“O poema”

Sophia de Mello Breyner Andresen

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. “Livro sexto”. In:_____Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Danclads Andrade 6 de agosto de 2011 14:21

    O poema-guia leva-nos onde está o indizível…
    Onde a eternidade rebenta suas ondas,
    Onde o nosso eu é o não-ser,
    Onde já não precisamos falar:
    Ele dirá tudo!!

  2. Ednar Andrade 6 de agosto de 2011 13:43

    Maior de grande….

    “No ar claro nas tardes transparentes
    Suas sílabas redondas

    (Ó antigas ó longas
    Eternas tardes lisas)

    Mesmo que eu morra o poema encontrará
    Uma praia onde quebrar as suas ondas”.

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