O poeta da paixão

Eduardo Maia/NJ

Por Rafael Duarte
Foto: Eduardo Maia
NO NOVO JORNAL

JOSÉ CASTELLO É, de fato,
um crítico por natureza. A
entrevista marcada às 18h da
quarta-feira só começou no
horário por imposição dele. De
nada adiantaram os 25 minutos
antecipados pelo repórter. Por
telefone, do quarto, o biógrafo
de Vinícius de Moraes mandou
avisar pela recepção que só
desceria pontualmente às 18h.
Na hora marcada, já no
saguão, mostrou-se crítico
de si mesmo. Esquecer o
desodorante pareceu doloroso
em que pese a constatação
óbvia de todo viajante: “Não
tem jeito, em viagem a gente
sempre esquece alguma coisa”,
comentou resignadamente
crítico caminhando em direção
à sala onde, durante 60 minutos
e uma xícara de café preto, falou
sobre a polêmica da censura às
biogra as, o trabalho de pesquisa
dos personagens sobre os quais
se debruçou e, sobretudo, falou
em Vinícius, poeta apaixonado a
quem dedicou uma biogra a há
20 anos.

A vida e a obra de Vinícius
de Moraes foi revisitada durante
cinco anos pelo jornalista,
escritor e crítico literário José
Castello, 62 anos. Nesse tempo
descobriu que por trás da mística
que cercava o poeta – sempre
de copo na mão e arrodeado de
mulheres – havia um homem
comum e, por vezes, melancólico.
Mas que, independente de
qualquer rótulo, olhando para o
presente, Vinícius é a antítese do
nosso tempo.

“O Vinícius está na
contramão de tudo o que a gente
está vivendo. Hoje o mundo é
pragmático, estamos no tempo
das medições, dos grá cos, das
relações do custo-benefício.
Ele era impulso. Vinícius fazia
as coisas por paixão e, hoje,
os amores se dissolvem muito
facilmente”, analisa.

Em meio às comemorações
pelos 100 anos de nascimento
do poeta da paixão, Castello
lembra que procurou, no livro,
desfazer a lenda de que Vinícius
era um poeta menor. E percebeu
que o uso do diminutivo para
caracterizá-lo como ‘poetinha’ e
a forma carinhosa como gostava
de se referir a parceiros e amigos
contribuíram para essa injustiça.

O biógrafo coloca Vinícius
na prateleira dos maiores
poetas do século XX. E atesta
o que diz lembrando de uma
entrevista feita por ele com
o poeta João Cabral de Melo
Neto para o ensaio biográ co
‘O homem sem alma’, sobre o
pernambucano.

“Perguntei a João Cabral
o que ele achava de Vinícius
como poeta. Ele disse que
gostava muito, que Vinícius
seria o maior poeta da língua
portuguesa se não  zesse a
besteira de se meter com a
música popular. Essa é uma
análise preconceituoso da João
Cabral que dizia a todo mundo
que não gostava de música. A
música o fastiava. Mas perceba
que ele colocava Vinícius como
o maior da língua portuguesa.
Os dois eram de uma geração
que tinha ainda (Carlos)
Drummond (de Andrade),
Cecília (Meireles)… é muito forte
isso. Vinícius foi de uma geração
de superpoetas”, comentou.

E foi justamente a poesia
que cativou José Castello.
Apesar de a biogra a retratar
a vida no espaço e no tempo
do personagem biografado, o
escritor lembra que durante
o trabalho de pesquisa se
surpreendeu justamente
pelo que não devia ter se
surpreendido. O Vinícius de
carne e osso, normal como
todo ser humano comum era
bem diferente da aura que ele
carregava.

“Vinícius era um homem
como qualquer outro. Ele não
vivia 24 horas por dia de paixão,
era dado a sua melancolia,
tinha um lado de infelicidade
nele. Não estou dizendo que era
melancólico e deprimido, mas
tinha esses lados. São lados mais
incômodos que não são muito
destacados. Sempre procuram
destacar esse poetinha saltitante
contando histórias engraçadas
e cercado por mulheres. De
certa forma eu escrevi meu
livro contra essa imagem
o cial, para desmontá-la, para
encontrar quem era o homem
que estava sob essa imagem.
Me incomodou muito essa
coisa simpática do poetinha, o
que termina para muita gente
diminuindo o Vinícius como
poeta. Há muita gente que ainda
o vê burramente como um poeta
menor”, critica.

