O olho mais azul

Este livro de Toni Morrison (primeira mulher negra a ganhar o Nobel de Literatura), de 1970, é imensamente profundo, ao mesmo tempo em que contém uma narrativa fluida, composta a partir de várias perspectivas.

Diria que é uma obra sobre as consequências últimas da marginalização humana, que leva uma menina de pele muito preta, Pecola, a ocupar um espaço de não existência. Esse “não ser”, de acordo com a sua imaginação, só seria remediado a partir do momento em que passasse a ter olhos azuis.

O ideal de beleza, branquíssimo e capaz de nos separar entre virtuosos e desvirtuosos, devastaria qualquer senso de pertencimento ao mundo da parte mais vulnerável dele: uma menina negra.

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Creio que a construção de “O olho mais azul” acerta em trazer olhares externos à própria Pecola, personagem que transita entre vários espaços. Esses movimentos da menina entre diferentes ambientes nos permitem, seja sutil, seja explicitamente, absorver o porquê de Pecola sofrer com a sua aparência e desejar ocupar um corpo branco.

Visão infantil dos episódios

Penso que a trama seja essencialmente uma composição dialética entre o olhar externo das pessoas sobre Pecola e, posteriormente, o que esse olhar externo causa nos sentimentos alimentados por ela sobre si mesma.

Elemento interessantíssimo para mim, além da teia narrativa relativa ao pai e à mãe da menina, é o ponto de vista infantil sobre os episódios tecidos, uma vez que Claudia, uma personagem ainda criança e amiga da protagonista, manifesta suas percepções sobre o seu mundo, sobre Pecola e, paulatinamente, começa a despertar para o racismo pungente da sociedade. Essa quebra da inocência gera um susto, um espanto em Claudia e, ao lado dela, no próprio leitor.

O olho mais azul é um livro doloroso e, infelizmente, 50 anos após o seu lançamento, extremamente atual.

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