O Oscar que quebrou tabus

“O Segredo dos Seus Olhos”, de Campanella, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro

Por Walter Salles (*)
O Globo

A versão 2010 do Oscar foi, talvez, a mais reveladora dos últimos anos. Terminou com a vitória de um filme independente que demorou cinco anos para encontrar financiamento e que, até o festival de Toronto de 2009, não tinha distribuidor. Por pouco, o excelente filme de Kathy Bigelow, “The hurt locker” (ou “Guerra ao terror” na sua infeliz tradução brasileira), não teria chegado ao público.

O primeiro tabu que foi ao chão com a vitória de “Guerra ao terror” sobre “Avatar” é o de que a crítica cinematográfica não faz mais diferença. Faz, e muita. Não fossem as vitórias incontestáveis do filme de Bigelow nas Associações de críticos de Nova Iorque, Los Angeles e dezenas de outras cidades americanas, não fossem as vitórias como melhor filme e melhor diretor outorgadas pela respeitadíssima Associação de críticos de Londres, “Guerra ao terror” não teria chegado com tamanha força ao Oscar.

Sintomaticamente, pode-se pensar que no seio da chamada “indústria”, Bigelow representaria o filme de autor em confronto com o filme comercial. Também não foi o que aconteceu, e essa talvez seja a constatação mais interessante do Oscar para o Brasil, em um momento em que alguns teimam por aqui em opor “cinema popular” e “cinema de autor”: os irmãos Coen, Tarantino, Bigelow, Eastwood e mesmo Jim Cameron representam o cinema de autor que dialoga, em graus variados, com o público. Campanella, idem, na Argentina. Audiard, do ótimo “Um profeta”, faz a mesma coisa na França.

Outra lição, que os editores de “Guerra ao terror” lembraram ao receber o Oscar: o filme foi feito sem concessão, sem os testes de audiência de praxe nos EUA, sem interferência externa de distribuidores. Por aqui, há quem defenda com anos de atraso esses “testes de audiência” como um admirável mundo novo para a cinematografia brasileira. Como se fossem diferentes daqueles que as novelas de TV fazem, com competência, há 30 anos.

O Oscar 2010 também evidenciou, na decisão do Melhor Filme Estrangeiro, a distância que separa o evento americano dos grandes festivais europeus. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, “A fita branca”, o brilhante filme de Haneke, era dado como favorito ao Oscar. A vitória de Campanella surpreendeu a muitos, mas premia um diretor rigoroso, de grande domínio narrativo. Campanella conhece bem os códigos cinematográficos americanos, tendo dirigido episódios de seriados como “House”. Poderia estar filmando nos Estados Unidos, mas não abdica de trabalhar junto de suas raízes. Cinema com uma mirada própria, que a Academia já havia reconhecido com a indicação de seu filme anterior — “O filho da noiva”.

Cinema de ator, também, porque há que se relevar o fator Ricardo Darín. Não é à toa que Javier Bardem o considera o melhor ator da sua geração em língua espanhola. Darín é um ator que humaniza personagens como ninguém. Na primeira vitória argentina no Oscar, a excepcional Norma Aleandro havia conquistado corações e mentes em “A História oficial”, de Luiz Puenzo. No filme de Campanella, é Darín quem sustenta a trama.

Campanella foi o primeiro a dizer que uma vitória no Oscar não vai resolver os problemas estruturais do cinema argentino. No entanto, é inegável que vai trazer mais oxigênio a uma cinematografia que já tem o mérito de permitir que gerações diferentes de cineastas possam se expressar livremente, e com constância. Com financiamento centralizado no INCAA (Instituto de Cinema e Audiovisual Argentino), de forma não muito diferente da antiga Embrafilme, o cinema dos nossos hermanos consegue ser plural e, a cada ano, revelar novos diretores. Isso, a custos muito inferiores a dos filmes brasileiros — uma das vantagens de não se trabalhar com incentivos fiscais.

Se o cinema argentino é bom, é também graças à existência de grandes produtores que ajudam a pensar e conceitualizar um filme, como Oscar Kramer (“A História oficial”) ou Lita Stantic (“O pântano”). Também graças a eles, os temas eleitos não são quase nunca tratados de forma frontal, e sim indireta. Nada soa didático, sublinhado. Os espaços em branco convidam o espectador a entrar dentro do filme.

As pontas se juntam: o crítico Peter Bradshaw, do jornal inglês “The Guardian”, disse que o filme de Kathy Bigelow “repudia a narrativa tradicional, sendo construído como uma série de momentos impressionistas”, que convidam o espectador a completar o filme. A crítica Isabelle Regnier, do “Le Monde”, diz que o filme recusa o julgamento fácil, “sendo essencialmente metafísico”. O mesmo poderia ser dito de um filme de Pablo Trapero ou de Lucrecia Martel…

Voltando ao início: o Oscar 2010 foi rico em ensinamentos. Provou que, ao contrário da imagem daquela entidade monolítica, que espelha o pensamento único de uma indústria, o Oscar é mais complexo do que isso. É uma entidade que congrega hoje seis mil votantes, sendo que quase três mil são atores. Pode-se imaginar, pelo resultado das votações, que esses atores não queiram no futuro virar meras vozes de filmes compostos por imagens digitais.

Há quem tenha visto no resultado do Oscar um repúdio dessa suposta indústria monolítica a “Avatar”, por este ser um filme ecológico, de esquerda, enquanto que “Guerra ao terror” seria, como um western de John Ford, de direita. A tese implode no fato de que é Cameron quem separa, como os conservadores nos Estados Unidos, o mundo entre “o bem” e “o mal”. O fato de o filme ser financiado pelo mesmo grupo que controla o mais retrógrado canal de notícias do planeta, a Fox News, e o afã com que a Fox News defendia “Avatar” não colaboram com a tese conspiratória.

Mas é sobretudo no fato dos Na’vi dependerem de um marine americano para liderar sua guerra “do bem contra o mal” que torna a tese ainda mais discutível. É como se, cá em terra brasilis, os Caetés tivessem necessitado da liderança de um soldado português para comer o bispo Sardinha.

(*) WALTER SALLES é cineasta, diretor de “Central do Brasil” e de “Diários de motocicleta”

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