O poeta e Mossoró

O Poeta ri. O poeta é engraçado. Encontro os poetas Ledo Ivo e Tiago de Mello na bela e acolhedora Fliporto. Comprimento-os em tom de reverencia e digo que gosto muito da poesia deles e que também escrevo alguma coisa. Eles riem. E respondem: – Nós também escrevemos.

Ledo Ivo dá um show recitando as suas belas poesias. A do rato é maravilhosa. E a inédita feita em homenagem ao Recife, que ele não pode mostrar por ciúmes da sua Alagoas.

Em Mossoró é organizada uma semana em homenagem a Rachel de Queiroz, grande amiga do poeta Ledo Ivo. O poeta é o convidado de honra e nega participação: “ eu disse que era muito longe, que eu estava muito ocupado e que não iria”

Depois, em conversa com a amiga Rachel, ela disse: como é, Ivo. Eu soube que foi convidado a falar sobre mim e recusou?

Ele tergiversou e para evitar rusgas numa amizade tão duradoura, respondeu: “Eu? Eu não. Não recusei. Isso foi um grande mal-entendido. O camarada me telefonou , a ligação estava péssima e ele confundiu tudo; é claro que eu vou! Eu vou!.E fui. E fui., lembra, o corpo sacudido pelo riso. – Eu estranhei muito você não querer falar sobre mim e eu tinha indicado seu nome.

O poeta liga confirmando presença. O sujeito disse que eu estava sendo esperado com um tapete vermelho, que eu era convidado do governador, e que já tinha vendido 500 livros meu, Conta rindo. Sempre rindo!

Depois de esperar três horas em Natal, viajou a Mossoró. “a estrada, você não imagina, eram crateras e mais crateras”. No hotel foi recepcionado por pererecas. Chamou o pessoal e eles, surpresos, responderam que era a primeira perereca que viam em Mossoró, lembra o poeta.
A palestra transcorreu no auditório do teatro tinindo de cheio. O poeta contou tudo a Rachel, e ela tal qual ele, quase morreu de rir.

Deixo vocês com o belo poema do poeta e bem humorado Ledo Ivo

CEMITÉRIO DOS NAVIOS

Aqui os navios se escondem para morrer.

Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão nos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas

sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho

que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,

um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos

varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!

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