O novo sorriso de Chico

Chico Buarque faz show em Natal no mês de maio

(foto: divulgação)

É uma injustiça tremenda buscar transformar Chico Buarque de Hollanda, a cada novo lançamento de um CD (e show correspondente) ou livro de sua autoria, em novo representante maior da mediocridade artística brasileira. Injustiça e crueldade desmedidas é o que se faz nessas situações. Talvez se explique por exacerbada inveja ou por outros motivos de natureza obscura.

Os críticos que agem assim, invariavelmente o fazem movidos por uma análise menor, sem generosidade e sem verificar as nuances específicas da obra nascida, considerada – e deveria sempre ser vista por este ângulo – em si mesma. Fazem, talvez, na pressa inútil de destronar o célebre artista brasileiro. Ademais, estabelecem quase sempre uma comparação pra lá de óbvia e nem sempre adequada com a obra anterior de Chico (ou até mesmo, como preferem alguns, com a obra de Caetano Veloso. E não me perguntem o porquê). E ainda investem na “má voz” de Chico e outras besteiritas argumentativas mais, querendo desconhecer que um artista popular e criativo como Chico não se constrói somente com cordas vocais (o próprio Chico tem consciência disso e nunca se pretendeu um Caruso da vida).

A obra é a que o produtivo compositor conseguiu imortalizar. Ora, Chico Buarque é múltiplo e, sendo um artista que possui uma obra imensa, gigantesca mesmo – com pelo menos 44 discos trazidos à apreciação do público, além de mais tantos outros livros –  não pode ficar por aí se repetindo, exibindo sempre a mesma fórmula.

Eu penso que Chico se renovou, sim. E penso assim, diferentemente dos que afirmam o contrário (os seus detratores quase que gratuitos, quase sempre montados no ombro do gênio). E digo mais: Chico não tem obrigação nenhuma (nem ninguém tem) de se manter nessa condição estereotipada de “gênio da raça”, que certamente nunca desejou.

Ora bolas, será que um artista não pode simplesmente ser competente, sofisticado, criativo e agradar? Tem que exibir sempre o lampejo da genialidade que assombra o mundo? Logo esse mundo que nem sempre é tão genial assim?!

Digo que gostei, sim, do novo CD de Chico, gostei do show (ultra-sofisticado) como gostei de seu último livro. Gosto especialmente do novo sorriso do cantor e compositor. Falo de um sorriso que transparece e que percebo num Chico leve, solto, feliz com um novo amor que encontrou nessa etapa de maturidade pessoal (“Hoje afinal conheci o amor/E era o amor uma obscura trama”). A jovem cantora que tem cativado nitidamente o coração do músico que se aproxima dos 70 anos talvez tenha uma responsabilidade peculiar nessa nova história. E o nosso Chico tem direito de ser feliz e continuar fazendo os seus admiradores felizes. Fiquemos, também, felizes por Chico e sua música!

Por sinal, para os seus críticos crudelíssimos, valem mais esses seguintes versos da canção “Querido Diário”, que abre o seu úlitmo CD “Chico” (que deu nome ao show visto em Natal),  lançado pela gravadora Biscoito Fino: “Hoje o inimigo veio me espreitar/Armou tocaia lá na curva do rio/Trouxe um porrete a mó de me quebrar/Mas eu não quebro porque sou macio”.

Deixemos, então, que Chico sorria o seu mais novo sorriso.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 14 comentários para esta postagem
  1. Jose Dias Junior 29 de maio de 2012 8:56

    Assino em Baixo.

    Zé Dias

  2. Anchieta Rolim 29 de maio de 2012 9:54

    Sua voz condiz com sua maneira de cantar.
    É autêntico e de estilo único.
    Tem moral para compor o que queira.
    Faz parte de um pequeno grupo de gênios da música nacional e internacional.
    Não precisa provar mais nada para ninguém.

    Assim é Chico Buarque de Holanda. Em minha opinião.

  3. Anchieta Rolim 29 de maio de 2012 9:57

    Lívio, Parabéns pelo texto. Tá maaaassa!!!

  4. Lívio Oliveira 29 de maio de 2012 11:05

    Zé, obrigado pelo comentário. Ainda mais, sendo sabedor de que você é um expert e um veterano nessa área da MPB.

    Anchieta, você é um parceiro massa!

  5. Antonio Capistrano 29 de maio de 2012 15:45

    Amigo, muito bom o seu texto sobre Chico. Ele continua o grande Chico, aquele que marcou a minha geração, que cantou as nossas angústias e alegrias. Chico, o múltiplo artista – poeta, compositor, cantor, escritor. Chico é uma das grandes expressões da nossa cultura, reconhecido com tal em diversas partes do mundo. Parabéns, continue com esse importante espaço.

  6. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 29 de maio de 2012 16:05

    Obrigado, amigo Capistrano. Vou contando com a paciência do nosso querido editor, Tácito Costa.

