O mundo se debate

Por Janio de Freitas
FSP

É improvável que, ao fim da Assembleia da ONU, Obama seja o mesmo, tanto faz se mais forte ou mais fraco

Há farta e fértil reserva de novidades internacionais, nelas envolvida a política externa brasileira, a se iniciarem nos próximos dias a partir da Assembleia Geral da ONU, para cujo discurso inaugural a presidente Dilma Rousseff viajaria ontem a Nova York.

Além de sua continuada presença de mais de 60 anos como um dos temas centrais da ONU, o conflito Israel versus palestinos chega ao debate mundial com configuração crítica, inclusive projetando reflexos poderosos no futuro de Barack Obama.

A “Primavera Árabe”, porém, apenas se inaugura, mas já o faz como tema relevante, ao juntar suas tantas incógnitas às provenientes do Irã e sua imprecisa nuclearização -neste ponto, encontra-se uma novidade brasileira.

A cautela do ministro Antonio Patriota, em contraste com a afoiteza desinibida do antecessor Celso Amorim, explica sua afirmação de que “as linhas básicas permanecem as mesmas”, ao responder a Fernando Rodrigues (para a parceria Folha-UOL) sobre a política externa brasileira, em particular a relacionada ao Irã.

“O reconhecimento de que existe um problema de desconfiança”, disse sobre sua referência anterior a “temores com algum fundamento” do programa iraniano, “é um reconhecimento que sempre existiu da parte do Brasil”.

Lula, sobretudo, e também Amorim foram sempre afirmativos de sua certeza dos fins apenas pacíficos e econômicos da aplicação iraniana a um projeto nuclear. As conservadas “linhas básicas” devem ser entendidas, portanto, como alicerces que permanecem, mas o que se ergue sobre eles é diferente.

Os primeiros pilares dessa base, é bom lembrar, completam 50 anos neste 2011, como parte do cinquentenário do governo e renúncia de Jânio Quadros. A “Política Externa Independente” foi a mais importante (e corajosa) inovação trazida por Jânio. Hoje é inimaginável o que significava e o que exigia em um país geograficamente situado nos domínios dos Estados Unidos na Guerra Fria. Aquela política motivou os primórdios golpistas americanos e brasileiros concluídos em 1964, quando o Brasil voltou a vestir avental e touca nas dependências de serviço do Departamento de Estado.

Até hoje não se sabe da exatidão ou equívoco das convicções de Lula e Amorim. Sabe-se que, em uma ou outra hipótese, eram precipitadas: o Brasil não dispunha de comprovação da finalidade apenas doméstica da nuclearização iraniana, como atestam a desconfiança agora admitida e sua única razão possível.

Se combinada com a precaução no caso da Líbia, em vez do esperável engajamento do governo Lula em defesa de Gaddafi contra o belicismo voraz de franceses e ingleses, são desnecessários outros exemplos para constatar que a construção sobre os antigos alicerces tem diferenças importantes.

Não na estratégia, ao que tudo sugere, ao contrário do que se passa com Obama e seu governo. Depois de tanto reiterar que a solução para o conflito Israel versus palestinos são dois Estados, Obama avisa: usará o poder de veto dos Estados Unidos contra o reconhecimento do Estado palestino, se reivindicado agora na ONU, como promete a Autoridade Palestina. É a campanha reeleitoral em ação.

Obama inverte-se para não contrariar o Aipec, o fortíssimo lobby israelense nos Estados Unidos, com reconhecida capacidade de direcionar até decisões da Câmara de Representantes e do Senado, por seu poder econômico e influência nos meios de opinião e propaganda.

Em contrapartida, no entanto, a tendência é que a imagem de Obama sofra desgaste não só em parte do seu eleitorado, como no já abalado prestígio nos países numerosos que têm apoiado a ideia dos dois Estados.

É improvável que, ao fim da Assembleia, Obama seja o mesmo de hoje, tanto faz se mais forte ou mais fraco.

Enfim, uma Assembleia da ONU que volta à perspectiva de produzir alterações na disposição política do mundo.

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