O ouro acabou – A criação artística está se popularizando, ainda bem!

Reproduzo, a seguir, pensata postada pelo músico e produtor cultural Anderson Foca no Facebook.

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Por Anderson Foca

Sabe o ouro? Aquele metal raro na natureza, bonito e reluzente, que justamente por ser raro tem muito valor? É na metáfora com o ouro que vou tentar explicar as relações com o fazer artístico nos dias de hoje.

Quantas vezes você já ouviu expressões do tipo: “não se fazem mais bandas como antigamente” ou “as músicas boas dos Beatles jamais aparecerão de novo”. A verdade é que essa análise é tão rasa e superficial que não precisa ir muito longe para derrubar essa tese. O que houve com o mundo? Ficamos burros dos anos oitenta para cá? Passamos a ser incapazes de compor uma música genial ou pintar um quadro incrível? A resposta me parece óbvia: é claro que somos capazes de fazer coisas incríveis e ainda melhores do que já foi feito.

Para falar de música, que é o meu fazer artístico principal, vou tentar explicar porque que eu acho que o mundo não ficou burro da noite pro dia. A tecnologia e as facilidades de acesso transformaram a arte numa atividade acessível e primordial na vida de todos os cidadãos.

Nos anos 60 e 70, época em que a maioria dos artistas pop do rock surgiram, dentre eles os incríveis Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, Deep Purple e outras centenas de artistas, gravar um disco, entrar em estúdio, prensar um vinil e divulga-lo a ponto do trabalho se tornar popular era inviável pro cidadão comum. Esse trabalho era feito por enormes conglomerados do entretenimento que passaram a trabalhar a música como um produto. O monopólio do poder de convencimento criado em volta desses artistas somados a incrível habilidade artística desses trabalhos tornou esses discos clássicos e intocáveis na discografia de qualquer amante da boa música. Até hoje é meu fruto de pesquisa e fonte inspiradora. Sou fã incondicional de todos eles.

Para fazer um parâmetro com os dias atuais, quantos discos foram lançados nessa época? Quantas bandas tinham alguma visibilidade midiática para poder ser acessada pela população? Não é a toa que chamamos os anos 60 de “a época de ouro” da música (pop). Gravar discos era raro e para poucos, naturalmente o amor pela música, condição primitiva do ser humano, transformou àqueles escolhidos pelas gravadoras/produtores em monstros sagrados e intocáveis da música mundial. Aí entra a metáfora com o ouro que me fez escrever esse texto. A música pop como conhecemos nos anos 60/70 era movida por poucos artistas se comparados aos dias de hoje e me parece claro que com uma população global, pronta para consumir música em escalas abissais não era missão ingrata transformar 10.000 artistas lançados pelo mundo nesse período em lendas. Eles eram o ouro, os raros, os iluminados trazendo a genialidade para as pessoas normais. Tudo movido pela escassez de informação e acesso.

Claro, ninguém tira o mérito de álbuns absolutamente geniais na discografia do Pink Floyd ou dos Rolling Stones. A condição artística desses grupos está acima do bem e do mal. Mas o que será que aconteceria com um grupo como o Pink Floyd se ele aparecesse nos dias de hoje? Será que eles teriam as mesmas condições de se tornarem o OURO da música no mundo?

O fato é que hoje a criação artística está entrando no cotidiano das pessoas comuns. Comprar um computador e um violão, usar plugins e plataformas que os Beatles jamais tiveram e gravar um trabalho no quarto de casa é tão viável que tornou a criação um exercício pro cérebro e para alma. A arte tornou-se viável para qualquer pessoa que queira se expressar. Compre uma câmera legal pagando 1/20 do que você pagava pelo mesmo produto há 20 anos (com muito mais tecnologia), entre num tutorial no youtube sobre o assunto e em uma semana de estudos e alguma prática você já está batendo fotos lindas.

Quantos carregamentos diários de música tem uma plataforma como o SoundCloud? Será que não tem nada genial sendo carregado lá? Claro que tem, e muito. Só que agora a produção musical não vive mais a época da escassez. Encontrar um trabalho genial no meio de tanta oferta requer sorte e interesse pessoal. O álbum branco dos Beatles não vai chegar no colo das pessoas como chegava antes, numa exposição tão absurda que ficava impossível não ouvi-lo pelo menos uma vez, e como o trabalho é excelente tornou-se uma unanimidade. Teremos cada vez menos unanimidades. Entre os jovens, as preferências musicais dentro de um mesmo estilo são tão absurdas que mesmo eu, um estudioso do rock pelo mundo, não consigo acompanhar minimamente os grupos. Tem mil “Weezers” e “Foo Fighters” sendo consumidos e eu realmente nem saberia que essas bandas existiam até algum amigo me mostrar e eu gostar (junto com outras trinta). Virar fã incondicional de 3 ou 4 bandas como se fazia nos anos 60 é improvável. A Beatlemania já era.

A criação artística caminha a passos largos para a popularização extrema, onde todo mundo com algum exercício, repetição e interesse vai poder se expressar sem que isso seja necessariamente um bem de consumo pra outras pessoas. O ouro de outros tempos vai virar areia de praia, onde você vai poder sentar e construir seu próprio castelo, se relacionar com o parceiro ao lado sobre a obra e ficar feliz pela criação por si só, e não pelo resultado financeiro que aquilo vá acarretar.

Os criadores magníficos e inspirados ainda serão remunerados muito mais pelo conceito, relevância e meritocracia criado pelos próprios relacionamentos pessoais do que pelos mercados consolidados. O crowfunding já é um exemplo claro de como isso vai acontecer. O poder midiático ainda vai atuar em artistas cada vez menos envolvidos com cultura e muito mais envolvidos em entreter superficialmente as pessoas. Esse sim um novo mercado criado e consolidado a partir do final dos anos 70 e que funciona até hoje e vai continuar funcionando. As relações culturais diretas baseadas em shows, na exposição de artes plásticas ou num sarau serão a linha direta da afinação entre criadores. Por isso que shows estão cheios de músicos, saraus cheios de poetas e exposições cheios de designers. Todos nós viramos tudo, ninguém é só mais palco e ninguém é mais só plateia.

O Led Zeppelin ou o Van Gogh podem estar locados aí pertinho de você ou postando uma peça artística no seu facebook. Ou quem sabe você mesmo não é um artista em potencial? A época do ouro passou, ainda bem. Bem melhor agora. A expressão “viver é uma arte” nunca fez tanto sentido. Até a próxima.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ View all posts ]

Comentários

There are 4 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 26 de Fevereiro de 2013 11:09

    Quantidade não é qualidade. antiga essa frase né!

  2. foca 27 de Fevereiro de 2013 8:02

    Anchieta, essa análise não foi abordada nesse texto. E sim quantidade não é qualidade já na semântica da palavra, mas quanto mais gente praticando, mais chance de aparecer trabalhos legais. É a natureza, e isso tbm vem dos tempos antigo. 🙂

  3. Anchieta Rolim 27 de Fevereiro de 2013 11:12

    Ok! foca.

  4. Wagner Cabral 28 de Maio de 2013 12:18

    Excelente análise, Foca. Sobre essa diversificação de oferta há um fenômeno chamado “Cauda Longa” (ref. http://pt.wikipedia.org/wiki/Cauda_longa) que trata exatamente dessa redução de unanimidades, grandes leviatãs do mercado por uma infinidade de pequenos príncipes (e princesas). Creio que mais que nunca a função da indicação se torna importante: o poder de fazer uma boa curadoria é essencial para indicar às pessoas o que tem de relevante em meio a tanto ruído.

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