível que as viagens pelo perigoso mar fossem uma realidade.

Os meios de transporte

Sendo por via marítima, só os barcos poderiam auxiliar. De início, os portugueses usavam apenas a Barca e o Barinel. Eram pequenos e frágeis. Por vezes à base da força dos remos. Não estavam, portanto, preparados para grandes viagens. Mesmo assim, foi com estas pequenas embarcações que chegámos às ilhas da Madeira e dos Açores, entre outras. As pequenas velas, ajudadas pelo forte vento, auxiliavam os portugueses a chegar onde sonhavam.

Mas os sonhos eram cada vez mais ambiciosos. E é então que surge a Caravela. Por certo já ouviste falar da Caravela. Inicialmente era um barco de pesca. Mas a sua dimensão levou a que as suas três velas permitissem chegar à costa africana, um pouco mais longe.

Apesar de ter sido muito importante, a Caravela não era ainda capaz de chegar tão longe quanto os portugueses queriam. Surge, então, a Nau. Com um tamanho impressionante, esta embarcação tornou-se o principal auxílio marítimo para chegar mais longe do que nunca, cruzando o Cabo das Tormentas e chegando à Índia e ao Brasil.

Havia sido um navio de transporte de mercadorias. Mas agora, equipada com canhões e soldados, estava pronta para enfrentar todos os perigos das viagens marítimas de longa distância.

Convém é que não esqueças de algo muito importante: foi pela capacidade de não desistir, mesmo quando as viagens não corriam tão bem, que os portugueses conseguiram chegar tão longe, pelo mar fora. Esta é uma lição de vida que todos deveríamos seguir. Nunca desistir perante dificuldades. Quando pensares que não és capaz de fazer algo, por julgares ser demasiado difícil, lembra-te dos navegadores portugueses. Eles, em pequenos barcos, enfrentaram os mares e as tempestades, chegando onde nenhum outro Homem havia chegado por mar. É por isso que, ainda hoje, tantos anos passados, os seus nomes são lembrados como heróis!

A Cartografia

Por outro lado, e como na época não haviam instrumentos electrónicos, os portugueses teriam de confiar em mapas. Como vês, já na altura o papel, a escrita e o desenho eram muito importantes. Antes de haver computadores, eram os livros que tudo ensinavam.

Estes mapas, também conhecidos por cartas náuticas, eram desenhados à medida que as viagens iam acontecendo. Por cada lugar onde passassem, os navegadores faziam as suas anotações. Isto permitia que, quem viesse depois, teria todas as informações para evitar os perigos e saber o caminho correcto que deveria tomar.

Aos desenhadores de mapa chamava-se cartógrafos. Na altura, era uma das profissões mais importantes. Entre os mais famosos contam-se os nomes de:

– Jaime de Maiorca (que ajudou o Infante D. Henrique a preparar os Descobrimentos)

– Lopo Homem (ao serviço do rei português D. Manuel I; desenhou vários planisférios, sendo responsável por fazer e emendar todas as bússolas)

– Diogo Soares (o primeiro cartógrafo a definir latitudes e longitudes do território brasileiro)

– Abraão Zacuto (para além de astrónomo era matemático e os seus conhecimentos foram fundamentais para criar um novo astrolábio)

Os Instrumentos de Navegação

Entre os vários instrumentos de que os portugueses se serviram para tornar possíveis as descobertas marítimas, podemos destacar cinco. Por certo já terás ouvido falar de algum deles na escola ou na televisão, até porque são muito conhecidos.

Em primeiro lugar, a Balestilha que se supõe ter sido inventada pelos portugueses. Trata-se de um instrumento que media a altura em graus que unia o horizonte ao astro. Desta forma, encontrava-se os ângulos, antes e após os meridianos. Não parece fácil compreender exactamente do que se trata, mas o importante é perceber que sem ele a navegação não seria tão fácil.

Outro instrumento foi a Esfera Armilar. Tão crucial foi que simbolizou a época dos Descobrimentos. Por isso faz hoje em dia parte da bandeira portuguesa. Trata-se de um modelo reduzido do globo terrestre, no qual os navegadores mediam a sua posição relativamente ao Sol e restantes astros.

Em terceiro lugar temos o Astrolábio, um dos instrumentos navais mais antigos. Era usado muitos séculos antes de os portugueses se servirem dele para as navegações. Era utilizado para determinar a posição dos astros no céu, tendo em conta que, durante a noite, quando o sol desaparecia, continuava a ser fundamental saber que direcção tomar.

