O Opus Fin- Finnicius Revém do James Joyce

Página do Livro de Kells

“ Eu odeio as mulheres que não sabem nada” JJ

FW, Finnicius Revém na feliz tradução de Haroldo de Campos mantida pelo tradutor brasileiro Donaldo Schuler, que a traduziu integralmente e foi editada numa edição primorosa pela editora Ateliê em cinco volumes. Romance riocorrente concluído em 1939 por Joyce após dezessete anos de gestação e experimentação quando foi utilizado mais de sessenta idiomas. Feito de longas palavras “soundsenses” que devem ser lidas em voz alta e calembours ( trocadilhos ) . Enquanto o Ulisses é um livro diurno, o Finnegans Wake é um romance da noite e dos sonhos.

Nesse romance Joyce utiliza a técnica labiríntica do celebre Livro de Kells (em inglês : Book of Kells; em irlandês: Leabhar Cheanannais), também conhecido como Grande Evangeliário de São Columba, de Sir Edwward O´Sullivan. Um manuscrito Ilustrado com belas iluminuras feito por monges celtas em torno do 800 da nossa era.

Na exposição montada na Biblioteca Zila Mamede para comemorar o 25º Bloomsday pode-se apreciar uma edição com reproduções desses manuscritos com belos ornamentos e diversas reproduções e posters.

O FW é um livro de difícil acesso e poucos conseguem vencer esse imenso cipoal de signos, sons, palavras-valises, trocadilhos, paródia, citações e muita erudição. Joyce é um grande leitor de Giordano Bruno e seus mundos infinitos, do Vico e sua história cíclica, do Alcorão, do Livro dos Mortos, da Cabala, do Livro de Kells, etc, etc.

É um livro que pretende traduzir o mundo e conter todos os ensinamentos. Para o seu biografo S. L. Goldberg o livro é um malogro literário artístico e não foram poucos críticos que o execraram. Para penetrar nesse imenso labirinto é preciso ler a sua exegese. Um dos livros que se encaixam nessa categoria é o Skeleton Key to Finnegans Wake ( NY 1944, Londres 1947 ) escrito por Joseph Campbell e Henry Morton Robinson. Escreve Campbell e Robinson, na tradução e citação de Dirce Waltrick:

Além de ser um sonho confessional , Finnegans Wake é também uma Fonte de Mito. Mitos, como sonhos, são um produto da mente inconsciente (…). Finnegans Wake é o primeiro exemplo literário da utilização do muito numa escala universal. Outros escritores – Dante, Bunyan, Goethe – empregaram simbolismo mitológico, mas suas imagens eram traçadas a partir do receptáculo do Ocidente. Finnegans Wake penetrou no oceano universal.
Um capítulo que resume o opus joyciano, um dos mais célebres e divulgados do FW é o “Anna Lívia Plurabelle, ALP” ( Capítulo VIII ). Uma tradução desse capítulo acompanhado de uma introdução e estudo pode ser lido no livro da professora Diece Waltrick do Amarante; para ler Finnegans Wake de James Joyce” ( Iluminuras 2009). Esse capítulo também foi traduzido pelos irmão Campos e reproduzido na tradução brasileira do Castelo de Axel de Edmundo Wilson.
Enquanto o Ulisses é um livro diurno e narra a peregrinação do Sr Flores durante 18h horas do dia 16 de junho, o Finnegans Wake é um livro da noite, dos sonhos e subconsciente ]que narra a morte e ressurreição do herói. A história do morto que ressuscita é recorrente na literatura e pode ser encontrada em Apuleio, Joyce, Jorge Amado e Ariano Suassuna.

Finnegans é um pedreiro que morre e ressuscita reencarnado na pele de um taberneiro, após ter sido borrifado por uma poção mágica de uísque. Humphrey Chimpden Earwicker mais conhecido pelas iniciais H. C. E. , que ás vezes é traduzida como Here Comes Everybody é o herói Mr. Todos Nós, ou Sr. Todos Nós de Finnicius Revém e percorre o ciclo viquiano do Fim Again Fim ( wake, acordar depois do Fin, Fim ). Fragmentos do FW foram traduzidos pioneiramente no Brasil pelos irmãos Campos em “Panaroma do Finnegans Wake”
( 1962). Uma tradução elogiada pela critica especializada que proporcionou pela prima volta o contato com essa obra inclassificável.
Ana Lívia Plurabelle é a esposa de um homem culpado e caluniado, Sr Todos Nós HCE. Anna Lívia decide lavar a roupa suja do marido para que ele ressuscite de consciência limpa. Mas ALP transforma-se no rio que absorverá nossas máculas e que depois desaguará no mar. Para alguns críticos Anna é uma alegoria da história. Duas lavadeiras, sentadas em margens opostas, conversam entre si, enquanto lavam a roupa suja. Falam exatamente de ALP e do Sr. Todos Nós, o H. C. E. A medida que o rio flui a história da humanidade deságua no mar e tudo recomeça num ciclo de Vico ( ref. Giambattista Vico in “A Ciência Nova”)

Conversa das lavadeiras:

Olha a camisa dele ! Olha que suja ela está ! Ele deixou em mim toda a minh ´agua escura … Sei de cor os lugares que ele gosta de manchar, sujeito suujo (tradução de Dirce em obra citada).

À medida que o rio Liffey flui (rio Heraclitiano como metáfora da mulher) as margens se afastam e as lavadeiras não mais podem se ouvir. Por isso gritam uma à outra palavra em qualquer língua, em todas as línguas. É o ruído branco da ciência moderna e da física não linear, a junção de todos os ruídos e cores transformadas na cor branca ou no arcoirissonico joyciano. As lavadeiras já foram associadas como as bruxas de Macbeth, ou com os coveiros de Hamlet. Joyce é um amante da literatura de Shakespeare e toda a sua obra é permeada pelo bardo inglês.

As lavadeiras são mumificadas em Shaun ( Pedra ) e Shem ( Árvore ). Elas representam a dualidade de todo o ser humano, ou a dualidade indissociável da onda-partícula. As arvores e a pedras são recorrentes no Finnegans Wake e carregadas de simbolismo, podendo significar entre outras coisas a vida e a morte. Joyce gostaria de ter criado uma língua que fosse a junção de todas as línguas e que todos pudessem decifrar… um dialeto da humanidade. Sua ultima obra é repleta de enigmas instigantes que dialogam com a literatura universal e continua a desafiar a nossa compreensão. Ele não nos enganou quando disse que escreveu uma obra para ser discutida nos próximos trezentos anos.
Dez anos antes de ser publicado o Finnegans Wake ( 1939 ) nasceu o físico americano Murray Gell-Mann, ganhador do premio Nobel de Física pela descoberta do quark, partícula fundamental do átomo. O termo quark foi emprestado do FW e a física assim como toda ciência e filosofia podem dialogar com as artes como pensou o demiurgo e revolucionário James Joyce.
O Modernismo Joyciano resgatou dois dos mais importantes legado dos Gregos: O Ulisses ( séc VIII – I X a.c. ) e o movimento circula ( movimento divino ) que determina a estrutura do Finnegans Wake. Os caminhos do criador não nosso caminhos repicou o Sr Deasy (Ulisses, cap. 2 ) . Os caminhos de toda a literatura ocidental começam na Grécia e terminam em Joyce, para recomeçar não sabemos onde ainda.



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