O poder sob o signo da vaidade

Por Elias Thomé Saliba (*)

Em junho de 1940, Valentin Berjkov, intérprete russo da delegação diplomática em Berlim, impressionou-se com a familiaridade do cenário alemão e quase chegou a sentir-se em casa, registrando em seu diário: “A mesma idolatria pelo líder, os mesmos comícios e paradas em massa… muito semelhantes, a arquitetura ostentosa, os temas heroicos na arte bem parecidos com o nosso realismo socialista, adicionando-se também a igual e maciça lavagem cerebral ideológica.”

Por mais de 50 anos, este testemunho de Berjkov sobre as semelhanças entre os dois regimes, foi sepultado pela memória coletiva. Vingou a tese de que Hitler teria sido um monstro puro e simples e Stalin, um homem forçado a preservar, por meios truculentos, os “nobres fins” que o comunismo soviético dizia defender.

Com a queda do Muro e o fim dos regimes comunistas, o testemunho de Berjkov tornou-se cada vez mais atual, pois dezenas de publicações dos últimos 20 anos confirmaram suas descrições, transformando nossa compreensão da Alemanha de Hitler e da União Soviética de Stalin. Fomentado inicialmente pela abertura dos arquivos da antiga URSS, o processo de revisão histórica, contudo, só tomou forma quando uma nova geração de pesquisadores alemães deixou de lado o constrangimento recalcado, produzindo uma avalanche de novos estudos sobre os “anos terríveis”.

Em Os Ditadores – A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler (tradução de Marcos Santarrita), o historiador inglês Richard Overy oferece aos leitores, além de um ensaio de história comparada, uma síntese dessas pesquisas mais recentes. Hoje ninguém mais duvida dos horrores perpetrados por ambas as ditaduras, mas virou um exercício fútil comparar apenas a horrenda criminalidade de cada uma ou tentar descobrir qual o regime mais assassino. O leitor também não espere por uma dupla biografia espetacular, até porque as histórias de vidas de Stalin e Hitler estão entre as mais examinadas nos últimos anos. Muito além da imagem simplista de dois déspotas histriônicos e onipotentes, Overy analisa com amplo domínio das fontes toda a tessitura da complexa dinâmica que manteve os dois regimes por tantos anos.

O resultado é um livro abrangente e cheio de revelações. Por mais irrestritas que tenham sido as bases do poder de Hitler e Stalin, suas ditaduras floresceram sobre uma vasta rede de cumplicidade, alimentada por motivos que iam do idealismo ingênuo ao mais entranhado medo. Russos ou alemães que aderiram aos regimes eram parte daqueles funcionários imbecilizados pela obediência às ordens, praticantes da “banalidade do mal” – na consagrada expressão de Hannah Arendt? Ou estariam mais próximos daqueles militantes movidos pela convicção e que fizeram tudo com “conhecimento de causa”?

Overy amealha as mais notáveis pesquisas sobre o tema da obediência, realizadas por Stanley Milgran (1974), Salomon Asch (1952) ou Christopher Browning (1992): elas comprovaram a facilidade com que as pessoas comuns podem ser conduzidas tanto a agir de maneira cruel como a desacreditar da evidência dos próprios olhos. Milgram teria descoberto uma espécie de “Eichmann latente” no homem comum – que só viria à tona naqueles momentos e situações nos quais algumas pessoas receberam um poder total sobre todas as outras. Overy se afasta criticamente das polêmicas sobre o Batalhão 101 (responsável por milhares de mortos na “Solução Final” na Polônia), que foi o tema da pesquisa de Browning e do psicologismo excessivo das outras duas pesquisas, ilustrando-as com as singularidades históricas da obediência ou da resistência popular em cada um dos regimes.

No universo nazista e stalinista um esmagador senso de certeza histórica só vingou pela quase completa devastação dos dois pilares que sustentavam o campo da ética: a jurisprudência convencional das leis e a religião organizada. Cada uma das ditaduras criou um forte senso da própria legitimidade, partilhada por grande parte da população. Com testemunhos fortes, Overy demonstra como Hitler e Stalin foram muito competentes em atrelar nas rodas da história duas das mais poderosas – e repreensíveis – emoções humanas: a inveja e o ressentimento. Esta fábrica de certezas só pode ser compreendida desenrolando-se os fios tanto da roupagem utópica do nazismo e do stalinismo quanto do traje moral com o qual os dois sistemas se travestiram.

Apesar de severamente reprimida, a opinião popular não chegou a se extinguir em nenhum dos dois regimes, expressando seu descontentamento furtivo através de fofocas e mensagens humorísticas. Piadas e versos constituíram, para alemães e russos, as únicas válvulas de escape para aqueles que, impotentes em confrontar diretamente o regime, alimentaram uma espécie de “pequena contracultura”, muito difícil de censurar ou reprimir. Os arquivos da Gestapo em Baden guardam materiais preciosos. Em outubro de 1934, crianças de escolas judias foram ouvidas cantando uma cantiga comum, mas com uma letra enigmática, que substituía o então falecido presidente Hindenburg por Hitler: “Hitler, o grande cavaleiro, tem um para-raios no rabo e um pepino em conserva na frente/ por isto é que se chama Hitler.” No lado soviético, predominaram versos e enigmas escatológicos. “Lenin morreu e nós descansamos/ Mas se aquele outro camarada lá de cima morrer/ nós descansaremos mais ainda.” Já noutro conto popular, Stalin é salvo de afogamento por um camponês: “Peça qualquer coisa, seu desejo vai ser concedido. Eu sou Stalin.” Resposta do camponês: “Não quero nada, mas, por favor, não diga a ninguém que salvei você. Eles vão me matar.”

Na análise comparativa do esforço bélico das duas ditaduras, Overy retoma as linhas interpretativas mais recentes. Não foi a Europa Ocidental, mas aquele território mais ou menos situado entre a Polônia e a Ucrânia, o verdadeiro centro de gravidade da guerra: ali foi o “espaço vital” das ambições nazistas, a base do poder soviético, virou a cena do Holocausto e das mais execráveis atrocidades e ainda foi a região onde se desenvolveram mais de três quartos dos combates militares. O historiador detalha a maneira com as apostas de cada lado foram absolutas: um tudo ou nada que gerou a maior carnificina do século 20 e desenhou o cenário geopolítico decisivo da 2ª Guerra Mundial. Foi o paradoxo da guerra total – uma guerra que, afinal, jamais poderia ter sido travada por Estados democráticos. Paradoxo só possível de definir, para Overy, por outro paradoxo, esse do seu conterrâneo Winston Churchill: “Se ganharmos a guerra, ninguém se importará. Se perdermos, não haverá ninguém para se importar.”

Elias Thomé Saliba é professor titular de Teoria da História na USP e autor, entre outros, de Raízes do Riso (Companhia das Letras)

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