  7. Rubens Azevedo 30 de maio de 2012 7:30

    Amigo Lívio, bom dia sempre! Sua crônica diz tudo o que penso desse imenso cantor (sim, por que não? Talvez pudéssemos classificá-lo como intérprete – o melhor quando se trata de nos mostrar a sua bela obra musical); compositor (dos melhores em todos os tempos); escritor (singular!) e tudo o mais de bom que já produziu e, tenho certeza, ainda produzirá. Quanto aos críticos mordazes (e até mesmo impiedosos) creio que se deve ao seu posicionamento político, prerrogativa que lhe é inalienável e que, afinal, não se deve nem se pode fazer ilações com a sua espetacular, monumental obra multifacetada.
    Amigo, parabéns pela sua transparência e coerência.
    Fraternal abraço do seu admirador, Rubens

  8. Babal Galvao 30 de maio de 2012 8:37

    Continuo achando que Chico é o maior compositor em língua portuguesa, pela qualidade das letras e melodias. Parabéns parceiro pelo texto. Grande abraço…

  9. Marcos Silva
    Marcos Silva 30 de maio de 2012 9:49

    O comentário de Babal é sintomático: melhor compositor da língua. Chico é grande letrista e bom autor de melodias. Sempre hesito em falar sobre melhor. Destaco, dentre os vivos, Edu Lobo. Infelizmente, Baden e Tom já se foram. Outro vivo excepcional: Tom Zé

  10. Rizolete Fernandes 30 de maio de 2012 10:39

    Poeta Amigo,

    Seu texto bem feito (ao contrário de outros que grassam por aí ) já seria, em si, motivo de leitura, quanto mais o teor que o move. É aquela velha estória: não se perdoa o sucesso de outrem. Mas Chico, o bom e velho Chico, passa ao largo da crítica mesquinha e vai… Pena que, por motivos orçamentários, não pude ir ver o espetáculo.
    Já aos concertos da Escola de Música, tenho comparecido. Quinta passada, senti sua ausência (e a de Nelson) no belo recital da OSRN com a presença de ítalo Babini, virtuose do violoncelo, em atuação no mundo, saído diretamente de Natal.
    Abraço, Rizolete

  11. Lívio Oliveira 30 de maio de 2012 11:31

    Caríssimo Rubens, uma honra tê-lo por aqui. Esse aspecto político que você menciona tem seu peso, sim. Abraço.
    ___

    Babal, parceiro e amigo, saudades de nossos encontros baseados na boa música. Vamos pensar noutros projetos? Abraço forte.

    ___

    Marcos, obrigado pelo comentário. Como sempre, muito enriquecedor. Saudações.

    ___

    Rizolete, amiga, não pude ver Babini porque estava no show de Ivan Lins. Senti muito a perda dessa oportunidade única. Mas, teremos outras. Abração.

  12. Jota Mombaça 30 de maio de 2012 16:19

    *Escrita aos ímpares [Nina Rizzi]

    Desce. Desce mais ainda.

    Aqui ou em Tsárskoie Seló ou East Coker
    É sempre escuro depois da zero hora
    Escuridão de chão e muros e pedras.
    (Não conhece ainda a escuridão das águas e o vento
    E nunca existe o Bom-Selvagem se um dia pisou e viu
    O chão, muros e pedras)

    Desce. Desce mais ainda.

    O frio já invém e cada pedaço de lugar
    É comido pelo tempo, triste lugar.
    Pedra ontem, pedra hoje e nunca
    A mesma diante do olhar variegado e tua descida.

    Desce. Desce mais ainda.

    Que importa se o agasalho mal te cobre
    E todo olhar variegado é igual?
    Passam os seres com suas desumanidades e doenças
    Tantas, como as tuas. O normal é que os desaproxima
    E faz bochicho, chacota, ou nem isso e nem nada
    Como a lua nova na calada madrugada

    Desce. Desce mais ainda.

    Até que não haja um só dente na escuridão.
    Reles, vil, faz-te de cada cimento e aço
    Dos lugares que não o-são
    Transubstancia-te de tudo o que fizeram
    A Grande Civilização e Cultura, te alastra
    De todo o Tempo e a palavra
    Costume, hoje é mais um dia.

    Desce. Desce mais ainda.

    Ácido, pérfido, até que descalce
    Todo milagre – o falar, o ranger dos ossos
    Qualquer lágrima como lâmina fria
    O calor de uma e outra mão.

    Desce. Desce mais ainda.

    Conversa com a Treva, os desclassificados das calçadas
    Aquele que agoniza numa casa em chamas, Escória e Só.
    Conte aos amontoados de pele e ossos
    E a carne-necrose dos segredos menores –
    O ínfimo, o invisível, esses séculos de História, Pó.

    Desce. Desce mais ainda.

    Com a lata, as cinzas, o isqueiro e a colher
    Os lábios queimados e o sangue exposto
    Sê mínimo, agudo, cidade-baixa.

    Então te levanta.

    É Homem.
    De frio e escuro e solidão. Abissal.
    E pode ser Grande.*

  13. Inah 31 de maio de 2012 5:37

    Um texto sensível, inteligente e apurado como este só poderia ser escrito pela sua alma poética, concordo com você, Chico já é e não adianta ninguém contestá-lo.

  14. Lívio Oliveira 31 de maio de 2012 13:19

    Obrigado, caríssima Inah.

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