O oco do vazio

Dizia-se, no sertão de falas vastas, que alguém de fora chegado, de onde não se sabia, vinha do oco do mundo.

O sertão é um feitor de falas. Desde a fala restrita, seca, pouco sonora de Graciliano Ramos até o som construtor de frases que espantam, na linguagem enviesadamente bela de Guimarães Rosa.

Mas nem o sertão consegue disputar com o poder público o enviesado da linguagem. A diferença é que nos grotões do povo entorta-se a linguagem para alcançar novas formas de comunicação. E há uma refeitura semântica.

Na comunicação do poder a linguagem sofre duas agressões brutais. A primeira é de ignorância mesmo. Analfabetismo oficial. A outra é de malandragem. Uso da linguagem para mentir, distorcer e vender otimismo.

A mentira na literatura não é mentira, é ficção. A ficção na política não é ficção, é mentira. E o poder público mente com tal suavidade que parece um batedor da verdade. Essas verdades “absolutas” que abastecem as crenças religiosas.

Cada um com sua mentira pronta para levar a verdade ao forno. Tostá-la e vendê-la, crua como se cozida fosse. E o povo, apressado, come cru.

O Brasil tem jeito? Sim. O principal jeito do Brasil é reinventar o jeito. Foi sempre assim. No momento atual a saída é um freio de arrumação. A coragem de refazer o que está desfeito. Uma Constituinte Originária para a refeitura de uma nova ordem institucional. Com candidaturas avulsas e limitações à picaretagem partidária.

Com a proibição da candidatura dos constituintes nas eleições seguintes. Só aí já se retira da Assembleia Constituinte uma soma considerável de picaretas. Picaretagem partidária, evangélica ou coorporativa.

A ordem institucional decorrente de 1988 exauriu-se. Só não vê isso quem é cego político. Ou beneficiário de castas privilegiadas.

O país mergulha cada vez mais profundamente no vazio institucional. A casca se desmonta, por ausência de miolo que justifique a própria casca.

A “federação” nunca foi tão desfederada quanto agora. Vejam as realidades de dois entes federados vizinhos. Paraíba e Rio Grande do Norte. A comparação deixa o papa jerimum papando casca de estaca, feito bode faminto.

Quando o governador eleito Robinson Faria me convocou para uma reunião, conversamos sobre muita coisa. A motivação era o discurso de posse.

Ao ouvir o relato das suas intenções, comentei: “Olha, Robinson, se você fizer dez por cento do que está anunciando, será um grande governo”. Um seu auxiliar, que foi para a direção do DETRAN, repreendeu-me: “Esse é o mal. As pessoas se satisfazem com dez por cento. Vamos fazer tudo”.

Cadê os dez por cento daquele discurso? O auxiliar “Beleza” durou pouco no cargo. O prometido respeito ao servidor virou pó. Sem garantia de salário em dia, não há serviço digno.

E na indignidade qualquer discurso será o oco do vazio. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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