Em quatro lugar, a bússola. Por certo, também terás uma pequena bússola em casa ou já viste alguma. É um aparelho que aponta, sempre, o eixo norte-sul, em direcção ao norte magnético da Terra. Desta forma, seja qual for a tua posição, os navegadores sabiam sempre onde se encontrava o norte. Assim, podiam definir melhor a sua rota.

Por último, o Quadrante. Passou a ser utilizado pelos marinheiros de Portugal a partir do século XV. Através da sua utilização sabia-se a posição dos astros, tendo a forma de um quarto de círculo, indo dos 0 aos 90 graus. Com este aparelho poderia determinar-se se o navio se encontrava mais a norte ou mais a sul, através da medição do ângulo que a Estrela Polar faz com o horizonte ou através da medição da inclinação do astro solar.

As Técnicas de Navegação

Entre as várias técnicas que existiam para se chegar a bom porto, uma das mais difíceis deveria ser a chamada “Navegação à Bolina”. Neste caso, consistia em navegar contra ventos desfavoráveis, o que não era tão raro quanto isso. De facto, à medida que os marinheiros portugueses abandonavam o Hemisfério Norte chegando ao Sul, as marés e os ventos tornavam-se ainda mais desfavoráveis. Portanto, a experiência era muito importante e os navegadores de Portugal tinham-na em larga dose.

Assim sendo, podemos perceber a importância dos instrumentos náuticos e do conhecimento profundo sobre marés e ventos. Havia, como tal, que fazer algumas viagens com o objectivo de procurar informações sobre meteorologia e sobre os oceanos. Em algumas dessas viagens de reconhecimento do terreno, por vezes, encontram-se novas ilhas, como aconteceu com a Madeira e os Açores, arquipélagos portugueses.

Outra das técnicas chama-se “Navegação à Volta do Mar Largo”. Consistia em dar uma volta mais larga do que o necessário. A intenção era procurar ventos mais favoráveis que soprassem forte nas velas, levando a embarcação a navegar mais rapidamente. Curiosamente, foi esta técnica que permitiu a Pedro Álvares Cabral descobrir o Brasil pois a sua missão inicial era fazer o caminho marítimo para a Índia, no seguimento do seu antecessor Vasco da Gama.

Por tudo isto não podemos deixar de imaginar como eram bravos e inteligentes estes nossos marinheiros. Acreditas que tenham conseguido descobrir tantos países pelo mundo fora apenas por sorte? Não, foi o destino em união com a força de vontade de todos aqueles homens e mulheres que tudo fizeram para tornar possível a epopeia dos Descobrimentos.

Alguns termos náuticos

Se algum dia quiseres ser marinheiro, ou apenas por curiosidade, aqui se deixam algumas palavras que só os homens do mar conhecem e que muito utilizam.

Amainar significa colher, ou apanhar, as velas. Os marinheiros também costumam dizer “arriar” as velas. Se ainda não sabes, uma vela é a estrutura de tecido, ou outro tipo de material, que se serve da força do vento para empurrar a embarcação.

Um casco é a parte de baixo do navio, que lhe permite flutuar ao cimo da água. Sem um casco, a embarcação ia ao fundo, afogando-se.

A proa é a parte da frente de um barco, ao passo que a popa significa a parte de trás (ou ré).

Quando ouvires falar em barlavento, isso quer dizer que é desse lado que sopra o vento. Já sotavento é exactamente o contrário. Ou seja, sotavento é o vento contrário.

Uma bóia de arinque é usada para assinalar o local onde se encontra a âncora. Já agora, digo-te que uma âncora é uma peça em ferro usada para prender o barco ao fundo do mar, evitando assim que o mesmo navegasse sozinho e deixasse os marinheiros em terra!

Com certeza já ouviste falar em bombordo e estibordo. Bombordo, como a palavra indica, vem de “bom bordo”, ou “lado bom”. No caso, é a parte à esquerda da direcção que o navio toma. E porquê “bom”? Por ser o lado de melhor visibilidade. Sabes que, no passado, havia piratas e muitas disputas em alto-mar, pelo que a atenção era fundamental. Já no que diz respeito a estibordo é o lado à direita do navio.

Bem, penso que agora já sabes tudo o que é necessário para ser um bom marinheiro. Quem sabe, um dia, não encontras uma ilha ainda por descobrir, algures num mar longínquo? Ia ser muito divertido, não achas?

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