O mundo misterioso de William Faulkner

Sabe aquele autor que você passa boa parte da vida adiando a leitura de livros dele? Comigo foi William Faulkner. Mas como todo mistério na vida, esse se revelou através da leitura de um artigo que pesquei na internet sobre o autor. Fiquei intrigado com as críticas: autor difícil, tortuoso, talentoso, prêmio Nobel, monotemático e por aí vai. Então a curiosidade foi mais forte e eu comprei uma edição de Santuário, da Abril Cultural, aquela de capa dura, num sebo do centro da cidade. Baratinho, algo em torno dos R$10,00.

Aí começou minha aventura pela literatura desse escritor que ainda vai me proporcionar muito prazer e muito espanto também. Logo nas primeiras páginas, o leitor vai entrar em contato com um mundo em que as pessoas existem porque são vistas. Depois surge aquela sensação permanente de medo. É o terror que surge para não mais abandonar o leitor até a última página.

A partir da recriação do ambiente sombrio de uma cidadezinha dos sul dos EUA, no pós-guerra da Secessão, Faulkner vai mostrando uma sociedade que se esgarça em seu tecido social. A decadência flutua em toda a extensão do romance como se um cheiro de mofo e podridão saísse das páginas do livro direto para nossas narinas.

Você pode até dizer em seu desconforto, “mas isso não tem nada de real”, e voltar imediatamente para sua zona de conforto, seu trabalho, seus amigos, seu lazer, mas aquela mancha escura do mal vai lhe perseguir por dias e dias. O romance Santuário é isso, a começar por este título tão estranho que nada tem a ver com o que você está lendo.

Temos aqui a estória de uma mocinha da alta sociedade local que sai para uma bebedeira com um namoradinho. Já temos a presença do advogado ingênuo, que acha que vai alcançar a justiça a qualquer custo. Todos giram em torno da casa de um contrabandista de bebidas durante a lei seca americana. É neste local que acontece o fato que sustenta todo o romance: um estupro.

Não posso contar mais do que isso para não tirar o prazer da leitura a quem se aventurar a ler este livro. Mas adianto que nem Freud imaginaria a complexidade desses seres humanos retratados aí nem a quantidade de perversões subjacentes a pessoas consideradas normais. Permeando a tudo tem o alcoolismo que afeta a vida de alguns e determina o rumo dos acontecimentos.

Confesso que li este livro em três etapas ansiosas para ver o desfecho da trama. Ao final fiquei com a surpresa do enredo intricado. Nada do que você pensa que vai acontecer de fato acontece, e aí vou cair nos inevitáveis clichês das várias críticas que li sobre o livro. Faulkner desenvolveu a arte do não dizer. Ele esconde mais do que diz. E ainda por cima usa o fluxo de consciência quando julga necessário.

Esses lapsos no romance são o seu segredo máximo. É o que prende o leitor. Sua intenção é mostrar como somos fantoches do destino, das convenções sociais, das pulsões humanas. William Faulkner descreve os seres humanos como eles são, com todos os defeitos e virtudes, sem retoques.

Com isso, ele se equiparou aos grandes mestres da literatura, mas veja bem, ele não conheceu o sucesso com seus outros livros. Apenas Santuário conseguiu vender bem em sua época. Os outros livros, porém, são as meninas dos olhos dos críticos literários, sendo os mais famosos O Som e a Fúria e Absalão, Absalão.

Engraçado é que na minha busca por críticas sobre a obra de Faulkner encontrei na web o blog Livrada! No endereço “Livrada.com.br”;. Foi a crítica mais engraçada que eu já li sobre um autor clássico. O autor do site começa a análise do livro O Som e a Fúria assim: “Já começo dizendo: Não gostei desse livro. E acho que me dou o direito de contradizer os dois milhões de críticos literários que tem por aí afora que dizem que O Som e a Fúria é um clássico, afinal de contas, só a proposta desse blog já entra na contramão da crítica tradicional […]”. E segue detonando o livro, dizendo que o tal fluxo de consciência é lima chatice, uma tortura para os leitores.

Talvez ele tenha um pouco de razão, mas nem sempre um livro é só para divertir. O leitor só deve encarar o desafio de certos livros se tiver com muita vontade de fazer isso. Eu, por exemplo, estou na fase da minha vida que só continuo uma leitura se o livro me der algum tipo de prazer. Se for muito chato eu desisto na hora. Por isso tenho desistido de muitas obras importantes na história da literatura sem um pingo de arrependimento. Às vezes pode acontecer também de um livro ser chato num determinado momento e ser muito interessante em outro. Isso acontece e o contrário também.

Apesar de tudo, alguns livros de Faulkner foram parar no cinema. O Mercador de Almas, do diretor Martin Ritt (1958); A Fúria do Destino, do mesmo diretor (1959); Almas Maculadas, de Douglas Sirk (1958); O Mundo Não Perdoa, de Clarence Brown (1949); Os Rebeldes, de Mark Rydell (1969); Levada à Força, de Stephen Roberts (1933), baseado no livro Santuário e Santuário, de Tony Richardson (1961).

Vejamos como o escritor aparece no Wikipédia: William Cuthbert Faulkner nasceu em New Albany, no Mississipi, em 1897 e morreu em Byhalia em 1962. Ele é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Recebeu o Nobel de Literatura em 1949. Posteriormente, ganhou o National Book Awards em 1951, por Collected Stories e em 1955, pelo romance Uma Fábula. Foi vencedor de dois prêmios Pulitzer, o primeiro em 1955 por Uma Fábula e o segundo em 1962 por Os Desgarrados. Utilizando a técnica do fluxo de consciência, consagrada por James Joyce, Virginia Woolf, Marcel Proust e Thomas Mann, Faulkner narrou a decadência do sul dos EUA, interiorizando-a em seus personagens, a maioria deles vivendo situações desesperadoras no condado imaginário de Yoknapatawpha. Por muitas vezes descreve múltiplos pontos de vista (não raro, simultaneamente) e impõe bruscas mudanças de tempo narrativo, a obra faulkneriana é tida como hermética e desafiadora.

Pois é, mesmo com críticas que enaltecem seu estilo difícil ou mesmo chato, quero ler pelo menos mais um livro dele. Absalão, Absalão é minha aposta maior e pode ser encontrado nos sebos por qualquer R$20,00. Esse é o grande barato de se ler livros. Às vezes a simples leitura de um artigo sobre um livro abre todo um universo de informação, conhecimento e entretenimento.

Quem
Considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX, William Faulkner recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1949, e prêmio Pullitzer em 1955 e 1963 (póstumo). Viveu no Mississipi e trabalhou como roteirista para os estúdios Metro, Fox e Warner

O que
O livro Santuário foi publicado pela primeira vez em 1931, e logo aclamado pelo público e pela crítica. A história descreve a trajetória de Temple Drake rumo à sua degeneração e a luta infrutífera de Horace Benbow por justiça.

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