O perdão, essa liberdade

“Sun and Life”, Frida Kahlo (1947)

Foi de uma amiga que ouvi pela primeira vez há uns bons anos: só quando você perdoar, vai se livrar da dor. Lenta, passei um tempo entendendo, precisando perdoar. É preciso livrar-se da necessidade de perdoar. E para isso, só tem um jeito, é como a história da tentação: ceder, sucumbir ao perdão. Só assim nos livraremos dele, e também da mágoa, da dor e do veneno que guardamos enquanto não conseguimos perdoar. Ceda ao perdão, sempre que puder. Nem sempre se pode, mas a falta de perdão só faz mal a uma pessoa: a quem não o dá.

O perdão não é uma atitude generosa, mas necessária ao seu bem estar. E perdoar não significa que você vá passar a andar de mãos dadas com quem lhe ofendeu. Significa apenas que você vai livrar-se. Da dor, da mágoa, do veneno e… Por que não da pessoa que, querendo ou não, lhe causou esse processo nefasto?

Perdoar é coisa difícil. No mais das vezes mentimos quando dizemos ter perdoado rapidamente uma ofensa sofrida. O perdão é um processo, um processo de perder-se um pouco, deixar sair de si sentimentos como orgulho, vaidade, egocentrismo que, afinal, são um pouco (ou um muito) de nós. O perdão, disse alguém, é uma perda grande. É. É assim que deve ser considerado. Dependendo da mágoa, perdoar dura dias, meses, anos. Quando se completa, liberta esplendorosamente. É uma epifania esse tal de perdoar.

Mas não se pode mentir, fingir que perdoou. Senão a mágoa fica dentro de nós, intocada e intocável, já que fingimos sua inexistência. E mesmo intocada, ela nos munirá de farpas, as quais distribuiremos aos outros, não necessariamente (apenas) a quem nos magoou. E aí, acontece o terrível, o verdadeira e dolorosamente terrível: a amargura.

Nem sempre as pessoas magoam as outras por querer. Aliás, penso que na maior parte das vezes magoamos e somos magoados não de forma voluntária, mas porque há um movimento do mundo e da vida, um movimento cósmico que nos dispõe perante os outros, de modo a fazê-los felizes ou infelizes, mesmo sem dependência de nossa vontade. Na maior parte do tempo, cuidamos da nossa vida, e esse cuidar acaba machucando uma terceira pessoa, que não tem nada a ver com a nossa história. Não nos direcionamos a magoar outrem, mas, às vezes, magoamos.

O perdão fica mais fácil quando a gente sabe que alguém nos magoou sem querer? Não creio. O perdão depende da fundura da dor. E às vezes, mesmo sem querer, magoamos muito. Sem querer não significa sem saber. Às vezes, no cuidar da nossa vida, sabemos que vamos magoar alguém, embora as nossas ações não tenham absolutamente nada a ver com aquela pessoa. E às vezes, para não magoar outrem, optamos por nos machucar. Mas o nosso instinto de sobrevivência e a nossa preferência por nós mesmos, pela nossa preservação, tornam essa situação raríssima.

Acontece também de a gente magoar quem está perto, quem amamos. E esse magoar é inevitavelmente duplo. É impossível ferir que amamos sem nos ferir. Por essas e outras, perdoar-se, aprender a dar-se perdão, é um bom começo de cura.

Perdão é epifania. É felicidade profunda, libertação. Perdoar é doar, mas tem algo de receber também. Não é generosidade. É precisão da gente.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 19 de maio de 2011 9:57

    Obrigada Romana. Um abraço para você.

  2. Carmen Vasconcelos 19 de maio de 2011 8:30

    Grata, sempre, pela gentileza, Jarbas.

  3. Romana Alves 18 de maio de 2011 23:40

    Carmen,

    Não há como não sucumbir ao perdão depois desse texto…Que me perdoem os rancorosos, mas duvido sinceramente que resistam…Muito belo mesmo!

  4. Jarbas Martins 18 de maio de 2011 18:31

    uma ontologia do perdão…não.deixa pra lá, Carmen.isto é apenas um belo texto poético seu.

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