O pior do caso da Gisele Bündchen

Por Gilberto Dimenstein
FSP

Há um grupo de pessoas, do qual eu faço parte, que é muitas vezes debochado por ser “politicamente correto”. Nunca entendi bem essa crítica, afinal o que se pretende é preservar os direitos de quem, no cotidiano, é vulnerável. Isso significa apenas educação para a cidadania: um olhar crítico a comentários que possam ofender negros, judeus, mulheres, deficientes, migrantes, nordestinos, homossexuais. Mas está virando moda dizer que essa visão é atrasada e estimularia a censura. Aí está o pior do caso do comercial da Gisele Bündchen.

Pode-se achar a propaganda de mau gosto, mas, em alguns casos, a repercussão acaba dando força a quem se imagina engraçadinho ao desrespeitar as outras pessoas. É um exagero, na minha visão, o governo tentar coibir esse anúncio.

Gosto muito mais da ideia de brigar no campo das palavras: estimular o debate.

A santinha Sandy fazendo pose de devassa para vender cerveja? Vamos mostrar o ridículo. Rafinha Bastos brincando com estupro? Vamos fazê-lo ver a falta de graça e que tudo tem limites. Mulheres se sentem ofendidas em se ver como objeto sexual? Compre-se outro sutiã.

O governo entrar como entrou contra o comercial soa um tanto ridículo.

O pior do caso da Gisele é passar a sensação de que o politicamente correto é ser chato e intolerante. Quando, na verdade, o que se combate é a intolerância em nome do respeito à diversidade.

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Jota Mombaça 4 de outubro de 2011 9:17

    Presumi que não escrever o “De Estado” fosse suficiente para retirá-lo do conceito. Quanto ao problema do “Aparelho”, me preocupo se tomá-lo como centro de onde emana a Ideologia, no entanto reconheço que a Ideologia precisa de dispositivos que façam sua manutenção, então talvez eu possa pensar em “Aparelho” como dispositivo de manutenção e não centro de onde emana. Ora, conceitos são dinâmicos – por exemplo, a Ideologia, que em Marx/Engels diz respeito à maneira pela qual as classes dominantes outorgam sua dominação perante a sociedade; em Alípio (e o Discurso em Foucault) se trata de um fenômeno ligado a todo o processo de significação social, independente da questão de classes.

    Marcos Silva, talvez lhe interesse saber que estou na fase embrionária desta investigação da Publicidade como Aparelho Ideológico. Estou ainda nas primeiras balizas conceituais, organizando bibliografia, etc.. Aliás, é a minha primeira investigação “científica”. Podendo, me ajude!

    Quanto ao pessoal do Rock in Rio, não os conheço, nem quero partir para as tipificações arbitrárias. Deixemos isso aos publicitários!

  2. Marcos Silva 3 de outubro de 2011 17:50

    Jota Mombaça: Somente agora vc esclareceu o uso peculiar do clássico conceito, que sempre aparece como DE ESTADO. É ,melhor sem. Resta um problema: aparelho. Centro de onde emana a ideologia? Quem ideologiza os ideólogos. São os ideólogos cínicos permanentes?
    Como vc sabe, Marx e Engels, em vida, não publicaram o que depois seria conhecido como “Ideologia alemã”… Será que achavam o conceito ainda cru?
    Foucault dizia que nem era preciso citar Marx (e Engels, provavelmente) para reconhecer sua importância. Isso não o impedia de se diferenciar dele/s. Ideologia não é conjunto de idéias, é exercício brabo de poder. Desde Foucault (talvez ampliando Nietzsche), sabemos que os poderes estão em todos os lugares e vêm de tudo quanto é voz – inclusive, as radicais.
    Por falar em transgredir leis, será que o pessoal do Rock in Rio (com exceção dos ladrões) pensa que transgride alguma? Mas nem todo poder é lei.

  3. Jota Mombaça 3 de outubro de 2011 13:26

    Mas quem falou em Estado, Marcos Silva? Quero investigar a Publicidade como Aparelho Ideológico (ponto). Já tirei o Estado da minha vida, voto 00, transgrido leis e estou mais próximo de Foucault que de Marx.

  4. Marcos Silva 3 de outubro de 2011 10:28

    Jota Mombaça:

    Intelectuais em geral – inclusive os radicais de salão – vivem diante do espelho perguntando: espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais brilhante do que eu?
    Quanto aos aparelhos ideológicos de estado: é um conceito frágil, não sei porque dizer que são DE ESTADO, como se estado fosse tudo. A esperteza da ideologia é perpassar tudo. Foucault admirava pessoalmente Althusser mas desconfio que foi mais longe na visão dos mil poderzinhos espalhados de cabo a rabo.

  5. Jota Mombaça 3 de outubro de 2011 9:18

    Marcos Silva, penso que a Publicidade como Aparelho Ideológico é um problema maior que o ego ferido dos intelectuais.

  6. Marcos Silva 3 de outubro de 2011 4:45

    Os intelectuais inofensivos de meia-idade são uma parcela pequena da sociedade, não sustentam o mercado de nada. A publicidade é mais agressiva: tendo dinheiro (o suficiente pra comprar aquele produto), caiu na rede, é peixe. Nesse sentido, intelectuais arrogantes e jovens, carregando a cruz da revolução, tb fazem parte do público alvo, quando não são os próprios publicitários.E são intelectuais de shopping, intelectuais de botequim, intelectuais de feira cultural, intelectuais de blogs…

  7. Jota Mombaça 2 de outubro de 2011 23:08

    O pior do caso da Gisele Bündchen é que a Publicidade trabalha na perspectiva de um público-alvo. Para isso, dedica-se à pesquisa de mercado – que é o processo através do qual pretende-se traçar um perfil médio de determinado recorte da sociedade (intelectuais inofensivos de meia-idade, p. ex.) a fim de desenvolver campanhas capazes de aplacar os anseios específicos de cada “grupo social” e direcioná-los. Pior ainda é constatar o caráter invasivo dos métodos rigorosamente científicus de que essas pesquisas se valem: etnografias, perfis psicológicos e (PASMEM) neuromarketing são exemplos de como a ciência colabora com a publicidade. Os marketeiros querem compreender a mente humana para então comerciá-la. O pior do caso da Gisele Bündchen não é o desrespeito às mulheres, mas o fato de que o idiotizante comercial da Hope não só ecoa num como, em alguma medida, atende a um público-alvo e ainda, noutro nível, forma este público, reífica este padrão, engendra comportamentos sociais. O pior do caso da Gisele Bündchen não é o caso da Gisele Bündchen, mas a Publicidade como Aparelho Ideológico.

  8. Marcos Silva 2 de outubro de 2011 10:25

    Que esperar da publicidade? De seu ponto de vista, tudo vale a pena se o produto for vendido! A crença do publicitário é vender o produto que ele anuncia.
    Agora: penso que homens e mulheres usam a capacidade de seduzir, sim, na hora de falar coisas desagradáveis. Fico imaginando um anúncio de cuecas (um modelo bonitão, é claro) daquelas que mostram mais do que encobrem: amor, o que vc diria se soubesse que fui demitido sem indenização?
    Lembro de uma colunista horrorizada, há alguns anos, porque uma atriz diabética fez propaganda de caipirinha pré-fabricada, quando, em sua vida privada, não podia beber uma gota de álcool. Achei bobagem o escândalo: quem trabalha em anúncio não fala de sua vida, fala o que a agência de publicidade mandou falar! E costuma ser bem pago para isso.
    Depois desse anúncio, continuo a pensar o mesmo sobre Gisele: bonitona.

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