O pensamento político de Cascudo

Bertolt Brecht acabou a vida na Alemanha soviética. Discutir a política em sua obra é ampliar essa faceta biográfica ou dissecar seus textos da vida toda, além de analisar em profundidade o próprio Stalinismo e seus supostos avessos – aquela democracia que lançou bomba atômica sobre populações civis em Hiroshima e Nagasaki?

Gostei dessa proposta de Cortez (discutir o pensamento político de Câmara Cascudo). Em meu entendimento, o debate sobre a dimensão política de Câmara Cascudo (ou de qualquer outro autor) deve estar concentrado principalmente na obra de Câmara Cascudo (ou de outro autor, se for o caso). Os textos de Cascudo são panfletos integralistas (ou para-fascistas)? Os textos dele são algo mais além de panfletos – contêm metodologia e poesia, que os panfletos não podem alcançar?

Certamente, a ação partidária de qualquer escritor é de grande interesse para a compreensão de sua obra mas eu priorizo debater o recorte político da própria escrita. Afinal, Salazar não escreveu “Made in Africa…” Salazar deve ter apoiado Gilberto Freyre mas não escreveu “Casa Grande e Senzala”… Stalin não escreveu “Memórias do cárcere”, muito embora Graciliano tenha sido comunista no tempo de Stálin e escrito um livro de viagem à URSS (Viagem – Checoslováquia – URSS).

É necessário, no debate intelectual, evitar priorizar bastidores e perder de vista as obras dos autores discutidos. E vale lembrar que a dimensão política de um autor não se extingue em suas falas e ações explícitas sobre política, há um inconsciente político e cultural que precisa ser explorado em suas obras, não apenas em suas filiações partidárias. “Literatura oral” é um projeto integralista ou uma ousada e sofisticada reflexão com desdobramentos políticos que expandem a cidadania cultural? A pintura de De Chirico e Morandi é fascista?

Debater a dimensão política de Cascudo significará, ainda, discutir as próprias referências evocadas. Já lembrei em comentário anterior que o Integralismo não é unanimemente entendido por estudiosos como simples repetição do Fascismo italiano. Hélgio Trindade publicou um estudo em que enfatiza essa identidade: “Integralismo – O Fascismo brasileiro na década de 1930″. José Chasin rejeitou essa interpretação noutro livro (que foi sua tese de doutoramento): “O Integralismo de Plínio Salgado” – ele salientou a identidade entre Fascismo e Capitalismo avançado, que não viu no Brasil do Integralismo. Antonio Cândido falou em Para-Fascismo, não em puro Fascismo (prefácio ao livro de Chasin).

O livro “Viajando o Sertão”, de 1934, contém passagem elogiosa a um nazista com quem Cascudo cruzou e há outros trechos de admiração por Hitler (não lembro bem se no mesmo livro ou em artigos de jornal). Isso não permite deduzir apressadamente que Cascudo foi nazista pois Nazismo é mais que simpatia por Hitler ou por um nazista do sertão potiguar. Desconheço evidências de anti-semitismo – importante item da ideologia nazista, como se sabe – em Cascudo. A obra dele não reafirma racismo, ele leu direitinho “Macunaíma”, “Retrato do Brasil” e “Casa grande e senzala”! Já lembrei antes os comentários de Boris Schnaiderman sobre a marginália de Cascudo nos livros de Gustavo Barroso, plena oposição ao anti-semitismo desse autor.

Defendo, portanto, que a proposta de Cortez seja implementada, com ênfase na obra do escritor, evitando um perigoso clima de coluna de fofocas – que, evidentemente, não se faz presente em Cortez mas pode, por distração, ser reforçado pelos difamadores boçais de plantão, incapazes de debaterem as obras dos outros mas atentos a detalhes biográficos mais ou menos óbvios e supostamente comprometedores. Afinal, quem nega que Cascudo foi integralista e direitista? A questão real é: outros integralistas e direitistas escreveram, uma obra com o mesmo alcance? A qualidade dessas obras derivou da militância integralista de seu autor?

Tenho dúvidas sobre a importância literária de Plínio Salgado mas esse é outro debate.

Sugiro que Cortez procure as instituições por ele evocadas, mais a UFRN, para que sua idéia vá adiante.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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