O novo tempo de Carito no audiovisual; confira seus últimos 2 docs

Carito, o poeta elétrico, o irmão de Mário Ivo, tem declarado independência de outros rótulos que não a de fazedor de cinema. Sua produção é a mais regular entre outros profissionais do audiovisual. E com a bagagem de poeta e músico, seus filmes adquirem personalidade. Música, imagem e poesia se complementam em trabalhos distintos, sejam publicitários ou artísticos – ou ambos. Abaixo, Carito comenta o processo de feitura de seu mais novo rebento: ‘Tempo de Encontro’.

O DESAFIO
Quando Diana Fontes me convidou para fazer o registro audiovisual dos dois Encontros de Dança que aconteceram esse ano em Natal – O Encontro Internacional que aconteceu em abril e maio, e o Nacional que aconteceu em agosto – eu pensei numa proposta e um desafio. Propus a Diana que transcendêssemos ao caráter institucional e pontual de simples registros audiovisuais de eventos e transformássemos essa oportunidade em dois filmes. Diana topou e um novo desafio se instalou: como eu fazer dois filmes sobre dança tão próximos um do outro que fossem diferentes?

RECORTES
Eu não queria que um fosse a continuação do outro, embora já soubesse que iriam ser complementares. Em nenhum momento tive a pretensão de fazer algo que representasse o todo da dança do RN. Os dois filmes são apenas dois recortes. Comungo da ideia de quem faz doc através de recortes para que o filme ganhe força naquele recorte proposto.

ARTE E MOVIMENTO
Para o primeiro doc, procurei fazer uma imersão no universo dança, antes mesmo do Encontro acontecer, indo a ensaios, conversando com os bailarinos, produtores, etc., o que me deu a ideia de fazer esse primeiro doc a partir de uma pergunta: O que move a dança? Usei o Encontro Internacional como pano de fundo e aproveitei os participantes para me ajudar a desvendar um pouco dessa aventura da arte do movimento. Provoquei e ganhei de volta reflexões e novos questionamentos. Dancei junto na também arte do movimento: o cinema, que é imagem em movimento. Tudo em casa então. E com todo esse movimento, minha intenção foi trazer para a linguagem cinematográfica a linguagem da dança, com o foco na dança contemporânea, tentando também fazer uma sutil homenagem ao cenário da dança potiguar de ontem e de hoje.

ROAD MOVIE
Para o segundo doc, Diana queria um documento sobre os Encontros de Dança, com foco na sexta edição do Encontro Nacional. Tive a ideia de encomendar à própria Diana uma carta para a sua filha. Diana tinha me contado que sua filha Joana (que hoje mora em Macaé), junto com Danielle Flor, Bianca Dore e Giovanna Araújo, tinham começado toda essa trajetória dos Encontros junto com ela. Então o doc se transformaria nessa carta, a partir de algo pessoal, mas transferível, e humanizaria mais o filme. E o Encontro agora ganhou a estrada, indo para o interior. Então o espírito viajante apareceu logo como conceito. Lembrei muito do filme “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” de Marcelo Gomes e Karim. Quem assistiu deve entender a referência. O espírito de um road movie que se movimenta através de uma carta.

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Acredito que uma das funções de um diretor é a escolha das parcerias. Dentro do baixo orçamento e do chamado cinema de guerrilha, precisei de uma equipe pra lá de enxuta. E eu tinha que saber escolher muito bem meus parceiros. eli Santos fez a edição do primeiro, no qual eu quis uma montagem mais rápida, muito fragmentada e picotada, onde ele somou com sua assinatura conforme o esperado. Fiz um roteiro muito detalhado, mas lhe dei liberdade para somar. Sou muito fã de Eli, e ele tem uma dinâmica muito especial na edição. Com essa dinâmica, eu quis fazer um filme de super heróis – esses bailarinos maravilhosos e suas danças voadoras, com incríveis histórias de vida e arte. Pura poesia!

SLOW MOTION
No segundo filme, pensei na palavra Encontro permeando toda a narrativa do filme. Fiz um roteiro básico, provoquei alguns bailarinos, e pedi a Levi Herrera uma edição dentro do espírito de outro trabalho que já tínhamos feito juntos, com arrojo, charme e também poesia. A poética do slow motion, da busca da delicadeza, numa edição muito cirúrgica onde a precisão do olho e a habilidade do editor são fundamentais e fazem toda a diferença. Isso tudo já levado pela trilha sonora de Toni Gregório, ponto de partida para a atmosfera intimista do movimento do filme.

SONORA POESIA
A trilha sonora original foi algo que não abri mão e meu parceiro Toni Gregório deu conta dos dois filmes, entendendo as particularidades de cada doc. Converso com Toni o tempo todo durante o processo de manufatura das trilhas, e posso dizer que além de instigante é muito divertido. Mandamos referências um para o outro, e muitas vezes tentamos dar nomes ao que queremos imprimir como, por exemplo, “pauleira industrial” (caso da música para os créditos no primeiro doc). No segundo doc uma cena do filme do Led Zeppelin, “The Songs Remains The Same”, foi uma das referências que mandei pra Toni se inspirar – a balada “Bron Y Aur”, na cena onde os caras do Led estão indo no carro para o concerto.

É importante ressaltar que Diana Fontes me deu total liberdade e é um privilégio trabalhar assim.

Falei muito aqui, mas quem fala mesmo são os filmes, e cada um entende do seu jeito. Mais do que entender, acho que o principal é sentir. Espero que eles toquem a alma e o coração de vocês, na dança dos sentidos.

Assista aqui “O Que Move a Dança”:

Assista aqui “Tempo de Encontros”:

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Tahíse Medeiros 24 de outubro de 2014 16:21

    Parabéns Carito, lindo e sensível trabalho sobre a construção do dançarino!!!!

  2. Pingback: Encontros da dança contemporânea em Natal viram belos documentários que você precisa assistir

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