PARA CASTELLO, PROIBIR BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA É UMA CENSURA

O assunto é muito pantanoso.
Mas não tem para onde correr. Segundo
José Castello, proibir a venda
de biogra as não autorizadas é,
de fato, uma censura. Ele contemporiza
lembrando que, apesar das
evidências, di cilmente o episódio
mancharia as biogra as de artistas
como Chico Buarque e Caetano
Veloso, que estão à frente de
um grupo que vem se posicionando
a favor da censura às biogra as
publicadas sem autorização do biografado
ou dos familiares dele, caso
tenha morrido.

“Manchar a biografia do Chico
e do Caetano é muito difícil. Ainda
mais porque eles estão defendendo
a permanência de algo que está na
Constituição. Formalmente eles estão
defendendo a aplicação do que
está na Constituição. Agora essa ressalva
sempre esteve na Constituição
atual e nunca afetou muito o trabalho
de ninguém porque todo mundo
trabalhou a sério. Mas fica estranho
pessoas que lutaram contra a censura
virem agora pedir censura”, diz.

Embora manifeste posição
contrária à censura proposta por
artistas organizados em torno do
grupo Procure Saber, presidido
pela produtora Paula Lavigne, José
Castello ressalta que é importante,
para o sucesso das biogra as, um
trabalho conjunto com os familiares
do biografado sem que isso
torne o livro chapa-branca. E cita
a própria biogra a de Vinícius de
Moraes como exemplo.

“É fundamental trabalhar em
colaboração. Quando escrevi Vinicius
trabalhei o tempo todo em colaboração.
A família me deu entrevistas
longas, eu ligava, tirava duvidas.
No  nal do texto pronto, o editor
o Luiz Schwarcz perguntou se
não era bom alguém da família ler
a biogra a para apontar algum erro,
con rmar alguma data, um número.
Escolhemos a Suzana de Moraes,
 lha mais velha dele. Ela leu, fez
alguns comentários, alguns eu concordei,
outros não. E só mudei o que
quis. Isso não é trabalhar contra ou
a favor, mas em colaboração”, diz.
O autor de ‘Vinícius de Moraes
– o Poeta da Paixão’ (1994), ressalta
ainda a responsabilidade com que
os biógrafos brasileiros têm tratado
os biografados, bem diferente
do modelo de biogra as difundido
nos EUA e na Inglaterra, onde
os escritores procuram devassar a
intimidade dos personagens para
vender mais exemplares.

“Dos anos 80 pra cá temos uma
geração de biógrafos brilhantes que
vêm trabalhando com respeito,
comprometida, que tem trabalhado
com grande qualidade sempre.
A absoluta maioria é de gente séria.
Mas o biógrafo pode errar, a biogra-
 a é um gênero literário, um trabalho
humano e como qualquer trabalho
há deslizes. Às vezes se deixa
de dar ênfase em algo importante,
por exemplo. Mas até onde sei essas
biogra as que viram escândalos
não proliferaram no Brasil”, disse.

ENCONTRO COM VINÍCIUS: INQUIETUDE E FRUSTRAÇÃO

José Castello esperava outra
coisa do único momento em
que esteve frente a frente com o
homem que biografaria tempos
depois. Repórter da revista Veja,
nos anos 70, ele ainda nem sonhava
que, um dia, escreveria
um livro sobre Vinícius. Castello
foi destacado para entrevistar
o poeta para uma matéria curta
que falaria, basicamente, do
show que o poetinha faria em
São Paulo naquela semana. Não
havia tempo para uma longa entrevista
por conta do fechamento
da edição do semanário. Castello
ligou, tentou marcar para
o dia seguinte e ouviu um ‘não’
de Vinícius quando pediu que a
conversa fosse pela manhã. “De
manhã eu estou dormindo”, argumentou
o poeta.

A entrevista, então, foi marcada
para 14h, no apartamento
da cantora Maria Bethânia, que
vez por outra passava ao fundo.
Duas horas depois, com Castello
plantado na sala do apartamento,
Vinícius apareceu com
o rosto todo amassado cheio de
sono querendo saber o que o repórter
gostaria de lhe perguntar.
“Ele sentou do meu lado com a
aquela cara amassada, o cabelo
todo desarrumado e disse: ‘o
que você quer? Vai, pode perguntar’.
Eu fiz umas perguntas,
mas acabou logo”, lembra.
Três perguntas depois, Vinícius
encerrou a entrevista por
conta própria. Disse que já tinha
respondido o que o repórter
queria saber, deu a conversa
por encerrado, se levantou e voltou
para o quarto. José Castello
já conhecia a fama, mas ali percebeu
o que constataria durante
o aprofundamento da pesquisa
de cinco anos que originou o
livro sobre o poeta. “Vinícius era
muito impulsivo”, resumiu

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