O nosso tempo visto por Freud

Por Laurence Bittencourt

Foi do confronto entre instintos e civilização que Freud percebeu em grande medida as causas da loucura e dos distúrbios ditos mentais. Estou reduzindo as causas porque há outras explicações como, por exemplo, da medicina através da psiquiatria e da neurologia sem falar da psicologia cognitivo-comportamental. A explicação de Freud será mediada pela via da psicanálise cujo criador foi ele mesmo quando começou a estudar a histéria e sua sintomatologia.

O incrível é que Marx navegando em outro pólo irá perceber no trabalho humano uma das condições que coloca este mesmo ser no patamar do humano ainda que em choque por divisões de classe. Já Freud irá postular (pelo menos inicialmente) que será do confronto das exigências do trabalho (mundo adulto) por um lado e as pulsões (infantis) referentes aos sentidos de outro, que o ser humano poderá sucumbir. Essa idéia de Freud exposta em ensaios como “A moral sexual civilizada” irá também aparecer em um autor como Michael Foucault em especial em livros como “História da Loucura” e “O Nascimento da Clinica”. Neles, Foucault vai defender a idéia que o confinamento dos loucos em hospitais a partir de Pinel, muito mais do que obedecer a critérios médicos, obedecerá a exigências jurídico, trabalhista e moral. O que antes fora usado para o confinamento de leprosos e outros males (tidos como castigos divinos dependendo da Era), a partir do século XVIII ocorrerá com o chamado louco.

È interessante notar que para Freud em todas as eras a civilização foi erguida à custa da repressão dos instintos e em grande medida dos instintos sexuais. A repressão ou o recalque instintivo, para Freud não foi uma prerrogativa burguesa. Ao contrário. E será desse conflito que Freud postulará a sintomatologia psíquica mudando os rumos da visão puramente orgânica (médica, se quiserem) das afecções mentais.

Ao longo de sua obra Freud irá desenvolver uma noção cara a ele e a sua teoria, de que biologicamente sempre haverá duas classes de instintos em oposição permanente. Inicialmente os instintos sexuais em oposição aos instintos do eu e depois (a segunda tópica) com a oposição se dando entre instintos de vida e instintos de morte. Para Freud à medida que a civilização avança, a repressão sobre os instintos aumenta. Em tese e resumidamente essa seria a teoria psico-sociológica freudiana.

Mas há desdobramentos nessa mesma teoria. Hoje, talvez seja fácil perceber que o fanatismo anti-sexual que teve seu crescendo a partir da Idade Média com ascensão da religião católica (idem com a igreja protestante) e irá se consolidar no mundo moderno com a burguesia afetará a subjetividade humana de tal forma a ponto da modernidade não reconhecer como uma das causas da “loucura” uma etiologia desse conflito. Como disse, foi Freud que percebeu tal origem terminando por propor uma sociedade muito mais livre se transformando por isso mesmo em um dos grandes (senão o maior) revolucionários do século XX. Como percebeu Elizabeth Roudinesco a psicanálise irá propiciar em muito o liberalismo feminino, com a inserção da mulher no chamado mercado de trabalho, uma postulação do gênero.

Com a pós modernidade e a sociedade depressiva que se ergueu, o pensamento freudiano entrará em declínio e irá ser submetido a uma gama de criticas tão fanáticas quanto as que diziam pertencer ao criador da psicanálise. Muito dessas críticas a Freud continuam escondendo o mesmo fanatismo anti-sexual causador dos sintomas psíquicos que se ergueram a partir da Idade Média ou através das noções morais judaico-cristão.

E Freud foi um humanista exemplar formado na grande tradição alemã. Apesar dos inúmeros detratores que teve ao longo da vida, a começar pelo brilhante Karl Popper, o próprio Moussafieff Masson que traduziu as famosas cartas de Freud para Wilhelm Fliess, Henri Korn neurobiologista francês entre outros, o pai da psicanálise encontrou sólidos defensores de sua teoria. Hoje é impossível pensarmos o mundo contemporâneo sem as noções erguidas pela psicanálise.

Na atualidade uma das grandes defensoras do freudismo vem sendo a historiadora e psicanalista francesa, Elizabeth Roudinesco que corajosamente em livros como “Por que a psicanálise?” vem tentando manter de pé a chama acessa das idéias de Freud. Roudinesco em linguagem simples busca cativar e mostrar a importância de Freud para o nosso tempo, independente da concordância ou não com suas idéias. Irá fazer ver que Freud e seu pensamento são de domínio público e que suas teorias afetaram os campos da arte, sociologia, da história, da lingüística, da antropologia e da própria psicologia. Isso não é pouco. Como disse muito bem Roudinesco foi graças a Freud e a psicanálise “que o homem deixou de ficar condenado ao inferno de suas paixões”. Sem dúvida, um grande legado, ainda que seja essa uma das leituras possíveis com Freud.

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