O nosso modelo de artista

Por Laurence Bittencourt

Quem já leu alguma vez Edgar Allan Poe não esquece jamais. É como fazer a leitura de Dostoievski. Depois de “Noites brancas”, a terceira novela escrita pelo autor russo, não se para mais. Não que “Gente pobre” (a primeira novela) seja fraca, ao contrário, talvez em profundidade e acuidade psicológica seja mais bem acabada do que “Noites brancas” e só perca mesmo para “O duplo” seu segundo romance. Na verdade, é possível dizer que Dostoievski já estreou marcando um gol inesquecível com “Gente pobre”. A idéia de falar de “pessoas humildes” (inaugurando o chamado realismo em literatura) através de cartas foi uma pérola, um achado. Já na sua estréia, com vinte e quatro anos Dostoievski supera Gógol e aponta o caminho do que estaria porvir e de como viria a ser aclamado como um autor a altura de Tolstoi, quiçá, superior.

Em suas correspondências, partes delas recentemente publicadas, ficamos sabendo que Dostoievski já ganhava pelos romances publicados, incluindo o primeiro deles “Noites brancas”. O trabalho do escritor (intelectual) é um trabalho como outro qualquer (até mais do que muitos…quem já tentou escrever romance sabe da dificuldade) e merece ser bem pago. Fico pensando aqui no nosso caso onde o sujeito lança um livro, e paga do próprio bolso para ter o “nome” na praça. Alguns entram para academia. Somos anticapitalistas. Entre nós, artista bom, ou escritor bom é artista e escritor pobre, esquecido e que morre na sarjeta. Nossa vocação masoquista. Quanto menos o artista brilhar e fizer sucesso e morrer pobre, melhor. É essa a nossa sina, e incrivelmente é a que queremos para os nossos “artistas”.

Agora vejam: Dostoievski escrevendo numa Rússia ruralista atrasada, miserável ganhou a vida como escritor. Ao longo de suas cartas para o irmão, amigos, parentes, vamos tendo contato e sabendo dos seus “negócios”. Nenhum problema nisso. O problema é que Dostoievski era um gastador compulsivo e um jogador inveterado. Era um traço do seu caráter. Ganhava e perdia tudo. Mas enfim: ganhou a vida escrevendo e vivendo do oficio. Antes de ser publicado o seu primeiro romance ele disse numa carta de 1844 endereçado ao irmão o seguinte: “Estou imensamente satisfeito com o meu romance – radiante de alegria. Pois com ele farei algum dinheiro”. Aqui no Brasil, quem diria isso e quem consegue? É pecado. E logo depois, em outra carta ele, Dostoievski, esclarece o irmão: “Veja Puchkin e Gogol. Ambos escreveram pouco, mas ambos mereceram reconhecimento nacional. Gogol hoje ganha mil rublos por página impressa”. No entanto, o autor de “Crime e castigo” ganhará bem mais e isso, como falei, numa Rússia atrasada, rural e miserável. Entre nós, ter prestígio e viver do oficio é se “entregar ao mercado”. Uma bobagem. Claro, preferimos ficar batendo nas portas do “Estado” catando migalhas, esperando dos “políticos”. Sabemos em que patamar estamos com essa prática. É bom pensar, é bom pensar.

Agora voltando a Poe. Enquanto vida talvez seja o modelo imaginado para nossos artistas: morreu na sarjeta e miseravelmente. O lugar “sagrado e idealizado dos nossos escritores”. No entanto, hoje o seu estilo faz a fortuna (não só critica) para muitos escritores que ganham bilhões (de dólares) porque vendem. Olhem bem. Ok, na época de Poe eram outros os tempos, é possível dizer. E era mesmo nos Estados Unidos. Mas há algum mal em se ganhar dinheiro, seria pecado?

O certo é que apesar de genial com a pena na mão, morreu miseravelmente. Talvez fosse inevitável. Agora o interessante é perceber que Poe não se tornou propriedade dos críticos e sim dos próprios escritores. Mas há outro fator em Poe (além do gênio), é que apesar de morrer cedo, com 40 anos apenas, teve uma produção intensa e imensa. Quem sabe esse último dado seja um caminho para os nossos artistas.

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